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VÓ NENA E OS CAÇADORES: NOITE FELIZ

Um Feliz Natal e um excelente 2017 a todos! Espero que gostem deste conto natalino e arrepiante...

 

VÓ NENA E OS CAÇADORES: NOITE FELIZ

 

Dia 26 de dezembro, plena segunda-feira e o retorno das atividades em um dos mais frequentados shoppings de São Paulo. Eram quase dez da manhã quando o vigia, ainda bocejando de sono, finalmente chegou à sala onde era feito o monitoramento das muitas câmeras de segurança do estabelecimento.

Estranhou encontrar a porta trancada, ainda mais porque ouviu barulho lá dentro. Chamou então o companheiro:

- Ô, Mané, é você? Abre a porta, caramba!

Os ruídos cessaram, e alguns instantes de silêncio se seguiram antes que a porta fosse aberta.

- Joca, entra rápido!

Depois que o colega entrou, incomodado com a expressão de medo dele, Mané voltou a trancar a porta. Rapidamente sentou-se diante de um dos computadores e se pôs a selecionar alguns arquivos. Enquanto isso Joca olhou ao redor, e descobriu o que estava fazendo aquele barulho.

Em uma mesa próxima havia dois pedaços de madeira sólida, um pesado martelo e pedaços de CDs estilhaçados. Joca se virou para Mané e perguntou:

- Tá doido? E se o gerente de segurança pega você destruindo as mídias? E ainda tá mexendo nos arquivos, para quê?

Mané continuou selecionando os arquivos, e depois transferiu todos para uma pasta. Já ia apertar o botão para deletar tudo quando olhou para Joca. Parou um instante, baixou a cabeça, voltou a olhar o colega e finalmente disse:

- Se você tivesse visto o que eu vi no dia 24, também faria a mesma coisa.

Diante do olhar de dúvida de Joca, Mané começou a contar a história.

 

Dois dias antes...

 

O shopping estava absolutamente abarrotado de gente na véspera de Natal, e Vó Nena teve que apelar:

- Ô cão dos infernos, vê se arruma uma vaga prá gente, P.!

Ela bateu no volante do Fusca azul, que acelerou pelos estreitos corredores. Uma mulher estava estacionando um utilitário esportivo em uma vaga para idosos, e chegando perto os faróis e os instrumentos do painel do Fusca se acenderam com um brilho vermelho. A mulher voltou-se para o carro antigo com olhar vidrado, deu ré quase batendo em outro carro que passava, e saiu rápido pelo corredor. Mais buzinas foram ouvidas adiante enquanto Nena rapidamente estacionava o Fusca.

- Detesto vir para esta M. de cidade, ainda mais nesta época! – disse a anciã. Os irmãos Samuel e Daniel e a namorada deste último, Tatiana, também desceram. Nena se virou para o Fusca e resmungou:

- E você, vê se fica de olho e pode arrebentar a coisa nojenta se ela aparecer por aqui.

Nena saiu andando apoiada em sua bengala feita de pau-brasil, e os jovens a seguiram. Ela continuava resmungando:

- Aquela filha da P. da Natália Neiva tinha que voltar a produzir essa P. dessa boneca, a vaca!

- Não deve ser culpa dela por aquilo que aconteceu nos anos 80, Vó - comentou Daniel.

- Não é culpa dela o C., moleque! Como acha que uma M. de um programa como o daquela loira aguada pôde ter feito tanto sucesso?

- A senhora acha que ela fez um pacto? – perguntou Tatiana, a vidente da equipe e que estava atenta a tudo.

- Se não foi ela, filha, foi algum filho da P. que trabalhava com ela. Só sei que deu um trabalho do C. caçar a maldita boneca possuída, teve até morte no meio, mas na época não era como hoje, com a internet onde as notícias correm num instante.

- E virou lenda urbana.

- Isso, filha. Pior que nunca conseguimos exorcizar direito a coisa, a P. da boneca se perdeu num incêndio, mas não sabemos se foi destruída ou não. Procuramos mas não encontramos nada.

- Mas mesmo com internet, Vó, muita coisa acaba sendo acobertada – comentou Samuel. – O funcionário que foi encontrado morto, por exemplo, dizem que ele escorregou, caiu de uma escada e bateu a cabeça.

O elevador não demorou muito, e com certo aperto diante da quantidade de pessoas dentro eles se acomodaram. Nena deu uma cutucada em Tatiana, que apanhou o celular, abriu a galeria e mostrou uma foto para os meninos:

- É estranho que uma queda de escada deixe alguém com a cabeça totalmente virada para trás desse jeito – completou a garota.

Algumas pessoas próximas os olharam com cara de espanto, e pareceram muito aliviadas quando puderam sair do elevador.

 

Dois funcionários de uma loja estavam em um dos armazéns do shopping arrumando caixas de brinquedos em dois carrinhos. O gerente já havia ligado para o celular de um deles para que retornassem o quanto antes.

- E aí, o que acha que aconteceu com o Zé?

- Sei lá, só soube do que comentaram, que deu um grito bem aqui no depósito, e a próxima coisa que viram foi ele caído, com a cabeça virada prá trás.

- Também ouvi essa. E disseram ainda que estava com cara de quem tinha visto o próprio capeta!

- Virgem santa, nem fale isso!

- Pois é... até a direção do shopping veio falar com a gente, dizendo prá não comentar. Essa crise da P. também, imagina se a notícia se espalha e todo mundo fica com medo de vir aqui.

- O que será que foi, hein?

- Deixa prá lá, vamos sair logo daqui que esse lugar me dá arrepio.

Sem que eles percebessem, uma pequena figura rastejou até próximo de um dos carrinhos. A lateral deste era em forma de grade, e nas grandes caixas de papelão visíveis era possível ler “Boneca da Natália Neiva”.

A figura ergueu o braço, encostou a mão de plástico em uma das caixas e amoleceu. O que parecia uma nuvem negra fluiu de seu corpo velho, queimado e com roupas rasgadas e esgarçadas pelo tempo, e penetrou na caixa. A coisa maléfica ainda teve mais um pensamento, e pequenas porções da nuvem negra flutuaram em direção a outras caixas.

Os dois funcionários terminaram de organizar os produtos e saíram empurrando os carrinhos. Ainda era de manhã, e teriam um longo dia pela frente.

 

A turma tinha dificuldades em andar pelos corredores lotados.

- Bando de filhos da P. sem educação! – reclamou Vó Nena. – No meu tempo o Natal era época de dar graças a Deus por estar com a família, não essa P. desse consumismo de M.

- A senhora parece a Dercy em seus últimos anos, Vó – riu-se Samuel.

A anciã deu risada, e completou depois de se desviar de um casal cheio de sacolas que parecia querer passar através deles:

- Pois a Dercy era uma grande amiga, meu neto! Sinto saudades dela, que Deus a tenha!

- Como a senhora conheceu a Dercy? – perguntou Tatiana.

- Filha, ela veio me procurar em um momento de necessidade, sempre foi uma baita atriz, mulher independente que não levava desaforo prá casa. Acredita que até magia negra fizeram contra ela? Mas eu dei um jeito nos filhos da P., e desde então ficamos amigas, sempre que estava na região vinha me visitar.

- Então foi ela que pegou os palavrões da senhora, né, Vó? – perguntou Daniel.

Nena ia responder, mas uma “patricinha” cheia de sacolas esbarrou com força nela, quase resultando em uma queda.

- Vá para a P. que pariu, sirigaita do C.! – gritou Vó Nena. – Olha por onde anda, biscate!

A moça olhou a anciã de cima a baixo e, sem largar o celular e deixar de equilibrar as muitas sacolas de roupas de grife, disse:

- Ah, não, querida, é esse povo estressado e deselegante que eles deixam frequentar o shopping. Mas você dizia...?

Vó Nena lançou um olhar ameaçador contra a mulher, e ela e os demais voltaram a caminhar em meio à multidão. Ela disse:

- Espírito de Natal é o C. Povinho besta que nem sabe o perigo que está correndo, com uma cria dos infernos à solta por aqui.

- A Dercy teve mesmo a quem puxar – brincou Samuel.

Vó Nena lhe acertou um cascudo bem no cocuruto, e o mais jovem da turma, que também era o mais alto, voltou a se perguntar como a avó, que mal chegava a 1,60 m, conseguia fazer aquilo. 

 

Vó Nena e os jovens encontraram o corredor onde ficava a entrada do depósito onde o funcionário havia morrido, e que era compartilhado entre várias lojas, inclusive todos os estabelecimentos que vendiam brinquedos do lugar. Contudo, a entrada era proibida a quem não fosse funcionário, e a anciã tomou rapidamente uma decisão:

- Daniel e Tatiana vão lá e tentem encontrar mais alguma pista. Eu e Samuel vamos até a loja de brinquedos mais próxima, depois veremos.

- Nós ligamos se encontrarmos algo, Vó – disse Tatiana.

Ela e Daniel seguiram pelo corredor, abriram a porta e deram com um homem de terno com crachá da segurança.

- Tão querendo o quê aqui? – perguntou o homem. – Só para funcionários.

Daniel estendeu um pedaço de papel e disse:

- Aqui está nossa identificação. Estamos no nosso primeiro dia como temporários e nem conseguiram nos fazer as camisas da loja, amizade, sabe como é a crise...

O homem olhou o pedaço de papel, depois lhes deu passagem. Daniel guardou a folha no bolso e disse:

- Papel da caderneta do Vargas, nunca falha.

- Mas sempre está impregnado com energias negativas, amor, não é bom usar sempre.

- E eu não sei? A Vó vive repetindo prá gente.

Eles chegaram ao depósito e se puseram a procurar nos corredores entre as pilhas de caixas de variados tamanhos, contendo inúmeros produtos, ordenadas conforme o tipo destes. Desviaram aqui e ali de carrinhos levados por funcionários de lojas que corriam para reabastecer os estoques, e finalmente encontraram o setor de brinquedos.

Vasculharam as caixas, e encontraram várias que continham exemplares da boneca de Neiva. Tatiana aproximou a mão de uma das superfícies de papelão, fechou os olhos e se arrepiou. Esforçou-se, contudo, para manter a concentração, e disse:

- Esteve aqui, Daniel. Sinto...

A vidente não aguentou mais. Recolheu a mão e abraçou-se, parecendo sentir frio. O rapaz a abraçou e disse:

- Tudo bem, meu amor. O que mais viu?

Tatiana abriu os olhos, parecendo procurar alguma coisa. Depois de virar o corpo apontou e disse:

- Por ali.

Seguiram por outro corredor, e logo ouviram vozes cochichando. Dobraram uma esquina de mais caixas de papelão, e deram com dois funcionários conversando sobre alguma coisa que um deles segurava:

- Por que não quer me dar isso?

- Eu achei, é meu!

O que teve seu pedido negado olhou fixamente para o outro, e finalmente avançou sobre ele. Os dois homens rolaram no chão, até que o objeto em disputa escapou e ficou em um canto.

- É ela!

Tatiana deu o grito ao reconhecer a boneca maldita que Vó Nena perseguira por anos. Daniel esforçou-se para separar os dois rapazes, enquanto a moça estendia a mão e apanhava o brinquedo rasgado, sujo e despedaçado.

Daniel não teve muito trabalho. Assim que se viram separados da boneca, os dois rapazes voltaram ao normal, coçando a cabeça e perguntando o que havia acontecido. Entretanto, o mesmo não poderia ser dito sobre Tatiana, que com uma voz cavernosa disse:

- Vão morrer, Caçadores, vão morrer gritando!

 

Continua abaixo



Escrito por Escritor às 16h24
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VÓ NENA E OS CAÇADORES: NOITE FELIZ

Continuação

 

O rapaz virou-se, e viu a namorada se contorcendo enquanto segurava a boneca. Daniel poderia jurar que viu um brilho vermelho nos olhos de Tatiana, mas no instante seguinte a vidente pareceu se recuperar e voltou a si, jogando a boneca no chão.

Os dois funcionários a tudo assistiam e se apavoraram quando a boneca, caída no chão de bruços, ergueu o busto nos braços e virou a cabeça, olhando diretamente para eles. Saíram correndo o mais depressa que podiam.

Daniel os ignorou e aproximou-se de Tatiana. Ela beijou o namorado e disse:

- Não é a coisa. Tinha somente uma parte muito pequena de sua essência.

A boneca continuava olhando para eles. Tatiana remexeu na bolsa, abriu um pequeno pacote e pegou uma pitada de pó branco com os dedos. Jogou o sal sobre a boneca, que caiu imóvel no mesmo instante. A vidente a apanhou e disse:

- Pronto, esta aqui não tem mais nada.

Estendeu-a para Daniel, que a guardou na mochila. A seguir fizeram uma vistoria no local, mas Tatiana não sentiu mais qualquer outra presença maléfica.

- Vamos avisar a Vó – disse. Daniel a levou pela mão enquanto ela chamava a anciã pelo celular.

 

Os funcionários ergueram uma pequena torre composta de dezenas de caixas da boneca de Natália Neiva. Era um dos brinquedos mais procurados daquele Natal, e precisavam repor as unidades que eram removidas da pilha com rapidez.

A boneca possuída pela coisa foi colocada na segunda fileira a contar do alto. Ela conseguia enxergar quase toda a loja de sua posição. Inebriou-se diante das inúmeras possibilidades ali, bem a seu alcance. Quanta inocência, quantos sonhos de esperanças, quantas almas jovens prontas para serem consumidas.

A coisa lançou sua visão cobiçosa sobre as várias famílias ali presentes, sentindo que seu momento estava chegando.

 

Vó Nena e Samuel entraram na loja a muito custo, abrindo caminho entre a multidão que tentava escolher o melhor brinquedo. Um funcionário solícito veio atender a anciã.

- A senhora procura algo em especial para seu neto?

- Sim, procuro sim. Procuro uma P. de uma boneca possuída que precisamos destruir antes que mate mais alguém nesta pocilga!

Vó Nena ignorou o olhar de espanto do rapaz, e seguida por Samuel conseguiu chegar ao setor de bonecas. Encontraram o lugar onde exemplares da boneca de Neiva eram disputados, e a anciã tentou com seu pêndulo determinar se alguma delas era a que fora tomada pela entidade negra.

Duas meninas passaram correndo, esbarrando em Vó Nena e no pêndulo.

- Mas que M. de pais que não tomam conta de suas crias! C., estamos tentando salvar a vida de vocês aqui, P.!

Samuel apanhou o pêndulo e o manteve no alto, distante das crianças que faziam uma autêntica arruaça. De repente o objeto místico apontou para a direção de uma funcionária da loja.

Eles abriram caminho entre a multidão e, ao chegarem ao lado da moça, a ouviram dizer:

- Muito bem, quem abriu esta caixa?

A moça agitava a caixa vazia na mão. Vó Nena a apanhou e examinou. O pêndulo que Samuel segurava apontou para a caixa girando, o que era um mau sinal.

- Está aqui, meu neto – disse a anciã.

- O que está aqui, minha senhora? – perguntou a moça.

- Uma coisa que pode matar todo mundo nesta P. de loja num instante, minha filha. Se quiser evitar isso peça para todo mundo sair.

- A senhora está doida, eu vou...

- Tá, fica lá no seu canto que a gente se vira – disse a anciã passando a ignorar a funcionária.

Nena seguiu Samuel, que tentava abrir caminho entre o mar de gente.

 

A coisa não tinha pensamentos, somente instinto. Foi se arrastando enquanto se ocultava pelos cantos, alheia à atenção da multidão que lotava a loja.

Algumas crianças pequenas subitamente cruzaram seu caminho, e acharam graça naquela boneca que andava sozinha. Uma menina estendeu as mãos para apanhá-la, mas a coisa escapuliu passando por baixo de uma das estantes.

 

- Papai, quero aquela que anda!

A conversa chamou a atenção dos dois Caçadores, que se aproximaram. O pai mostrou uma caixa com a boneca de Neiva, dizendo:

- Esta aqui, não é filhinha, como combinamos.

- Não! Quero aquela que passou andando prá lá – e a garota apontou.

Vó Nena e Samuel se apressaram a seguir a direção apontada pela menina.

 

O rapazinho não devia ter cinco anos, e brincava com um pequeno grupo de outros de sua idade. Em meio à bagunça, ninguém percebeu a boneca que se aproximava lentamente, com um cordão de luzes natalinas nas mãos.

A sombra que habitava a boneca, uma minúscula porção da monstruosidade original, não pensava nem agia conscientemente de qualquer forma. Mas tinha um forte e maléfico instinto, que lhe apontava a urgente necessidade de tomar uma vida inocente.

Estava a ponto de erguer o cordão, passá-lo pelo pescoço do garotinho e tomar sua vida, o que lhe garantiria plena existência, quando um forte golpe a lançou longe. Mais um chute e ela estava num canto isolado, e a última coisa que sentiu foi o frio do metal em suas entranhas.

 

Vó Nena agira bem rápido. Atingiu a coisa com a bengala de pau-brasil lançando-a para o lado. Samuel a chutou para um canto isolado ao mesmo tempo em que desembainhava o punhal cerimonial que havia pertencido a um dos maçons que fizera parte da Inconfidência Mineira.

Enterrou a faca mágica na boneca, e conseguiu até mesmo observar a essência negra sair do brinquedo e se desvanecer.

Samuel chutou a boneca destruída para baixo de uma das prateleiras, dizendo de si para si:

- Eu que não vou pagar por essa P. Bem, vamos dar as boas novas para Vó Nena.

Encontrou a anciã ainda com o grupo de meninos. Depois de recomendar que fossem bonzinhos e obedecessem aos pais ela acompanhou Samuel para a saída.

- Matei a coisa com o punhal, Vó, até vi a essência desaparecer.

- Nós que combatemos as trevas adquirimos essa visão mais apurada, meu neto.

- Mas e a senhora ali, de papo com os pirralhos?

Vó Nena sorriu e disse:

- Essa é uma época boa, os pequenos fazendo suas primeiras descobertas. Depois viram umas pestes que precisam ter rédea curta.

Nena deu um cutucão em Samuel com o cotovelo, e completou:

- Mas depois que crescem não param de nos dar orgulho!

Samuel atendeu sorrindo o celular que tocava, conversou rapidamente com Tatiana, guardou o aparelho e disse:

- Eles encontraram a boneca original e Tatiana acabou com o que de ruim ainda havia nela. Estão indo para a segunda loja.

- Vamos lá com eles, Samuel – disse Vó Nena decidida. – Essa coisa é pior do que eu pensava, e temos que ficar juntos. Vamos acabar com esse filho da P. de uma vez por todas!

 

Tatiana e Daniel entraram a muito custo na segunda loja. Era a menor das três que havia no shopping, mas igualmente lotada. Com esforço abriram caminho entre pais e mães estressados e crianças birrentas até a seção de bonecas.

Eles passaram pelo corredor onde meninas se digladiavam por um exemplar da boneca de Natália Neiva, e Daniel cochichou ao ouvido da namorada:

- Sente alguma coisa?

Tatiana fechou os olhos e tentou se concentrar em meio à bagunça. Levou alguns encontrões das crianças que caçavam seu presente de Natal, mas não conseguiu sentir nada ali. Abriu os olhos e fez que não para o namorado.

- E se formos ver na fila do caixa? – perguntou ela.

Gastaram mais algum tempo abrindo caminho e chegaram à fila, onde a balbúrdia era a mesma. Pediram licença enquanto discretamente Tatiana tentava captar algum sinal da presença maligna.

Um pai bufava de impaciência enquanto consultava o relógio, segurando a filha pela mão. A menina trazia embaixo do braço a caixa com a boneca, e Tatiana a princípio achou graça.

Contudo, algo em sua mente deu um sinal de alerta. E este chegou no exato momento em que os olhos da boneca faiscaram em uma sinistra tonalidade vermelha.

Tatiana agarrou o braço de Daniel, e os dois olharam fixamente para a boneca. A coisa virou a cabeça para eles, e o pandemônio teve início.

Com os braços a boneca forçou a caixa, e a menina ficou sem entender nada quando sentiu o movimento. Olhou perplexa a boneca virar a cabeça para ela e exibir os olhos vermelhos. O pai ainda comentou:

- O que é agora, já não conseguiu a droga da boneca...

Sua fala foi interrompida quando a coisa pulou direto em seu rosto. A boneca agarrou a gravata do homem e a apertou, tentando estrangulá-lo. As pessoas ao redor sequer se moveram, olhando espantadas para algo que não compreendiam.

- Saiam da frente!

Daniel berrou e se lançou sobre o homem. Agarrou a boneca, que continuava enforcando o sujeito. As pessoas próximas começaram a gritar, enquanto os funcionários dos caixas observavam a cena apáticos e sem nada entender.

Daniel finalmente livrou o homem, que caiu de joelhos respirando fortemente depois de quase sufocar. A coisa saiu correndo, e Tatiana a seguiu tentando se desvencilhar das pessoas do caminho. As pessoas se dirigiam para o local dos caixas tentando saber o que era aquela confusão, o que somente dificultava o trabalho.

Daniel abriu caminho com alguns empurrões e seguiu Tatiana. A vidente tinha uma boa dianteira, mas a fuga era evidentemente mais fácil para a boneca. Ela temeu que a coisa conseguisse sair ou pior, atacasse uma criança.

A coisa seguiu desviando-se dos montes de pernas à sua frente, passando sob expositores, e somente algumas crianças se deram conta daquela boneca andando sozinha. Seu instinto lhe dizia para continuar correndo, e estava quase alcançando a saída, quando foi atingida por algo duro.

A boneca bateu de encontro a uma parede livre, e a bengala de pau brasil de Vó Nena foi espetada em seu peito. A coisa ainda esperneou e lutou, mas se desvaneceu diante da forte reza da anciã, que havia chegado naquele momento junto com Samuel.

Tatiana ainda sentiu os últimos estertores da sombra maléfica antes que se descompusesse. Daniel chegou em seguida.

- Já resolveram? – perguntou.

- Sim, amor, era só uma sombra de novo – respondeu Tatiana.

As pessoas os olhavam com espanto, e dois seguranças desviavam apressadamente das pessoas no corredor do shopping para entrarem na loja. Funcionários se aproximavam do outro lado, e Vó Nena disse:

- O filho da P. deve estar na terceira loja.

- É no piso acima, gente, vamos lá – comentou Samuel.

Quando os seguranças conseguiram entrar na loja não encontraram nada de anormal. Ao mesmo tempo o homem atacado, massageando o pescoço e sem entender nada, saiu resmungando e levando a filha pela mão.

A menina chorava, pois ficara sem sua boneca.

 

Sua satisfação chegou a um grau como não sentia há muito tempo. Nos braços de sua nova possuidora, mesmo através daquele invólucro sentiu a inocência e a esperanças da jovem alma. A alegria contagiante, o frescor de quem está descobrindo o mundo, tudo aquilo emanava energias das quais a coisa agora poderia se alimentar por anos a fio.

O jovem casal tinha, além de sua nova dona, uma criança menor que estava nos braços da mãe. Estava tudo perfeito, pensou. Tantos sonhos, tantas almas que poderia sugar para se fortalecer e voltar a ser grande...

Não gostava de ser balançada e virada de lá para cá, nem de saltitar ou ouvir o barulho de dedos tamborilando na caixa. Porém a longa espera estava chegando ao fim, e em breve teria uma alma cheia de energia que sempre estaria perto, somente para seu desfrute e deleite.

 

- Essa coisa que caçamos, meus filhos, é um parasita – disse Vó Nena com voz cansada. – Suga as energias de quem estiver perto.

- E consegue separar partes de sua essência, como as que encontramos – completou Tatiana. – Essas partes não têm consciência, mas podem adquiri-la sugando as energias de uma alma. Por isso tentaram matar o menino salvo pela Vó e aquele homem na fila.

- Mas num ambiente mais calmo a coisa pode ir sugando aos poucos, crescendo e ficando mais forte, e criando consciência – disse Vó Nena. – Por isso é importante benzer ou exorcizar essa P. toda.

Nena e os jovens chegaram finalmente à terceira loja, precisando passar através de um numeroso grupo que deixava o estabelecimento. Tatiana se atrasou ao parar em meio às pessoas, de olhos fechados e cabeça baixa. Daniel percebeu e voltou para perto dela, perguntando:

- Amor, tudo bem?

Tatiana abriu os olhos e encarou o namorado, murmurando:

- Não sei... algo... melhor entrarmos, vamos!

 

Continua abaixo



Escrito por Escritor às 16h24
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VÓ NENA E OS CAÇADORES: NOITE FELIZ

Continuação

A coisa sentiu a presença ignóbil da mesma mulher que a havia caçado tanto tempo atrás, e pela primeira vez sentiu preocupação. Por muito pouco escapara daquela vez.

E havia algo mais, aquela outra... sentiu que representaria uma ameaça ainda maior. Mas quando as duas presenças se afastaram tranquilizou-se. Sua nova dona a apertava contra o peito, e as batidas daquele jovem e inocente coração prenunciavam ao menos anos em que o ser abjeto poderia se alimentar.

 

Nena e os garotos entraram finalmente na loja, e correram para a torre construída com as caixas das bonecas de Natália Neiva. Exemplares eram removidos a todo instante, e os funcionários se apressavam para repor as unidades. Os Caçadores rodearam o lugar várias vezes, sem obter qualquer resultado.

Tatiana parou depois de dar somente uma volta ao redor da torre de bonecas. Colocou as mãos na cabeça, fechou os olhos e se concentrou. Vibrações terríveis invadiram sua mente, a pura maldade que estivera ali presente finalmente surgindo nítida nas lembranças etéreas que conseguia acessar.

- Você tá bem, moça? – chegou a perguntar uma funcionária.

Tatiana abriu os olhos e encarou a mulher. Ignorando-a, a vidente saiu caminhando nervosamente em direção à saída. Os demais perceberam e correram a acompanhá-la.

- Acabou de sair, cruzamos com a coisa naquele grupo que estava saindo – disse Tati. – Sei onde está!

 

Depois da longa fila para pagar o estacionamento, a família aguardou mais algum tempo até conseguir entrar no elevador lotado. Dentro do compartimento, muitas das pessoas começaram a se sentir incomodadas com algo que não sabiam definir. Uma moça começou a ficar ofegante, e um senhor sentiu um terror como não experimentara havia anos. Um menino começou a chorar de medo, e sua mãe, tentando abafar o desespero que ameaçava tomar recantos que mal se lembrava no fundo de sua mente, se esforçou para consolá-lo.

Havia muito tempo que ela não se sentia assim. Seu poder crescia, e ela estava ansiosa para fazer o que de melhor conseguia. Aquele era somente o começo, e a coisa se deleitou com isso.

A família caminhou para o carro, fazendo comentários inofensivos sobre a visita ao shopping. A boçalidade e futilidade humanas sempre a aborreceram, mas era um preço insignificante a pagar pelo alimento que a nutriria, e que permitiria que voltasse a incutir terror nos corações daquelas miseráveis criaturas.

Súbito, a coisa voltou a sentir as repugnantes presenças que tanto a haviam incomodado. Não teve opção a não ser estender seus sentidos e enxergar além da fronteira opaca daquela ridícula embalagem de papel colorido.

 

Daniel e Tatiana se adiantaram subindo pelas escadas, enquanto Samuel ficou com Vó Nena, que já dava sinais de cansaço, aguardando o elevador. A vidente e seu namorado correram, orientados somente pelas habilidades dela.

Tati teve dúvidas quando colocou a mão na maçaneta da porta do segundo nível do estacionamento, mas por fim virou-se e correu para as escadas rumo ao terceiro nível. Daniel nada disse, temendo quebrar sua concentração, e somente a seguiu.

Correndo como dois alucinados entre os carros que circulavam buscando uma vaga para estacionar, eles finalmente viram no fim do corredor a família. Um jovem casal, a moça com um filho pequeno nos braços, e a menina de uns seis anos com uma caixa nos braços. Tatiana e Daniel correram mais.

 

Era ela! A nova e ameaçadora presença que havia sentido. Não! Justo agora que tudo seguia conforme seus desejos!

O casal não entendeu nada quando, conforme sua impressão, a menina começou a balançar a caixa descontroladamente. A mãe já ia dar uma bronca na filha, repetindo que somente à noite poderia abrir seu presente, quando o barulho de papelão e papel rasgando se somou à incompreensível visão das mãos da boneca saindo pelo buraco na caixa.

A menina soltou um grito, um grito de puro pavor. E não foi somente pelo susto de ver a boneca arrebentando a caixa e se debatendo para sair. Foi a certeza que surgiu em sua mente que aquele presente tão adorado escondia algo horrendo, pior que seus piores pesadelos.

A boneca finalmente se libertou e saiu correndo, diante do olhar incrédulo da família. Carros que passavam na procura por vagas frearam e xingaram Daniel e Tatiana, que passaram a perseguir o monstro.

Por onde a coisa passava as pessoas eram tomadas por um sentimento de horror que parecia sugar toda e qualquer esperança, sem conseguir determinar de onde vinha. A coisa irradiava ódio e medo, enquanto buscava fugir para algum lugar, qualquer lugar bem longe daqueles horríveis caçadores.

Pessoas na fila do elevador se assustaram com aquela pequena figura que passou depressa por eles, seguida por um rapaz e uma moça. De repente as portas do elevador se abriram e surgiram Samuel e Vó Nena, e a anciã ainda acertou um golpe de sua bengala de pau-brasil na coisa.

Os poderes daquela arma eram imensos, e o monstro voou longe. Caiu diante de um carro que passava, cuja roda a esmagou. Mas mesmo assim a coisa levantou e continuou sua fuga, arrastando-se o mais depressa que podia. Sentiu os Caçadores muito perto, e pela primeira vez o pavor a atingiu.

A seguir sentiu cada parte do corpo sintético que habitava ser esmagada por um terrível impacto contra uma coluna. O carro que a atingira recuou e a coisa ainda se debateu, antes de ser engolida para um compartimento escuro de lata, o metal estalando e se movendo a seu redor, até parar de vez.

O Fusca azul ainda irradiava um forte brilho vermelho nos faróis quando a lataria emitiu um último estalo e voltou ao seu formato original. Daniel e Tatiana chegaram correndo, conseguindo ouvir as batidas que vinham do porta-malas dianteiro. Samuel chegou em seguida, amparando Vó Nena que, exausta, abriu a porta direita e se acomodou no assento.

- Daniel, meu neto, você dirige na volta.

Todos respiraram aliviados, mas as batidas na dianteira do Fusca continuavam. Nena deu um tapa no painel do carro e gritou:

- E você fica quieto, parasita dos infernos, coisa ruim do C.!

O Fusca balançou, e as batidas pararam. Tatiana ainda sentia a presença horrenda ali, enfraquecida, mas que emanava um ódio crescente.

- Se preocupa não, filha – disse Nena segurando sua mão. – Tem arruda, trigo, e mais um monte de patuás aí na frente. O coisa ruim não escapa, não mais!

A vidente sorriu e ergueu o olhar, observando a família olhando para eles, vinda do corredor ao lado. Virou-se para a anciã, tirou algo da bolsa e disse:

- Vó, que tal a senhora...

Nena olhou o que a vidente lhe estendia e entendeu na hora. Fez uma reza e benzeu o objeto, que Tatiana em seguida levou para a menina.

- Desculpe você ter perdido seu presente, meu amor – disse, com todo o carinho que conseguia. – Espero que goste desta boneca, me fez muito feliz quando era criança, e vai fazer você também.

Tatiana estendeu uma pequena boneca de pano, antiga mas muito bem conservada, uma das que sua avó Esperança lhe fizera. A menina olhou para ela, pegou a boneca e a examinou por um tempo. Em seguida sorriu e disse “obrigada”.

Os pais da menina, ainda sem entender direito o que havia acontecido, também murmuraram agradecimentos. Tatiana sorriu e lhes disse “Feliz Natal” antes de voltar para o carro. Daniel deu partida e começou a circular, diante dos sons das buzinas dos demais veículos que se acumulavam atrás do Fusca.

- Agora vamos ter que ficar circulando até o Samuel voltar depois de pagar o estacionamento – disse ele.

- Que bonito o que fez, filha - comentou Vó Nena.

Tatiana colocou a mão no ombro da anciã, sentindo o coração leve novamente. O Fusca azul, circulando lentamente, passou por outra família, um casal com uma garota adolescente e dois meninos gêmeos menores. Um socou o braço do outro, que começou a reclamar para os pais antes de devolver o golpe.

 

Joca repassou a gravação da loja. A boneca andando sozinha. O rapaz metendo a faca nela.

Depois repetiu várias vezes o momento em que a boneca do estacionamento passava andando, até o Fusca a prensar contra a pilastra. O carro recuava, a frente toda amassada, antes de em poucos segundos voltar ao normal. A boneca ainda estrebuchava um pouco antes de o carro avançar e a “engolir” pelo porta-malas da frente.

Parecia coisa de cinema. Mas, como Joca sabia, Mané não entendia quase nada de eletrônica ou tecnologia. Aprendera a mexer naquele equipamento e só, nem tinha celular com internet.

Joca olhou para Mané. Este fechou na tela as janelas dos vídeos, procurou os arquivos das gravações e os deletou. Tirou os CDs, colocou-os sobre a mesa e os arrebentou com o martelo.

Jogou tudo no lixo, depois tirou o saco preto com os pedaços das outras mídias e os guardou na mochila.

- C., mano, que coisa foi essa? – perguntou Joca.

Mané colocou a mochila no ombro e olhou para o colega.

- Não quero nem saber, e pro seu bem acho que nem você quer. O gerente já deve ter chegado, vou lá pedir demissão, ir embora prá sempre desta P.

Saiu sem se despedir e nem olhar para trás. Joca ficou sozinho na sala, pensando se fazia a mesma coisa, e sentindo o terror tomar conta de seus pensamentos.

 

Ainda na noite daquele 24 de dezembro Vó Nena amarrou a boneca junto com folhas de arruda, mudas de trigo e alguns patuás de aprisionamento, depois de aspergir água benta na coisa. Tatiana sentiu o monstro se debatendo e proferindo as piores blasfêmias e ameaças, mas os feitiços já o haviam tornado impotente.

Em um pedaço consagrado de terra em um dos cantos da propriedade Samuel abriu um buraco, e ali enterraram mais um inimigo.

- Agora acabou – disse Vó Nena remexendo a terra com um ancinho. Jogou aqui e ali algumas sementes de grama.

- Será que sobrou alguma sombra dessa coisa, Vó? – perguntou Daniel.

- Se sobrou, meu neto, a menos que consiga parasitar alguma alma inocente, não temos com o que nos preocupar. Agora que esse filho da P. vai se desfazer aqui embaixo e voltar pro inferno do C. de onde nunca deveria ter saído, as sombras vão ainda ficar por um tempo por aí mas devem se desfazer também.

A última pá de terra foi jogada sobre a sepultura do monstro, e somente então Tatiana se descontraiu. Vó Nena se aproximou dela e a abraçou.

- Filha, muito bonito o que fez.

- Não foi nada, Vó. Vó Esmeralda me deu um monte de bonecas de pano, ainda tenho uma coleção delas no meu quarto.

Nena suspirou e disse, cheia de saudade:

- Esmeralda foi a maior vidente que conheci na vida, Tati. Como me ajudou nos anos que eu mais precisava! Fico muito contente por ter você aqui com a gente, nós te protegemos e você nos protege.

Nena a abraçou mais forte e acrescentou:

- Você já é da família, meu anjo!

Tatiana retribuiu o abraço com os olhos úmidos, e os dois rapazes se uniram a elas. Instantes depois Nena disse:

- Agora vamos parar com essa melação toda que eu quero mais é comer!

- Ô, Vó, e o espírito de Natal? – perguntou Samuel rindo.

Nena já se adiantava rumando para sua casa, e respondeu:

- Espírito de Natal o cacete! Fizemos o trabalho Dele, agora merecemos aproveitar! Tinha que ver nos bons tempos quando enchíamos a casa de gente, e o avô de vocês, que Deus o tenha, chamava prá bóia! Vamos lá, moçada, cinco minutos prá trocar de roupa e ir prá casa da mãe de vocês!

Minutos depois todos entravam no Dodjão, que disparou pelas estreitas vias da região, o motor V-8 roncando alto.

 

Primeiras horas do dia 25 de dezembro, a ceia transcorreu perfeitamente, todos trocaram presentes, seus tios e primos já haviam ido embora. A menina, feliz, deu boa noite para os pais e os três irmãos e foi dormir. Não demorou a pegar no sono.

Na cadeira próxima da cama, uma boneca da Natália Neiva estava sentada.

Subitamente seus olhos brilharam em uma tonalidade vermelho-vivo, e ela lentamente virou a cabeça para a cama, onde a menina dormia confortavelmente.

 

Vó Nena e os Caçadores retornarão.

 

Abaixo, as primeiras histórias de Vó Nena e os Caçadores:

Vó Nena e os Caçadores - Neculai e a Escuridão

Vó Nena e os Caçadores - Sheila e Ariele

Um Feliz Natal e um próspero ano novo!

Até a próxima!

 

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 16h23
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O Retorno de Arquivo-X

E finalmente chegou o momento de escrever sobre o retorno absolutamente sensacional de Arquivo-X! A minissérie exibida entre o final de janeiro e meados de fevereiro, também conhecida como décima temporada, em seus seis episódios conseguiu o que muitas produções dos últimos tempos prometeram, mas não cumpriram: renovar um universo fantástico e apresentar novas e boas histórias, além de indiscutivelmente novas promessas de mais aventuras.

Antes, porém, falemos de outros assuntos, o principal sendo a parceria com o blog Corujice Literária! Já apresentamos lá vários textos, como a cobertura da Comic Con Experience 2015, a resenha da maravilhosa Graphic MSP Louco – Fuga, e nossa análise do sensacional Batman vs Superman – a Origem da Justiça. Há links em todos esses títulos, então convido os leitores a conferir!

Deste último, aliás, apresento abaixo alguns trechos:

 

De minha parte, absolutamente amei as referências, ver a Trindade máxima da DC unida na telona pela primeira vez, os vislumbres do universo maior que rapidamente nos levará até a Liga da Justiça, e ver novamente o maior herói de todos, Batman, em ação em uma de suas melhores encarnações.

 

Bem, pode haver SPOILERS, nada muito sério, adiante, então se ainda não conferiu o filme e não quiser correr qualquer risco, melhor ir fazer outra coisa, certo?

 

Sim, o tão injustamente criticado Ben Affleck está simplesmente sensacional como o mais perturbado, obstinado e violento Bruce Wayne já visto em live action! Atrevo-me até a dizer que ainda melhor que Christian Bale nos filmes de Christopher Nolan. Um detalhe absolutamente fundamental para mim foi que efetivamente VEMOS o Batman em ação, especialmente nas lutas, ao passo que na trilogia de Nolan as lutas se resumiam a rápidos movimentos muito próximos da câmera, ignorando por completo que o Cavaleiro das Trevas é mestre em praticamente todos os tipos de artes marciais conhecidos. E ele usa batarangues e outros apetrechos, esquecidos no enfoque excessivamente realista de Nolan.

 

Claro, Cavaleiro das Trevas... A maior, melhor, mais espetacular, dramática e emocionante saga jamais criada para os quadrinhos, obra-prima do mestre Frank Miller! Para mim foi uma emoção indescritível constatar como essa graphic novel influenciou Batman vs Superman, incluindo até mesmo uma transposição quase direta da cena do assassinato dos pais de Bruce Wayne em sua forma mais impactante. Uma fala de Alfred misturando bebida e a próxima geração da família Wayne está lá, e se procurarem podem encontrar várias outras referências a esse clássico das HQs. Além da referência máxima, a armadura de Batman e a luta com o Superman, que também contém frases inteiras de O Cavaleiro das Trevas. Vibrei demais!

De novo, clique aqui para conferir o restante do artigo.

 

E vamos a Arquivo-X... pensando bem, gostaria de aproveitar e comentar que para mim como autor, as referências máximas em termos de Ficção Científica no cinema e na televisão sempre foram Jornada nas Estrelas (como é estúpido não usar o título em português!), Guerra nas Estrelas (idem), e Arquivo-X (e vejam só, justo a tão criticada Fox teve a imensa sabedoria de manter o título original em português das aventuras de Mulder e Scully, hein?). É impossível negar que esses três universos magníficos foram os que mais me influenciaram no sentido de me tornar um escritor, e também roteirista.

E vejam que interessante, desde 2009 todos esses três grandes e clássicos universos estão passando por um processo de renovação e retorno. E sim, para mim tem um que fez isso bem melhor que os outros, vamos analisar?

 

Star Trek! Sim, novamente, a decisão da Paramount no Brasil por não utilizar o venerável nome JORNADA NAS ESTRELAS prejudicou imensamente a divulgação dos filmes de 2009, e Além da Escuridão de 2013. Tive o prazer de conferir os dois filmes da era Abrams no cinema, e gostei, especialmente do primeiro.

Conferir o filme de 2009 em um cinema lotado de trekkers foi algo especial. No momento da primeira aparição da nova e belíssima Enterprise, tudo veio abaixo! É indescritível a sensação de ouvir todo mundo dentro de um cinema gritando e aplaudindo. O que se repetiu quando surgiu na telona a venerável figura do inesquecível Leonard Nimoy. Sim, a destruição de Vulcano não agradou a uma vasta maioria, mas para mim foi uma decisão corajosa, aproveitando o fato de estarmos em outra linha temporal, ou seja, outra realidade.

Conversando com a comadre Surya, do site Aumanack, veio ainda outro problema. O trio principal em Jornada nas Estrelas sempre foi Kirk, Spock e McCoy. O primeiro a força, o segundo o cérebro, e o terceiro o equilíbrio, o lado humano completo com suas qualidades e defeitos, que protagonizaram debates brilhantes, filosóficos, inesquecíveis e inteligentes, com argumentos poderosos de lado a lado. Ou ainda, Spock é a lógica, Kirk é o coração, e McCoy a alma!

Infelizmente, em nome do maldito politicamente correto, o trio principal agora é Kirk, Spock e Uhura, um reles triângulo amoroso... e sim, patético os dois últimos discutirem a relação em meio a uma missão perigosa no sistema Klingon, em Além da Escuridão! E mudar o aspecto já mais que estabelecido dos Klingons? Não!

Os extras do filme de 2009 são preciosos, e gosto particularmente de um momento em que Leonard Nimoy vira para Zachary Quinto e diz “você nunca vai conseguir se livrar disso”. O Spock jovem de Quinto está muito bem nos dois filmes, e no primeiro tudo acaba funcionando a contento, embora todo o lado do debate filosófico que sempre foi o ponto forte de Jornada nas Estrelas tenha ficado de lado.

No segundo filme os problemas são em maior número. Benedict Cumberbatch como KHAAAAAAAAAAAAAAN está, claro, excelente, mas de novo, precisava repetir basicamente a receita de A Ira de Khan? Para mim tudo bem existir um grupo agindo nas sombras na Federação, afinal em A Nova Geração e Deep Space 9 isso também existia, e nem sempre atuando de maneira ética.

Mas repetir a cena “eu sempre serei seu amigo”, uhn, acho que não precisava.

E Kirk consertando o motor de dobra na base do chute? CADÊ A CIÊNCIA, meus caros, a base científica que sempre foi o forte em Jornada? Sem falar da nave perto da Lua caindo imediatamente em direção à Terra, teletransporte instantâneo, enfim...

Lamentavelmente o trailer do novo filme, Star Trek Beyond, não me agradou nem um pouco, e estou realmente pensando em nem gastar dinheiro para conferir no cinema. Mais parece um genérico muito mal feito de Star Wars que qualquer outra coisa, e foi excelente o comentário de George Takei ao ver o trailer, dizendo que não há nada ali vinculado ao trabalho do legendário Gene Roddenberry.

Tenho esperanças na nova série prometida para 2017, veremos. E recomendo o site dos amigos Star Trekkers, aliás.

 

Star Wars VII – O Despertar da Força. Claro que fomos ao cinema (duas vezes!), evidentemente que vibramos, e até já conferimos de novo em DVD... por sinal, DVD e blu-ray sem NADA de extras, que só estão no bem mais caro blu-ray duplo... depois o Lucas é que era mercenário, né, pois é!

Esse título, aliás... The Force Awakens se traduz como O Despertar da Força. Star Wars se traduz como Guerra nas Estrelas. Então não poderia ser Guerra nas Estrelas VII – O Despertar da Força? Ah, os “gênios” do marketing...

Sim, adorei o filme. Sim, a maior parte dos novos personagens é legal, o Finn por ser um desertor dos stormtroopers, o Poe por ser um grande piloto, o BB-8 fazendo até sinal de positivo (mas seus modelos custam caro), e especialmente a Rey, de novo um personagem de Star Wars na clássica Jornada do Herói. O retorno de velhos conhecidos, e uma muito, muito dolorosa partida... Até que a forte cena também me chamou a atenção e gostei, pela ousadia, mas aí fica uma dúvida, nos próximos filmes só teremos personagens “do bem” versus os “do mal”, sem ninguém na zona cinza ali no meio, ninguém mais humano mesmo?

E de novo o esquema de que o inimigo tem uma super-ultra-mega-hiper arma que tem que ser destruída? O que teremos então nos filmes VIII e IX? E infelizmente Kylo Ren não me convenceu muito como vilão, o descontrole dele mais valeu pela cena de humor com os dois troopers muito mais espertos que a maioria absoluta deles, dando meia volta diante do chilique do chefe, que por qualquer outra coisa.

E no momento do acionamento do Starkiller eles só esqueceram completamente como funcionam as leis da Física, né? Em instantes o raio se dividiu, atingindo e destruindo planetas a anos-luz de distância! Certo que Star Wars nunca prestou tanta atenção assim ao lado ciência da Ficção Científica, mas não precisavam exagerar, né?

Rogue One, para mim, está parecendo uma história bem mais interessante. E quanto ao filme VIII, o site Cinepop publicou uma teoria maluca sobre a origem de Rey que só me fez pensar: “PQP, midiclorians de novo!?”. Mais que Jar-Jar, mais que Ewoks, explicar a Força foi, disparado, a pior ideia de George Lucas em todos os tempos!

 

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 18h39
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O Retorno de Arquivo-X

Continuação

Por sinal, muito melhor é a teoria de que Jar-Jar seria o maior vilão de Star Wars, publicada neste link.

Ah, observações! A Rey, somente com seus instintos e talento natural para sentir a Força já deu uma surra no Kylo Ren (e esse pessoal que escreve os filmes continua péssimo para nomes...). Imaginem quando for treinada pelo Luke, que foi treinado pelos legendários Obi-Wan e Yoda!? E por sinal, aquele golpe que ela dava tentando espetá-lo com o sabre, me lembrou muito o estilo de luta do Palpatine... Enfim, de novo, aguardemos!

Finalmente, ARQUIVO-X! Sim, tenho uma predileção especial pelo maravilhoso universo criado por Chris Carter e as investigações dos agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully, pois além de tudo foram o melhor presente de aniversário que já tive! Podem conferir a data de estreia no livro Bastidores.

Sempre fui muito ligado às questões do espaço e vida extraterrestre, e felizmente ao contrário das teorias malucas do Mulder minha primeira leitura séria a respeito foi do inimitável livro Cosmos, de Carl Sagan. E inclusive o saudoso divulgador científico aparece na TV de Mulder no final da quarta temporada. E o fato é que meus primeiros livros, De Roswell a Varginha (Tarja Editorial, 2008) e Filhas das Estrelas (Editora Estronho, 2011), não teriam existido sem a inspiração de Arquivo-X.

Sempre concordei com os amigos que a série deveria ter terminado bem antes. Talvez na sétima temporada, Scully grávida e Mulder abduzido, algo para ficar na história! Mas tivemos a oitava e nona temporadas, a idiotice dos tais supersoldados...

Houve uma décima temporada em quadrinhos para os sortudos fãs estrangeiros, que aqui na Terra Brasilis só podemos conseguir por meio de uma quantidade razoável de dólares, ou outros meios mais, digamos, genéricos... e o que já li comprovou o quanto esse universo ainda pode render em termos de boas histórias, e sim, os Pistoleiros Solitários não morreram de forma alguma, YEAH!

Mas quando surgiu a sensacional notícia de que a série voltaria, em formato de minissérie de seis episódios, a alegria voltou! E ver Mulder e Scully de volta foi absolutamente emocionante, como rever velhos e queridos amigos!

 

My Struggle trouxe mais uma versão para o incidente de Roswell, a famosa queda de uma nave alienígena nas proximidades dessa cidade do Novo México, nos primeiros dias de julho de 1947. Os shippers se desesperaram por saber que nossos heróis tomaram caminhos separados, e fomos apresentados a um novo personagem, o magnata da mídia Tad O´Malley. Adorei particularmente a crítica feroz à sociedade egoísta, ególatra e consumista de hoje, e a renovação estupenda da conspiração, agora uma trama de pessoas que têm acesso à tecnologia alienígena, com os extraterrestres observando de longe. E, aparentemente, eles fazem muito bem! Também tivemos o retorno de Skinner, e seu comentário de que “o FBI já não é mais o mesmo” disse tudo sobre a “eficiência do governo”. Parece um país que você conhece? E claro, quem recebe um telefonema misterioso no final e diz que vai fazer algo a respeito? Nosso vilão preferido, o Canceroso!

 

Founder´s Mutation é um típico Arquivo-X, Mulder e Scully já integrados novamente ao Bureau, em uma investigação ligada a uma empresa de engenharia genética que pode ter parte com a conspiração. Lindas e emocionantes as cenas dos dois imaginando como seria se tivessem convivido com o filho, William. E claro, as piadas infames de Mulder e seu pouco respeito pelas regras estão ali, nem parece que tanto tempo se passou. Sensacional sua cena inicial frustrado pelos grandes mistérios terem sido explicados e atirando lápis no pôster da Scully... sim ela diz “meu pôster”.

 

Mulder and Scully meet the Were-Monster, episódio nada menos que sensacional! Merece tranquilamente entrar na lista de melhores episódios cômicos da série, genial a ideia de um monstro mordido por um humano sendo vítima da maldição de ter que acordar cedo, arrumar emprego... outra magnífica crítica contra a sociedade moderna e suas futilidades. Além disso David Duchovny e Gillian Anderson estão em seu melhor, piadas de rolar de rir a todo instante, especialmente Mulder apresentando suas teorias ao mesmo tempo em que descreve o que Scully diria em resposta, até que ela completa com um “esse é meu Mulder”. Cena desnecessária de cueca vermelha, e cena magnífica e “quente” de Scully, uhn... No cemitério bonitas homenagens a Kim Manners, diretor de 52 episódios da série, e Jack Hardy, diretor assistente de Chris Carter. Além das muitas e muitas referências, Scully se referindo a Queequeg, Guy se vestindo como Carl Kolchak, da série Os Demônios da Noite que inspirou Arquivo-X, e uma das melhores surpresas, o toque de celular de Mulder é o tema da série!

Por sinal, esse pôster foi criação do J. J. Lendl, artista que criou o The X-Files Poster Project. Ele criou pôsteres para cada episódio da série, então sem mais delongas cliquem aqui e confiram o site dele, vale a pena!

 

Home Again um típico episódio de monstro da semana, e um bem original na verdade, originário do trabalho de um artista com o fim de proteger a população de rua. Em meio à investigação, uma trágica história paralela para Scully com a morte de sua mãe, e ao longo do episódio inteiro sentimos toda aquela tensão e expectativa que somente Arquivo-X nos dava. Nada como nossa série favorita, que inspirou absolutamente tudo que veio depois na televisão, voltar para mostrar novamente como se faz!

 

Babylon trata do tema do terrorismo, com um atentado em solo americano logo no começo, e a introdução de dois novos personagens, os agentes do FBI Miller (Robbie Amell) e Einstein (Lauren Ambrose). A performance de ambos foi sensacional, sendo que eles são como versões mais jovens de Mulder e Scully, Miller disposto a acreditar, e Einstein, que também é ruiva e médica, muito cética e imaginando as poucas e boas que Scully passa ao lado de Mulder. Então Miller se junta a Scully para tentar, por meio de equipamento médico disponível, tentar se comunicar com o terrorista sobrevivente que está em coma, enquanto Einstein vai trabalhar com Mulder e se mostra várias vezes arrependida. E a “viagem” deste último é outro dos momentos cômicos da minissérie que nos fazem rolar de rir, mas é nela que são descobertas pistas fundamentais para afastar a ameaça de um atentado bem pior. No fim, Miller e Einstein conversam, e ela começa a se mostrar mais aberta.

 

E sim, se houver um spin off com Miller e Einstein terá meu completo e irrestrito apoio e audiência! Ainda mais se puder contar com participações especiais de nossos heróis principais, claro!

My Struggle II, finalmente, encerrou a minissérie, ou décima temporada, bem ao estilo Chris Carter, deixando-nos com mais perguntas que respostas. O dia seguinte foi divertido nas redes sociais, com o pobre diretor e produtor sendo espinafrado e xingado de todas as formas. Pôxa, gente, já deveriam estar mais acostumados, e mais otimistas também, já que durante a temporada já se falava que a Fox estava satisfeitíssima com os novos episódios e queria mais, inclusive até com o possível spin off de Miller e Einstein. O que havia sido sugerido no primeiro episódio acontece neste, com um possível ataque biológico relacionado a DNA alienígena. Termo, aliás, que foi repetido à exaustão em todo o episódio. Aprendemos o que houve com nossa querida Monica Reyes, e vimos como o Canceroso ficou afetado após o primeiro final da série. O episódio se torna uma luta contra o tempo para obter a cura para a infestação, com participação de Einstein e Miller, este que já confronta o Canceroso e se mostra essencial para salvar a vida de Mulder. Scully finalmente encontra os dois depois de ter inoculado a cura em Einstein, porém o estado de Mulder é crítico, e somente uma transfusão do sangue de William, o filho deles, poderia salvá-lo. Nesse momento aparece sobre a cena uma nave com tecnologia alienígena, que envolve tudo com um cone de luz, Scully olha sem ação para cima... e o episódio termina.

 

Chris Carter filho da...!!! Sim, até nisso voltamos aqueles maravilhosos tempos em que Arquivo-X foi a maior audiência do canal que o exibiu originalmente! Minha opinião é que foi uma excelente minissérie ou décima temporada, que teve exatamente o mesmo sabor das primeiras e históricas quatro temporadas de Arquivo-X. A mesma tensão, o mesmo suspense, o mesmo humor, a mesma obsessão de Mulder em descobrir a verdade, e a mesma racionalidade com a mente aberta de Scully.

Além de tudo, os novos personagens acrescentaram muitos elementos dignos de serem explorados. Com Miller e Einstein realizei um velho sonho, pois sempre quis saber como nossos dois heróis eram vistos por seus colegas do Bureau, e eles trazem mais uma excelente possibilidade de dar uma autêntica e duradoura sequência à série. Pena mesmo que Carter não tenha seguido os quadrinhos e deixado claro que os Pistoleiros sobreviveram e estão ainda por aí atuando, mas como na alucinação de Mulder em Babylon eles apareceram ao lado de Skinner... como diz no pôster, Eu Quero Acreditar!

Assim, finalizando este já longo texto, nossos amados universos de Ficção Científica têm experimentado uma grande renovação desde 2009, porém, para mim, o que se saiu melhor, por conseguir trazer de volta os mesmos sentimentos e o mesmo clima originais, que por tantos anos desfrutamos em episódios inesquecíveis que nunca cansamos de assistir e reassistir, sem dúvida foi Arquivo-X. Esses seis episódios foram muito poucos, na verdade, para matar tantas saudades de nossos amigos, que nos brindaram com histórias sensacionais, tensas, assustadoras, dramáticas e divertidas. E por isso, por trazer toda essa diversão de volta e ainda mais renovada, sem dúvida temos que comemorar e muito! Sou trekker sim, e adoro Star Wars, mas com certeza foi Arquivo-X o universo que apresentou a melhor renovação. Que venham mais episódios inéditos em 2017!

Antes de encerrar, gostaria de sugerir meus e-books disponíveis na Amazon:

A Lista: Fenda na Realidade

A Lista: Nêmesis

O Império, o Meteoro e a Guerra dos Mundos

Até a próxima!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 18h38
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BEM VINDOS AO FUTURO!

Hoje foi mais um dia para lembrar como é bom ser nerd. Ao longo de toda esta quarta-feira, 21 de outubro de 2015, todos nós ficamos com aquela sensação magnífica de estar fazendo parte de algo muito especial. Pois claro, como devem saber, 21 de outubro de 2015 é a data da chegada de Marty McFly e Doc Brown ao futuro, em De Volta para o Futuro II, segundo filme da maior trilogia da história da Ficção Científica!

Antes que o mimimi comece, Star Wars já não é uma trilogia há tempos... e poderia acrescentar, infelizmente...

Para comemorar esta data, vários veículos fizeram especiais, como os jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. O site Space lembrou que, em 05 de dezembro de 2014, uma miniatura do Delorean, além de uma coleção de memorabilia, voou no protótipo da nova nave espacial tripulada da NASA, a Orion. E de fato, esse Delorean em particular realmente viajou no tempo, visto que devido à velocidade da nave o fluxo temporal sobre ele foi mais lento, em algumas frações de segundo!

Várias marcas aproveitaram a data para homenagear e pegar uma carona na divulgação da trilogia. E uma delas foi a Dunlop, que ficou bem legal, aliás! E a Casa Branca fez de hoje o Dia de De Volta para o Futuro, para uma série de painéis com inovadores, em torno da questão: "O que o ano 2045 parece para você?". Pois é, cada um tem a presidência da república que merece... E por sinal, caso Marty e Doc chegassem a nossa São Paulo atual, poderiam ter alguns probleminhas...

Enfim, o dia é de festa, e para celebrar, nada melhor do que lembrar de algumas curiosidades sobre a saga. Abaixo relaciono várias delas, e vocês podem pesquisar mais no site Imdb.

 

De Volta para o Futuro:

- Shopping, Twin Pines Mall no começo do filme, no final Lone Pine Mall. Primeira evidência de que viagens no tempo têm consequências.

- Courthouse Square, a praça do Relógio da Torre, é uma área adjacente à Universal Studios, e já foi utilizada em inúmeras produções, incluindo: Knight Rider (1982–1986), Gremlins (1984), Magnum, P.I. (1986), Elvira, Mistress of the Dark (1988), Batman & Robin (1997), Buffy the Vampire Slayer (1998), Ghost Whisperer (2005–2010), Falling Skies (2011-), House M.D., 8x5 "The Confession" (2011/12).

- John Delorean (06/01/1925 – 19/03/2005) fundou a companhia Delorean Motor Company (DMC), em 24 de outubro de 1975, que faliu em 1982. Ele chegou a ser preso pela acusação de tráfico de drogas, porém foi inocentado quando a tese da defesa, de que a polícia armou o flagrante, foi aceita. Enviou um carta aos produtores, que pode ser vista nos extras do DVD, agradecendo por terem utilizado o DMC-12. Em 1995 o mecânico Stephen Wynne adquiriu a marca e passou a produzir peças e carros completos em Houston, Texas, sem qualquer relação com a empresa original, mas dando suporte a proprietários de Delorean. O DMC-12 foi produzido de 1981 a 1983, em cerca de 8.500 exemplares. Acredita-se que cerca de 6.500 ainda existam, dois deles em São Paulo.

- Johnny Be Gode, de Chuck Berry, a música que Marty toca, está na seleção do Disco de Ouro das naves Voyager 1 e 2.

- Cena de abertura, relógios da casa de Doc, é visível um boneco pendurado no ponteiro de um dos relógios.

- Julio Verne, autor favorito de Doc e Clara, inspirou o nome de seus filhos. Doc menciona Viagem ao Centro da Terra a Marty, e conversa com clara sobre Da Terra à Lua e 20.000 Léguas Submarinas. Porém quando diz que leu sobre Capitão Nemo quando era garoto ela estranha, já que a história foi publicada de março de 1869 a junho de 1870, no periódico Magasin d’Éducation et de Récréation, do editor Pierre-Jules Hetzel. Aliás, Julio Verne nasceu em 08/02/1828, então em 1885 ele tinha 57 anos.

- H.G. Wells publicou A Máquina do Tempo em 1895, mas não é mencionado na saga. Por sinal, Julio Verne disse, sobre Wells: “Ele mente”, pois Verne era adepto do absoluto rigor científico, ao passo que Wells dava asas à imaginação e não se limitava à ciência da época. Verne cobrou de Wells que mostrasse a cavorita, o mineral que repelia a gravidade, de Os Primeiros Homens na Lua. Talvez tenham nascido aí as duas grandes divisões da Ficção Científica, Hard adepta do rigor científico, e Soft, mais liberal e interessada na crítica social.

- Cena de Doc pendurado no relógio, pode-se ver que seus sapatos são fechados por velcro. Essa tecnologia foi lançada pela primeira vez pela Puma em 1968.

- Guitarra de Marty é um modelo Gibson ES-345, lançado em 1958.

- O lenço usado pelo motorista líbio é saudita.

- Doc coloca no marcador de tempo a data do nascimento de Cristo como 25 de dezembro do ano 0. Porém estudos modernos apontam como data correta 6 ou 4 A.C. Além disso, evidentemente o Delorean se materializaria no ano 0, na área que viria a ser a Califórnia. O diretor Robert Zemeckis disse que foi uma piada.

- George diz a Marty que não vai ao baile porque sábado a noite é exibido Science Fiction Theatre. Porém esse programa era exibido as sextas.

- Ronald Reagan gostou tanto da referência a ele que pediu ao projecionista para passar a cena novamente. E em seu discurso do estado da união de 1986, disse: “Como dito no filme De Volta para o Futuro, para onde vamos, não precisamos de estradas”.

- De acordo com o roteirista Bob Gale, em 26 de outubro de 1985, um grupo de pessoas se reuniu no estacionamento usado como cenário para o shopping Twin Pines Mall, aguardando para ver se Marty chegaria com o Delorean.

- O juiz que afirma que Marty e sua banda são barulhentos demais no começo do filme é Huey Lewis, autor das músicas Power of Love e Back in Time.

Continua abaixo:



Escrito por Escritor às 20h14
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BEM VINDOS AO FUTURO!

Continuação...

- O Delorean foi escolhido pelo visual, para que as pessoas de 1955 achassem que era uma nave espacial.

- Marty imita famosos guitarristas. Tocar deitado como Angus Young do AC/DC, pular em um pé só como Chuck Berry, e no solo como Jimmy Hendrix e Edward Van Hallen.

- Doc manda Einstein um minuto para o futuro, porém se passam 1 minuto e 21 segundos. O retorno se dá a 1h21, e o circuito do tempo do Delorean precisa de 1,21 gigawatts para funcionar.

- Em todos os três filmes a data do presente é 26 de outubro de 1985. Exatamente em 26 de outubro de 2010, 25 anos depois, saiu a edição de 25 anos em blu-ray.

- O posto Texaco aparece em 1985 e em 1955.  O avô materno de Christopher Lloyd foi um dos fundadores da Texaco.

- A revista Tales from Space homenageia a EC Comics, conhecida editora dos anos 50, e seu logo é visível na capa. Seus títulos de Ficção Científica eram Weird Science e Weird Fantasy, e o de terror era Tales from the Crypt. Robert Zemeckis era fã da EC, e foi produtor executivo da série Contos da Cripta de 1989.

 

De Volta para o Futuro parte II:

- Carl Sagan considerou o mais acurado filme sobre viagens no tempo já realizado, devido ao cuidado em lidar com as múltiplas linhas temporais, como se viagem no tempo fosse possível. Seu nome foi usado por Doc no game, quando da visita a Hill Valley em 1931.

- Elijah Wood é um dos garotos jogando videogame com quem Marty conversa, seu primeiro trabalho em um filme (está de camiseta vermelha).

- A camiseta que Doc usa durante boa parte do filme mostra caubóis a cavalo e um trem, antecipando o terceiro filme.

- Em 2015 carros de outros filmes de Ficção Científica podem ser vistos, como o Spinner de Blade Runner (1982), e o StarCar de O Último Guerreiro das Estrelas (1984).

- O carro (táxi) que leva o velho Biff ao Delorean, quando este está estacionado diante da casa de Marty e Jennifer, é um Citroen DS, lançado em outubro de 1955. Também aparece como ferro velho no 1985 alternativo.

- No roteiro original, ao invés de Tubarão 19, Marty veria em 2015 uma chamada para Godzilla 2015. E em 2014 tivemos um novo filme de Godzilla.

- No 1985 alternativo, Richard Nixon foi reeleito para um quinto mandato. Exatamente o mesmo acontece na HQ Watchmen, de Alan Morre e Dave Gibbons, publicada entre 1986 e 1987. E Moore e Bob Gale, roteirista da série De Volta para o Futuro, escreveram HQs do Batman.

 

De Volta para o Futuro parte III:

- O beijo de Doc em Clara foi o primeiro beijo em cena da carreira de Christopher Lloyd.

- Quando Doc e Marty estão preparando a viagem a 1885, Marty fala de Clint Eastwood, e Doc pergunta “Quem?”, são visíveis os pôsteres de A Revanche do Monstro (1955), e Tarântula! (1955), alguns dos primeiros trabalhos de Eastwood.

- Falando sobre a foto da lápide, Marty e Doc trocam de frases, Marty diz “Great Scott”, e Doc fala “Yeah, this is heavy”.

- A cidade do velho oeste ficava em Jamestown, Califórnia, e foi destruída por um raio em 1996.

- Em 1885, no veículo que transporta esterco, está escrito A. Jones. Em 1955 o letreiro diz D. Jones.

- Ronald Reagan foi convidado a interpretar o Prefeito Hubert, e recusou com relutância. O papel coube então a Hugh Gillin.

- Doc Brown comenta que o nome de sua família é Von Braun. É uma referência ao cientista alemão Werner Von Braun, projetista do míssil alemão V-2 da Segunda Guerra Mundial, e que depois trabalhou para os americanos, ajudando a fundar a NASA e tendo projetado o Saturno V, o foguete que levou o homem à Lua.

- Os três caras no saloon são interpretados por  Dub Taylor, Pat Buttram, e Harry Carey Jr., que participaram de inúmeros bangue-bangues como bêbados, ajudantes e cidadãos de pequenas cidades do velho oeste.

- O relógio da torre pode ser visto sendo descarregado do trem ao fundo, quando Marty e Doc falam com o maquinista sobre a velocidade de uma composição.

- Em 1885 existe um estabelecimento de venda de cavalos chamado Statlers. Em 1985 pode ser ouvido um anúncio de rádio sobre Statler Toyota. E em 1955 uma concessionária Statler Motors Studebaker.

- Mary Steenburgen interpreta Clara Clayton, uma mulher do século XIX que se apaixona por um viajante do tempo do século XX. E Um Século em 43 Minutos (1979), ela interpreta uma mulher do século XX que se apaixona por um viajante do tempo do século XIX.

- Mais longo salto no tempo do Delorean, de 7 de setembro de 1885 a 27 de outubro de 1985, 100 anos, um mês, 20 dias.

- O relógio da torre foi acionado às 8 horas de 5 de setembro de 1885. Como o raio o atingiu em 12 de novembro de 1955 às 22:04, significa que ele funcionou 70 anos, dois meses, 7 dias, duas horas e 4 minutos.

E A MELHOR!

- Em 12 de novembro de 1955 existem, na verdade, quatro versões distintas do Delorean em Hill Valley. 1- O que trouxe Marty no primeiro filme. 2- O que Biff velho usou para entregar o almanaque ao Biff jovem. 3- O usado por Marty e Doc para recuperar o almanaque. 4- O que ficou guardado na mina.

Para encerrar, deixo os caros leitores com uma mensagem muito especial de Doc Brown:

Não esqueça, o futuro é uma página em branco, tenha certeza de escrevê-lo bem!

Até a próxima, no futuro!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 20h11
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Samuel, como sempre, estava cismado.

— Essa P. desse carro tá querendo aprontar alguma comigo!

Daniel dirigia em meio ao tráfego pesado para a Festa do Peão. Era sempre a mesma história quando saíam com o Fusca de Vó Nena.

— Dá para relaxar?

— Olha, olha agora! – disse Samuel, apontando para os mostradores do painel. – Ficaram com luz vermelha, como ele faz sempre quando estou aqui!

O irmão mais velho desviou os olhos por um instante, e constatou que o velocímetro e o marcador de combustível de fato exibiam uma leve luminescência vermelha. Atento ao trânsito pesado, respondeu:

— Mas Samuel, o que você queria? Conhece muito bem a história da Vó com esse carro! Falando nisso, liga prá elas já que não tá fazendo nada!

Samuel ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Pegou o celular e olhou pela janela, tentando se esquecer do quanto não gostava daquele carro. Tatiana logo atendeu:

— Oi, Samuel!

— Coloca na viva-voz – disse Daniel.

Samuel fez isso, e o irmão perguntou:

— Tati, tudo bem?

— Tudo, e vocês?

— Quase chegando, e como sempre Samuel está de birra com o carro – riu Daniel.

— Essa P. desse carro é que tem birra comigo! – protestou o irmão mais novo.

Ouviu-se uma voz indignada:

— Mas que P. de linguagem é essa, Samuel, seu moleque! – Vó Nena gritou entre duas fortes tossidas. — Essa é a M. de educação que sua mãe te deu?

Daniel riu mais ainda, e perguntou:

— Vó, como a senhora está?

Nena tossiu de novo, ouviu-se também um espirro, e ela respondeu:

— Esses médicos filhos de uma P. já deveriam ter inventado um remédio contra essa M. de gripe, meu filho! Tô que não me aguento! E falando nisso, tá cuidado direitinho do Fusca?

— O Poizé tá excelente, Vó! Só o Samuel que não gosta muito dele...

Ouviram-se as risadas de Nena e Tatiana, e a anciã respondeu depois de nova tossida:

— O Fusca também não gosta muito do Samuel, he, he, he... meus netos, tomem cuidado.

— Tati, teve mais alguma visão? – perguntou Samuel tentando mudar de assunto.

— Não, nada, só aquela – disse a vidente. — Meninos, cuidado, duas forças muito poderosas estão a ponto de se enfrentar, e tudo aponta para a Festa do Peão.

— Pode deixar, amor – respondeu Daniel. – Trouxemos tudo que podemos precisar, e nenhuma coisa ruim vai escapar da gente.

— Qualquer coisa vocês liguem, meus netos – disse Nena.

Todos se despediram no momento em que entraram com o Fusca, um raro modelo azul monocromático ano 1962, no enorme estacionamento do evento. Rodaram um pouco pelos corredores apertados e Daniel reparou quando, em dado momento, passaram por um casal e três filhos, dois meninos e duas meninas, a pé. O garoto menor apontou o carro e deu um soco no braço do irmão, para em seguida o mais velho sair correndo atrás do mais novo. Até Samuel deu risada, e após mais algumas voltas viram um carro liberando uma vaga. Depois que ele saiu Daniel manobrou e estacionou o Fusca de ré, mas Samuel olhou para o lado e disse:

— Tá apertado aqui, não vai querer que amasse a porta no carro do lado.

— Refaço a manobra, então.

Daniel saiu um pouco da vaga, virou o volante, e dessa vez o Fusca encaixou-se bem. Desligaram no momento em que um utilitário esportivo compacto parou na frente deles. O motorista baixou o vidro e gesticulou. Daniel saiu primeiro e fez sinal negativo com a mão.

Porém, o outro resolveu insistir. Tirou o chapéu e o abanou, mas os dois irmãos continuavam a ignorá-lo enquanto pegavam as mochilas no banco de trás.

— Ô, sujeito, cê tava saindo! – berrou finalmente o outro.

— Não estava, amigo – respondeu Daniel. – Só manobrando para estacionar melhor.

O motorista do jipe olhou para o lado, e eles repararam na garota também de chapéu. O sujeito voltou a gritar com eles:

— Caramba, tô circulando aqui faz tempo, tira essa M. daí para eu estacionar!

Samuel, pela primeira vez, olhou para o Fusca e sorriu. Do painel emanava um brilho vermelho mais forte. Daniel, por sua vez, tentou argumentar:

— Olha colega, estamos chegando e já estacionamos. Vamos tratar dos nossos negócios, e não temos tempo a perder.

— Pois vão perder é essa tranqueira que puseram na minha vaga, seus frouxo!

O sujeito arrancou com o jipe, andou poucos metros, freou e engatou a ré. Os dois irmãos se afastaram, observando tranquilamente.

O jipe veio e bateu no Fusca, amassando o para-lama e o para-choque esquerdos e um pouco do capô. O motorista do jipe olhou pela janela, e estranhou os dois irmãos de pé a pouca distância, simplesmente observando. Ele olhou para a moça a seu lado, engatou a primeira, afastou-se um pouco, e voltou de ré pela segunda vez.

No momento em que o jipe ia novamente acertar o Fusca, o capô deste abriu-se e em seguida se fechou contra a traseira do utilitário esportivo. O motorista do jipe olhou pela janela, e abriu a boca espantado. De dentro do Fusca emanava uma luminosidade vermelha, visível também nos faróis, e o carro continuava a abrir e fechar o capô, dando verdadeiras mastigadas na traseira do jipe. A lataria do utilitário ficava cada vez mais amassada, e os dois ocupantes começaram a gritar.

— Mas que P. é essa!?

— Acelera, C., vamos fugir daqui, tá esperando o quê?

— Tô acelerando, mulher, tô acelerando!

O Fusca segurava o canto esquerdo do utilitário com a roda traseira deste no ar. Finalmente, após arrancar um pedaço da lateral traseira, abriu o capô e o jipe saiu em disparada, guinchando os pneus.

Daniel e Samuel simplesmente observaram tudo sem fazer nada. O Fusca havia saído um pouco da vaga, e recuou de ré enquanto sua lataria amassada retornava ao formato original. Quando parou em seu lugar, não havia mais qualquer sinal do incidente, exceto o pedaço do jipe no chão.

Samuel se aproximou, abaixando-se para apanhar a peça de metal e dizendo:

— Esses são os únicos momentos em que gosto desse carro.

Como que respondendo, os faróis do Fusca se tingiram brevemente de uma luminescência vermelha. O irmão mais novo parou, encarou o carro, e finalmente desistiu. A peça de metal ficou no chão.

Samuel voltou para junto de Daniel, que ria muito, e os dois rumaram para a entrada da Festa do Peão.

O evento estava lotado, com presença de pessoas de todas as cidades da região, e até vindas de outros estados. Na arena peões se exibiam montando cavalos e touros bravos, e na feira e na praça de alimentação havia muito o que ver e muito onde gastar.

O barulhento grupo que se acomodou em um dos stands de churrasco no meio da tarde, entretanto, queria consumir outro tipo de mercadoria. Todos se vestiam como autênticos peões de boiadeiro, mas seu interesse estava nas moças que passavam. Alguns do grupo já aproveitavam a companhia de garotas em roupas típicas, short ou calça jeans, camisa e chapéu, mas Fernando dizia que ainda estava esperando a dele.

E nesse momento a viu passando: morena, bronzeada, vestindo um short pequeno e justo, top, chapéu e botas. Ele se virou para os amigos, que exibiram sorrisos de aprovação, levantou-se do banco e aproximou-se da moça. Enlaçou sua cintura e foi logo dizendo:

— A moça tá desacompanhada, tá?

A morena virou o rosto para ele, e Fernando teve a impressão de ver um brilho diferente em seus olhos. Mas então ela abriu um sorriso e respondeu:

— Não estou mais.

Ela agarrou-o pela nuca e o beijou, enfiando a língua em sua boca com vontade. Os amigos berraram em aprovação, e a menina puxou Fernando para um canto, não muito longe da barraca onde sua turma comia e se bolinava.

A morena parecia insaciável, e Fernando ria com a sorte que teve.

— Mas você é gostosa mesmo, hein?

Ela acariciava todo o corpo do rapaz, arrancou sua camisa que estava presa na calça, e disse:

— Meu nome é Sheila, e o seu?

— Fernando, fofa. Mas você quer aqui mesmo? Assim?

Sheila o provocava, passava as mãos em seu corpo, e conduziu a mão dele para sua bunda, enquanto dizia:

— Por quê? Você não quer?

Em resposta, o peão de asfalto a agarrou, apalpando todo seu corpo. Sheila sorria enquanto ele beijava seu pescoço, depois tirou o chapéu do rapaz, segurando-o pelos cabelos e o beijou.

Fernando poderia jurar que jamais havia sido beijado daquela forma. Sheila parecia querer comê-lo vivo.

E foi quando sentiu. Os lábios da morena começaram a esquentar, um fogo parecia vir de dentro dela, e passar através do beijo para Fernando. Mas o que sentiu não era prazer.

O terror se espalhou por seu ser. Tentou gritar, mas a mulher o segurava com firmeza incomum, beijando e sugando sem parar. O tormento não tinha fim.

E então Fernando não sentiu mais nada.

 

Os gritos aterrorizantes chamaram a atenção de Samuel e Daniel, que haviam parado em uma barraca na praça de alimentação para um lanche. Sequer haviam tomado café antes de sair, apressados por Vó Nena diante da visão que Tatiana tivera, e se aprontavam para saborear grandes hambúrgueres, quando um tumulto lhes chamou a atenção.

Chegaram correndo, abrindo caminho entre a multidão. Garotas choravam, e alguns dos rapazes pareciam que iam borrar as calças em breve. Um vomitava no canto, quando os dois irmãos viram o motivo da balbúrdia.

Um corpo estava estirado no chão, vestindo roupas novas de caubói. Entretanto, o cadáver estava seco, com aparência mumificada. Samuel rapidamente tirou a câmera da mochila e bateu várias fotos, depois mudou a configuração para filmar a cena.

Enquanto isso Daniel interrogava as pessoas próximas:

— Alguém viu o que aconteceu?

Algumas pessoas evitavam encará-lo, outras saiam apressadas. Enquanto Samuel continuava a registrar o cadáver e procurar alguma evidência ao redor, Daniel repetia suas perguntas.

— Ele... ele parecia feliz, saiu com uma morena gostosa que chegou..

Daniel se virou e encarou um rapaz jovem, que disse ser amigo do morto. Conversou rapidamente com ele, mas era basicamente tudo que sabia. Observando uma e outra pessoa apontando a câmera do celular para o cadáver, ele perguntou ao rapaz:

— Será que ninguém tirou foto dessa mulher?

Outro sujeito da turma amparava o que havia vomitado, enquanto dois ainda estavam com as garotas que haviam conhecido. Diante da pergunta de Daniel, uma delas apanhou o celular e começou a mexer no aparelho. Finalmente passou a olhar fixamente para a tela, acompanhada das amigas que a rodeavam.

Daniel abriu caminho e ficou diante da menina. Ela percebeu, ergueu os olhos, e por fim virou a tela do celular para ele.

 

Aquele cavalo estava bem mais agitado que de costume, e quatro homens não conseguiam segurá-lo. O bicho relinchava e escoiceava, enquanto os peões tentavam com muito esforço introduzi-lo no cercado por onde seria conduzido até a arena.

Não muito longe dali um jovem casal passeava com a filha de quatro anos. A menina segurava a mão da mãe, e virava a cabeça para todos os lados, olhando o movimento.

O cavalo continuava a escoicear. Um grupo de pessoas assistia a cena a pouca distância.

A menina andava com um cavalo de pelúcia na outra mão, mas o brinquedo caiu, e ela se virou, soltando-se da mãe. Esta a chamou pelo nome, mas a menina correu para apanhar o bicho de pelúcia.

O cavalo finalmente acertou um coice de raspão, derrubando um dos homens. Os demais não conseguiram segurá-lo, e o animal saiu em disparada. O grupo de pessoas que assistia se dispersou, as pessoas corriam apavoradas e o cavalo passou galopando por elas.

A menina apanhou o cavalo de pelúcia, mas foi derrubada por pessoas que fugiam, assustadas com o cavalo que se aproximava.

Os pais da menina gritaram, paralisados pelo pânico, observando o animal se aproximar de sua filha.

Nesse instante uma moça loira, linda, usando um vestido curto delicado, chapéu e botas, se interpôs entre o cavalo em disparada e a menina.

O animal avançou mais alguns passos e parou diante da loira. A moça o olhava fixamente, e o cavalo baixou a cabeça. A loira o acariciou, enquanto o casal se aproximava correndo e tomava a menina nos braços.

— Obrigado, muito obrigado, moça! – disseram eles.

A loira os olhou com ar indiferente, virou-se e fez uma carícia final no cavalo. Os peões chegaram correndo nesse momento, olhando a cena sem conseguir acreditar.

A moça lançou um último olhar para o cavalo e se afastou andando, desaparecendo em meio à multidão.

O casal e sua filha seguiram em outra direção, enquanto os peões não tiveram qualquer dificuldade em conduzir o cavalo de volta à arena. Um e outro ainda olhava para trás procurando a loira, e comentavam entre si perguntando como ela pôde parar um animal bravo como aquele.

 

Na Festa do Peão também acontecia uma exposição com as novidades da moderna indústria agropecuária. Tratores, máquinas e implementos estavam em exposição e, assim como o restante do evento, o local também estava apinhado de gente.

Carla era uma das promotoras, e por mais que morresse de vontade de estar com as amigas, que aproveitavam a festa vestidas a caráter, já havia parado de reclamar do conjunto blazer e saia que vestia. O dinheiro que pagavam fazia valer a pena, e ela aproveitava um intervalo para esticar as pernas depois de comer algo.

Lembrou-se da morena de short e top que já havia chamado sua atenção quando passou várias vezes por seu estande, e Carla pensou em como seria bom encontrá-la. Suspirou com a recordação dos olhares que trocaram e já estava voltando, quando seu sonho se tornou realidade.

A morena surgiu de trás de um dos enormes tratores, olhando para Carla com desejo.

— Oi, sou Sheila – disse.

— Oi — respondeu Carla.

A morena apanhou sua mão, conduzindo-a para um canto sossegado. Carla olhou o relógio e viu que ainda tinha alguns minutos, e afinal ela tinha direito de aproveitar a festa. Conversaram um pouco enquanto andavam e, ao constatar que ninguém mais as incomodaria, Carla beijou Sheila com vontade

A promotora passeava com as mãos pelo corpo da morena, que retribuiu seus carinhos. Parecia que uma queria devorar a outra.

 

— Alguém viu a Carla?

O gerente da revendedora de tratores estava furioso. A promotora havia saído para seu intervalo e ainda não retornara.

Um grito aterrorizante veio de trás de uma colheitadeira exposta em outro estande. As pessoas correram para lá e não acreditaram no que viram.

 

— Mas que P. é essa ceufi?

— É selfie, Vó – explica Tatiana. – A mesma coisa que autorretrato.

— Esse povo tá é cada vez mais besta, isso sim! – comenta a anciã.

As duas observaram a foto enviada pelos rapazes, enquanto Samuel explicava:

— Faz uns vinte minutos soubemos de outro zunzunzum, e descobrimos um segundo corpo, uma moça que era promotora num estande da feira agropecuária, aqui ao lado.

— Algumas pessoas disseram que a moça estava no intervalo e se engraçou com uma morena gostosa – acrescentou Daniel.

— Sei, morena gostosa – comentou Tatiana.

— Amor, você sabe que só tenho olhos prá você.

— Vamos deixar de sem-vergonhice enquanto a gente caça, vocês dois? – disse Vó Nena entre duas tossidas.

— Daí demos sorte, pois uma das meninas do primeiro grupo fotografou o tal Fernando saindo com a morena, e quando mostramos essa foto para as testemunhas do segundo caso, confirmaram que é a mesma mulher.

— Além disso, soubemos de outra coisa estranha – comentou Samuel. – Um cavalo desembestou para cima de uma menina pequena, e uma loira também gostosa... eu posso comentar, viu, mano? Enfim, essa loira apareceu de repente e amansou o bicho.

Samuel fez uma pausa, e prosseguiu:

— Tipo, amansou mesmo! O cavalo era para ser montado durante a competição dos peões, mas ficou manso, não serve mais pro rodeio!

Ouviram pelo telefone Vó Nena tossir bastante, e depois de alguns instantes a anciã, com voz rouca, disse:

— Meus netos, a primeira vagabunda deve ser uma súcubo

— Súcubo? – perguntou Samuel.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 13h56
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Continuação:

— É, um demônio que seduz e rouba a energia das pessoas – completou Nena. – E não faz diferença, homem, mulher, o que aparecer prá ela tá bom.

— E como matamos, Vó? – perguntou Daniel.

— Faca, espada, fogo, bala de prata, tudo isso serve, meus netos. Mas tomem cuidado, essas filhas da P. são muito fortes, resistentes, e principalmente vocês que são homens, podem cair no papo dela muito fácil. Não vão abrindo as calças aí prá qualquer uma, hein?

— Vó!? – disse Tatiana indignada.

Nena riu, bem como os rapazes, mas a anciã completou:

— Filha, essas pestes seduzem até quem já passou da idade! E até você, linda desse jeito, pode cair na conversa de uma delas.

— E essa outra, Vó? – perguntou Samuel. – Acha que a gente deve investigar?

— Pelo visto a Tati acertou, Samuel, meu neto – comentou Nena entre duas tossidas. – Não é normal uma moça amansar cavalo bravo assim, só de olhar e tocar. Fiquem de olho, vou mandar a Tati pesquisar, pois não lembro de cabeça qual criatura influencia bicho assim.

— Vamos ficar de olho, Vó – disse Daniel.

— E você se cuide! Principalmente com esses rabos-de-saia! – disse Tatiana.

— Eu te amo, Tati!

Daniel desligou, Tatiana segurou o celular contra o peito, preocupada com o namorado.

 

O grupo de quatro peões comentava o desempenho inédito de dois dos competidores do rodeio.

— C., nunca vi o Mané e o Severino montarem tão bem!

— Eles sempre foram uns frôxo – comenta outro. – Como é que agora tão quase na final?

— Ara, agora só quero saber é de pegar mulher. E olha só que boazuda essa...

Os quatro observaram a loira passando, de vestido delicado, chapéu e botas, e foram atrás. Percebendo como ela parecia perdida, olhando para todos os lados como se procurasse alguma coisa, um deles se adiantou e perguntou:

— A moça parece perdida, carece de precisá de ajuda?

A loira se virou, e os peões fizeram um semicírculo diante dela.

— Preciso ver os animais.

— Ah, então a moça falou c´as as pessoas certa! – um deles se adiantou, piscou para os demais, e passou o braço pelos ombros dela. – Como é seu nome, belezura?

— Ariele.

— Pois então, a gente é tudo peão, e podemos te levar pra ver os bicho. Prefere touro ou cavalo?

— Quero ver todos.

— Então, vem com a gente!

O peão saiu andando com Ariele, e seus três companheiros foram atrás. Nesse momento cruzaram com Samuel e Daniel, e o mais velho se virou, observando o grupo.

— Se essa loira não tiver cuidado, pode se dar mal... – comentou Samuel.

Daniel apanhou um objeto do bolso, colocou-o na palma da mão, e apontou os dedos para o grupo. A agulha da bússola se moveu, apontando para as pessoas que se afastavam.

— Não sei se é ela que pode se dar mal... vamos, mano!

Sem explicar, Daniel saiu correndo atrás dos peões. Samuel o seguiu a contragosto.

 

Dois dos peões estavam caídos ao chão, um deles gemendo e segurando o braço quebrado, o outro desacordado.

O terceiro tentava segurar a loira por trás, enquanto o quarto berrava com ela:

— Sua piranha! A gente só queria se divertir um pouco.

— Vocês são esses homens horríveis que maltratam os animais! Me larguem!

Ariele se debatia, mas o peão a segurava pelos braços. Nesse momento chegaram Daniel e Samuel.

— O que tá acontecendo aqui?

O peão encarando Ariele se virou, olhou os dois rapazes e disse:

— Vão embora, seus frangote, antes que sobre proceis também!

O que segurava a loira se distraiu, e Ariele aproveitou. Ergueu o pé e rapidamente o desceu, acertando a ponta do pé do homem com o salto de sua bota. O peão a largou berrando.

— Sua filha da p.!

Mas o homem não desistiu. Fez um movimento rápido com a mão para acertar um soco na loira, mas só conseguiu derrubar seu chapéu. Este esvoaçou e caiu perto de Daniel, que observou a peça de relance e disse:

— Essa não...

No mesmo instante eles foram derrubados por uma súbita ventania. O peão diante do irmão mais velho se virou, somente para ser acertado por um raio bem no peito. O outro se afastou pulando no pé que não fora pisado, de olhos arregalados para a loira.

Ariele flutuava a centímetros do chão, uma luz intensa saía de seus olhos, e raios crepitavam e saltavam de suas mãos. O vento, do qual ela própria era a origem, fustigava seus cabelos e só aumentava.

Os quatro peões por fim levantaram, olhando em pânico para a loira.

— Vão embora daqui, seus M., se quiserem viver! – berrou Samuel. Foi a senha para os quatro saírem correndo e desaparecer.

Daniel, enquanto isso, apanhou o chapéu da loira, e tentou se aproximar dela. Ele não ouvia os gritos de Samuel, enquanto avançava passo após passo. A moça ainda flutuava, e ele conseguiu se esquivar de alguns dos raios que saíam dela.

Finalmente, com um salto, Daniel colocou o chapéu na cabeça da loira. Os dois caíram ao chão.

A próxima coisa que o irmão mais velho viu foi Samuel quase em cima deles, apontando a arma com balas de prata para a moça e gritando:

— Mas que P. é você? Vou te mandar bala de qualquer jeito, então é melhor falar, se quiser que doa menos!

Daniel se levantou e segurou a arma, obrigando o irmão a baixá-la. Samuel não entendeu:

— Tá louco, mano? Não viu o que essa coisa fez?

— Vi sim, e foi você que não viu no chapéu dela.

— Chapéu? Mas que P. é essa de chapéu? – perguntou Samuel, virando-se para olhar para a loira, que já se levantava. – O que tem o chapéu...

— Obrigada por devolvê-lo a mim, estranho – disse a loira com uma voz suave e melodiosa. Ela tirou o chapéu, segurando-o junto ao corpo, e nesse momento Samuel viu.

Na parte da frente, acima da aba, havia uma estrela de cinco pontas cujo brilho variava como um caleidoscópio. A moça passou uma das mãos, e o brilho se espalhou por todo o chapéu. Em seguida, a forma luminosa se alongou e estabilizou, com a estrela em uma das pontas.

— Tá de brincadeira comigo!? – disse Samuel incrédulo.

— Soube no momento em que vi a estrela – comentou Daniel. – E quer guardar essa arma, cacete?

Samuel voltou a apontar a arma para a moça, que disse:

— Sou Ariele, e vim a este lugar para defender os animais de uma presença maléfica.

— A única coisa aqui que não é natural é você, moça – comentou o irmãos mais novo ainda com a arma apontada.

— P., Samuel, já mandei guardar isso! – disse Daniel. E, virando-se para a moça, disse:

— E você, fada, daqui a pouco vai ter um monte de gente aqui por causa dessa confusão. Melhor irmos conversar em um lugar seguro, pois já sabemos dessa presença maléfica.

Daniel apanhou sua mochila do chão e foi andando. Ariele e Samuel olhavam para ele incrédulos, quando o irmão mais velho se virou e acrescentou:

— Ou podem os dois ficar aí se encarando. Vocês que sabem.

Daniel se afastou. A varinha de Ariele voltou a ser um chapéu e ela seguiu o rapaz. Deixado sozinho, Samuel resmungou alguns palavrões, voltou a colocar a arma na mochila, e finalmente os seguiu.

 

— Fadas são seres elementais, como as iaras, alamoas, sacis e outros da nossa terra – explicou Vó Nena. A anciã deu uma forte tossida e prosseguiu: — Não são naturais do Brasil, então os daqui não gostam muito delas. Mas elas não são maléficas como os filhos da P. dos vampiros, que também são estrangeiros no nosso país.

— Vó, essa coisa causou uma confusão dos diabos quando perdeu o chapéu, que na verdade era a varinha dela – disse Samuel com ao telefone. – Tem certeza?

— Os poderes das fadas são enormes, Samuel – disse Tatiana, entrando na conversa. – As varinhas servem para canalizá-los, e também como controle no caso de fadas muito jovens, provavelmente como é o caso da que vocês encontraram.

A vidente fez silêncio por um momento, depois acrescentou:

— E o Daniel, onde está?

— Foi com ela ver mais uma etapa do rodeio.

— Ah, foi? Ele vai ver só quando voltar!

— Fica quieta, menina! – disse Nena. – Samuel, meu neto, a fada disse por que queria ver o tal rodeio? Perceberam alguma outra coisa anormal?

— O comentário que ouvimos por todo lado aqui é que dois peões que eram desconhecidos estão tendo muito destaque. Essa etapa é a semifinal, e parece que eles nunca foram tão longe.

Nena tossiu, e nem ela nem Tatiana falaram nada por alguns segundos. Então a anciã finalmente respondeu:

— Ás vezes, uma filha da P. dessas súcubos não suga a vítima de uma vez. Essas desgraças gostam de manipular, e pode acontecer de fazer isso com mais de uma pessoa, tirando proveito da energia delas.

— A senhora acha então que essa súcubo, a tal da morena gostosa, pode ter influenciado esses peões?

— E a fada pode ter sentido essa energia também – comentou Tatiana. – Acabei de sentir também, Samuel, foi só pensar na Festa do Peão que me veio essa imagem.

Tatiana ficou em silêncio, e depois acrescentou com voz trêmula:

— Imagem de muito sangue e morte, Samuel. E você e o Daniel no meio. Tomem cuidado, pelo amor de Deus!

— Vamos tomar, Tati. Mais alguma coisa, Vó?

— Quando forem matar a coisa, meu neto, tomem cuidado. A fada pode ajudar, mas não confiem muito.

Eles se despediram e Samuel desligou, guardando o celular. Pessoas passavam por eles, apressadas para chegar à arena, onde a semifinal começaria em poucos minutos. E ele voltou a ouvir comentários, aqui e ali, a respeito do incrível desempenho dos dois peões desconhecidos.

Samuel ajeitou a mochila e correu.

 

As arquibancadas estavam lotadas para a competição. Os peões se revezavam no lombo dos cavalos, tentando ficar os oito segundos regulamentares sobre os animais. Estes, por sua vez, escoiceavam e muito, dificultando ao máximo o trabalho dos competidores.

A cada peão que conseguia completar o tempo e pular da montaria o público berrava. Vários deles tinham sua própria torcida organizada, porém vários grupos já haviam deixado a arena, devido à desclassificação de seus favoritos.

Porém, dois dos concorrentes estavam chamando a maior parte da atenção, e também da torcida, na competição desse ano. Quando Mané foi anunciado, aquela parte da torcida que gosta de vibrar com um azarão se ergueu e gritou o nome do peão a plenos pulmões. Depois de se preparar, a porteira foi aberta e Mané tratou de se segurar sobre o cavalo, uma das mãos para cima e a outra firmemente segura na corda que contornava o corpo do animal. A multidão vibrava, e quando os oito segundos se passaram, Mané largou o cavalo, saltou e aterrissou com uma cambalhota.

O peão observou os auxiliares apanharem o cavalo bravo, e abriu os braços. O público vibrou, gritando seu nome.

— Esses brutos estão machucando os animais! Vou parar com isso!

Ariele, observando a cena entre a grade que separava a arquibancada da arena, estava furiosa. Daniel, a seu lado, observou Mané estender o braço e apontar para outro peão que se preparava. O locutor do rodeio anunciou o nome de Severino, e a multidão foi ao delírio mais uma vez.

— Vem cá, foram nesses dois mesmo que você sentiu algo diferente?

— O que importa? – perguntou a fada.  – Os animais estão sofrendo.

— Importa que tem alguma coisa muito ruim aqui, e pessoas podem morrer.

— Não me importo com os humanos.

Daniel olhou para a loira, sorriu com o canto da boca e disse:

— Isso não combina com as histórias que contam sobre vocês.

Ariele se virou para ele, mostrando uma curiosidade que até então Daniel não havia visto, e perguntou:

— Que histórias?

Foi a vez do caçador ficar curioso. Perguntou:

— Nunca ouviu falar em contos de fada? Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, essas coisas?

— Estive pouco no mundo dos humanos, sou uma fada jovem.

Daniel viu aí uma oportunidade, e decidiu tentar obter mais informações.

— E o que veio fazer aqui? Só proteger os animais?

— Sim.

— Mas esse rodeio existe há anos, por que só agora? Vieram outras com você?

Ariele, que até então observava a arena e a multidão, tornou a encarar Daniel. Respondeu:

— Muitas de nós sentiram a escuridão, mas somente eu decidi vir, contra o conselho de minhas irmãs.

— Por que outras fadas não vieram? – perguntou Daniel enquanto voltava a apanhar os binóculos.

Na arena, Severino já estava pronto, e quando a porteira abriu o mesmo roteiro se repetiu. Oito segundos depois ele também saltava do cavalo e agradecia aos aplausos, mas rapidamente olhou nas proximidades do corredor que contornava a arena, parecendo procurar algo.

Subitamente o peão fixou o olhar em um ponto, e seguiu correndo para lá. Daniel moveu os binóculos, e conseguiu ver de relance Mané, o outro peão, com o braço ao redor da cintura de uma morena. A mesma da foto que haviam conseguido.

Daniel baixou os binóculos e pensou em sair correndo para lá. Ariele, nesse meio tempo, respondeu:

— Minhas irmãs acham que a escuridão já cresceu muito, e não devemos nos envolver.

Daniel olhou decidido para a loira, agarrou a mão dela e disse:

— Pois agora você está envolvida mesmo. Vem!

O caçador saiu correndo, desviando das pessoas, puxando a fada com ele.

Chegaram a um ponto do corredor circular que ficava entre a arena e a arquibancada, onde a passagem só era permitida a competidores e imprensa. Um leão de chácara estava ao lado de funcionários da Festa do Peão para desencorajar os mais atrevidos, mas isso não deteve Daniel.

— Somos da imprensa, colega, tá aqui a credencial.

Ariele observou Daniel mostrar ao homem um pedaço de papel. O portão foi aberto e eles puderam passar. A fada estendeu a mão, e o caçador deixou que ela visse o objeto.

— Mas isso é só um papel em branco – disse a fada.

— Mas não é qualquer papel – disse Daniel, guardando-o. – É um pedaço do mesmo bloco onde Getúlio Vargas assinou sua carta-testamento, o maldito.

Daniel, como parte de uma tradição familiar, parou e cuspiu no chão ao falar o nome do ditador, depois explicou:

— Muitas das desgraças que minha avó, eu, meu irmão e outros como nós combatemos começaram com ele, que tinha gente em seu governo trabalhando com magia negra, criaturas maléficas e coisas piores. Esse papel é encantado, e mostra qualquer coisa que pensemos. Mas não funciona com seres mágicos como você. E espere para ver o que a caneta que o bastardo usou faz!

Eles continuaram correndo, e nesse momento o celular de Daniel tocou. Atendeu e ouviu a voz do irmão:

— Cacete, cadê vocês?

— Estamos na área fechada, indo atrás do tal Severino. Ele viu o outro peão com a súcubo.

— E agora, como entro aí?

— Contorne por trás. E você tá com ela, né?

— Tá na mochila, afiada como sempre.

Daniel suspirou aliviado. Disse:

— Que bom, porque acho que vamos precisar!

Desligou, e continuou puxando a fada. Severino, bem distante deles, tomou um corredor lateral que se afastava da arena. Daniel começou a pensar que não conseguiria salvar os dois peões do encanto da súcubo.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 13h54
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Continuação:

Mané se sentia no paraíso. Sheila o agarrava e beijava como se quisesse devorá-lo.

— Ah, minha morena, você é muito gostosa, minha querida!

— Você que é, meu peão campeão – disse a morena sussurrando enquanto lambia sua orelha.

Mané se afastou, olhando nos olhos dela. Eram de uma cor que ele não se lembrava de ter visto antes. Na verdade, pensando um pouco a respeito, pareciam variar entre o castanho, o amarelo e o vermelho. Aquilo, por um instante, pareceu estranho demais, assim como o calor que ele sentia no corpo e nos lábios dela. Mas logo se esqueceu daquilo, voltando a agarrá-la e beijá-la.

— Minha morena, vou ganhar esse rodeio procê!

— Mas não vai mesmo, zé-ruela!

Severino, que havia ficado por um momento olhando a cena, correu e acertou um soco em cheio no rival. Toda sua raiva estava dirigida contra Mané, e só depois se veria com aquela vagabunda... não, espere... por que ficaria bravo com Sheila, a morena mais maravilhosa que já vira? Ia é acabar com aquele safado que tentava se aproveitar dela, isso sim.

Por sinal, o que mais queria era agarrar e traçar Sheila ali mesmo. Mas antes ia acabar com a raça do rival.

— Vou acabar com você, seu frôxo!

— É mesmo, seu fio d'uma quenga? Você e quem mais?

Mané ameaçou algumas vezes, depois deu um salto e caiu ao chão agarrado a Severino. Acertou vários socos no rival, mas recebeu vários golpes também. Tudo que queria era matar aquele safado para ficar com a morena.

Acabar com Mané para poder amar Sheila era tudo que Severino também queria. Enquanto os dois se engalfinhavam pelo chão, nem desconfiavam que trilhas com suas energias fluíam, indo direto para a súcubo. Sheila se deliciava com isso, e mal conseguia se conter na expectativa de qual deles iria sobrepujar o outro, e ganhar o grande prêmio.

O de ser sugado por ela, claro.

 

Tatiana voltava com mais uma bacia com água, para manter úmidos os lenços que punha na testa de Vó Nena. A febre da anciã havia voltado, mas logo que a vidente colocou o vasilhame sobre a mesinha ao lado da cama, sentiu tontura e precisou se segurar para não cair.

— Que foi, filha? – perguntou a anciã com voz fraca.

Tatiana estava trêmula, e precisou fazer um esforço enorme para se manter de pé. Conseguiu sentar-se na cama, e olhou com expressão lívida para Nena. Disse:

— Os meninos estão em perigo!

 

Daniel finalmente encontrou os peões, e ignorando por um momento a morena sorridente que parecia se divertir com a briga dos dois, correu para separá-los.

— Vocês parem com isso, idiotas! – berrou com toda a autoridade que conseguiu.

Severino o encarou com ódio, mas Mané agarrou Daniel pela jaqueta e o jogou para o lado. Os dois peões voltaram a brigar. Daniel caiu, depois se apoiou em um dos joelhos e observou a cena.

Lembrou-se nesse momento de Ariele. Olhou para a direção de onde havia vindo, e a fada estava apoiada em um dormente da cerca, parecendo sentir fraqueza.

— É isso mesmo, caçador? Trouxe uma fada para tentar me enfrentar?

Daniel virou o rosto, e Sheila surgiu diante dele. Assim, bem próxima, ele observou toda sua beleza e sensualidade. Sacudiu a cabeça, mas a voz da súcubo tornou a embalá-lo, enquanto os dois peões continuavam a brigar.

— Sim, Daniel, sei tudo sobre você e seu irmão. E sobre essa aí, que já havia percebido fazia tempo! Muito nova, e incapaz de resistir a mim.

Severino deu um golpe, e Mané foi lançado próximo de Sheila. O peão ficou aos pés dela, ergueu-se, e deu com o olhar da súcubo sobre ele. Sheila estendeu a mão, acariciou seu rosto, depois o puxou para junto de si, beijando-o. Daniel observou um brilho azulado passar do peão para a súcubo, antes que esta segurasse sua cabeça e com um rápido movimento quebrasse seu pescoço.

O brilho se intensificou, e o fluxo azul foi todo para a boca da demônio. Mané caiu morto ao chão.

— Uhn, delícia!

Severino olhava a cena, mas não havia qualquer medo em seu olhar. Dominado pela paralisia que sentia, Daniel estava impotente quando Sheila se aproximou do outro peão, acariciando-o.

— Doce Severino, você foi tão bom para mim! Quero mais desse seu fogo, vá lá e ganhe o rodeio! Depois volte para mim, quero você todinho!

Severino olhou embevecido para a morena, a beijou, e o brilho azulado passou da boca da súcubo para a dele. O peão, depois de mais beijos e abraços, saiu correndo pois os competidores da final estavam sendo chamados.

Sheila se virou para Daniel, que continuava desesperadamente lutando contra a paralisia.

— Está vendo, caçador? Suas esperanças não têm como durar. Como podem esperar nos vencer? Acham mesmo que podem impedir a escuridão?

Daniel arregalou os olhos, enquanto a súcubo acariciava seu rosto.

— A escuridão vai chegar, e quem vai ajudar vocês humanos? – perguntou ela.

Um rápido movimento, e a súcubo foi lançada longe. Ela bateu em uma grossa tora de madeira fincada no chão, partindo-a em duas. Daniel, liberto do encanto da demônio, levantou-se, olhou para o lado e viu Ariele.

— Nós, seres da terra, vamos ajudar, vagabunda!

O caçador mal conseguiu ver Sheila se aproximar, tão rápido que ela mais parecia um borrão, e atingir a fada fazendo-a bater contra a parede de um galpão próximo. O impacto abriu um rombo nele, mas lá de dentro saiu um potente raio que atingiu a súcubo, lançando-a no ar, girando descontrolada até cair e abrir uma vala no chão de terra batida a metros de distância.

Ariele saiu do galpão mancando, com a varinha na mão, delicadas asas vibrando em suas costas e expressão dura no rosto. Daniel se virou, e em meio a poeira viu a súcubo se levantando. Irradiava um brilho vermelho como fogo, e suas roupas ficaram em frangalhos. Sua pele rachou e quebrou, grandes pedaços que caíam ao chão e queimavam até sumir. Seus olhos ficaram amarelos, e ela disse:

— Vou matar vocês, hoje vão conhecer o verdadeiro inferno!

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 13h53
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Continuação:

A súcubo abriu a boca, e um jato de chamas quase atingiu Daniel. Ele rolou pra o lado, já com uma pistola em punho, e disparou várias vezes contra a demônio.

A súcubo olhou para o próprio corpo, nos buracos feitos pelas balas de prata e que em poucos segundos se fecharam. Depois olhou para Daniel com um sorriso grotesco, antes de ser atingida por um tiro bem na testa. Ela ficou imóvel por um instante antes de cair de costas.

O caçador e a fada se aproximaram cautelosamente. Daniel mantinha a arma apontada, olhando o corpo ainda escultural da súcubo, agora nu e coberto por uma pele vermelha onde se viam marcas e linhas em preto e amarelo, delineadas por vários tons de vermelho. Ariele olhou por um momento, depois bateu as asas mais forte e flutuou para longe.

Nesse momento a súcubo abriu os olhos, chutando a arma na mão de Daniel e agarrando sua perna. Com um rápido giro lançou o caçador longe, atingindo Ariele. Os dois caíram ao chão, enquanto a demônio ficava em pé.

— Estou começando a me entediar, isso é tudo que têm?

Daniel olhou para ela, observando uma sombra se aproximando rapidamente por trás da súcubo. Em um rápido movimento, a cabeça do monstro foi separada do pescoço e caiu ao chão. O corpo se manteve poucos instantes antes de desabar também.

Os olhos da cabeça cortada ainda piscavam em desespero, enquanto Samuel brandia uma comprida faca para que todos vissem.

— A peixeira que decapitou Lampião, o Rei do Cangaço. Nunca falha!

Os olhos na cabeça da súcubo ficaram vidrados, e seu corpo parou com os espasmos. Ambas as partes finalmente pegaram fogo e queimaram em instantes, não deixando o menor rastro.

Samuel se aproximou, e ajudou o irmão a se levantar. Ariele se pôs de pé, escondendo as asas.

— Outros humanos estão vindo – ela disse.

— Já encerramos por aqui – comentou Samuel. – Melhor irmos.

Os três se afastaram em passos rápidos, mas Daniel teve tempo de dar um soco no braço do irmão:

— Cacete, onde você estava!

Samuel riu, e respondeu:

— Fiquei olhando a luta de vocês, tentando decidir o melhor momento de atacar. Eu que não queria apanhar daquela coisa.

Daniel sentia-se todo dolorido, mas estava decidido a não dar mais motivos de piadas para Samuel. Tentando não mancar, no que não estava sendo bem sucedido, acompanhou o passo do irmão e da fada. Ouviram os gritos e comentários de pessoas, certamente diante do corpo de Mané, mas nesse caso não havia nada que pudessem fazer.

 

Severino acabou sendo a grande decepção da Festa do Peão. Já montado no cavalo para sua apresentação na grande final, de acordo com as descrições dos auxiliares exibiu subitamente a expressão de quem não sabia o que estava fazendo ali. A porteira se abriu, e em menos de três segundos o peão anteriormente revelação estava no chão.

— E é assim que acaba – comentou Daniel. – A influência da súcubo sobre ele sumiu, e toda a energia também.

— No fim, pode até se considerar um sortudo – acrescentou Samuel. – Viveu para montar outro dia.

— Vocês humanos são estranhos.

Ariele estava ainda mais radiante do que antes, comprovando que a influência da súcubo havia afetado até a ela. Alguns frequentadores da festa olhavam com desejo para a loira, mas a presença dos dois irmãos os mantinham longe.

— E agora? – perguntou Daniel.

— Vou voltar para junto de minhas irmãs, e contar o que vi aqui. Sei que vocês e outros seres naturais deste país nos consideram invasoras, mas também somos espíritos desta terra, e sentimos a influência nefasta que se aproxima.

Daniel e Samuel se encararam. O irmão mais novo nunca gostara de estar na presença de seres encantados, e se afastou. Entretanto, antes disso fez um pequeno sinal para a fada com a cabeça.

— Seu irmão não gosta de mim, mas o que foi isso que fez com a cabeça?

Daniel riu, olhou para Ariele e disse:

— Ele não gosta de nenhum ser que não seja humano. Mas não se preocupe, foi um sinal de cumprimento. Ele deve ter gostado de saber que você me ajudou.

A fada encarou diretamente o caçador. Os olhos dela eram do azul mais profundo e cintilante que se poderia imaginar, e Daniel ficou pensando que seria fácil se apaixonar por ela. Mas naquele momento ele só queria abraçar Tatiana.

— E eu também preciso agradecer. Se não fosse você, aquela súcubo poderia ter acabado comigo – comentou Daniel ao chegarem a um local discreto. Estendeu a mão, que a fada tomou em um cumprimento.

— Vocês devem tomar cuidado – disse Ariele. – A súcubo estava certa. Um tempo de trevas se aproxima, e vocês vão precisar de toda a ajuda possível.

A fada abaixou a cabeça, depois voltou a olhar para ele por um instante. Estendeu suas asas quase transparentes, elevou-se no ar, e de repente se tornou um ponto de luz, que revoou pela área antes de desaparecer.

Samuel já aguardava junto ao Fusca.

— Como é? – perguntou Daniel em tom divertido. – Você do lado do Fusca da Vó Nena?

— Para quem encarou, na mesma tarde, uma fada e uma súcubo, esse Poizé aqui é fichinha.

O carro ligou sozinho, fazendo Samuel estremecer de leve. Mas o irmão mais novo da dupla se conteve, e entrou no carro depois que Daniel abriu a porta do passageiro.

— Já contei tudo para elas. Vó Nena teve febre agora no final da tarde, mas já está melhor de acordo com a Tati. Sua namorada teve uma visão, aliás, e está preocupada.

— Vou ligar assim que sairmos deste estacionamento – comentou Daniel.

Depois de esperar um carro manobrar e entrar em uma vaga próxima, eles saíram com o Fusca. Já havia uma picape com quase dez pessoas na caçamba esperando para estacionar na vaga da qual saíram. Dois jovens foram os primeiros a descer da caminhonete, e um deles apontou para o carro dos irmãos antes de socar o braço do outro. O restante do grupo deu risada, e alguns repetiram a brincadeira, enquanto o Fusca se afastava.

Vó Nena e os Caçadores retornarão.

Espero que tenham gostado da segunda história de Vó Nena e os Caçadores! Lembrando que o primeiro conto com eles já foi publicado aqui no Escritor com R, podem conferir a Parte 1 clicando aqui, e a Parte 2 aqui.

Esse link abaixo, Seu Comentário é Importante, é importante mesmo! Portanto gostaria que o usassem para uma pequena enquete, vocês leriam uma história de Vó Nena e os Caçadores com os palavrões por extenso? E sim, em breve teremos o primeiro ebook deles.

Já que estamos nos ebooks, aproveitem e confiram nos links minhas obras já publicadas, pois lembrem que é permitido alimentar os autores nacionais:

De Roswell a Varginha

Filhas das Estrelas

O Império, o Meteoro e a Guerra dos Mundos

Retrofuturismo - um compêndio do Comendador Romeu Martins sobre as variantes do punk e suas associações inimagináveis

A Lista: Fenda na Realidade


 

A Lista: Nêmesis

Além disso, não deixem de visitar o Corujice Literária!

Então, convido os leitores a continuar acompanhando o Escritor com R, em breve mais posts, contos e muito mais.

Até a próxima!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 13h53
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UM LONGO SEMESTRE, LANÇAMENTOS E NOVIDADES

Olá, caros leitores. Finalmente pude escrever-lhes, pois os tempos não têm sido fáceis. Foi um longo semestre, cheio de idas e vindas, reviravoltas, surpresas, incidentes, e os planos de retornar a postagens mais frequentes no blog foram sendo deixados de lado.

Mas finalmente consegui aprontar algo que vale a pena postar aqui. O primeiro assunto é meu primeiro lançamento pela Amazon, novamente pela série A Lista. A Lista: Fenda na Realidade, foi pensado a princípio para uma antologia, mas aquelas idas e vindas mencionada acima, mais coisas menores que não vêm ao caso, me levaram à decisão pela publicação independente. O ebook tem tido uma boa trajetória, frequentemente entre os mais vendidos do subgênero da Space Opera, então convido vocês a conhecê-lo:

Chegando a Alpha Centauri, na primeira expedição interestelar da humanidade, a nave Icarus se depara com um estranho fenômeno, com potencial de destruir não somente sua realidade mas várias outras. De outro universo, um brilhante astrofísico e matemático observa o mesmo rasgo na realidade. Poderão eles trabalhar juntos e salvar o Multiverso?

Dedicado à memória de Carl Sagan e Neil Armstrong.

O link 1 (clique aqui) é na Amazon brasileira.

E o link 2 (clique aqui) é na internacional.

Recentemente publiquei mais uma história, A Lista: Nêmesis, para participar do concurso Brasil em Prosa da Amazon:

Os sobreviventes de uma expedição condenada chegam a um novo mundo, onde fazem uma extraordinária descoberta.



Quer conferir (ainda gratuitamente pelos próximos dias), clique aqui.

Além disso, estamos com uma parceria com o blog Corujice Literária, e a já tradicional colaboração com o site Aumanack.

Saiu recentemente o fanzine Conexão Literatura número 02, com destaque de capa para Edgar Allan Poe, e um artigo meu sobre Literatura & Alienígenas.

Quanto ao mais, planos estão sendo feitos, outros retomados. Aqui no Escritor com R haverá certamente novos textos em breve, contos da Lista, contos de Vó Nena e os Caçadores (gostaram da história de estreia, que pode ser conferida abaixo?), e outras novidades na medida do possível.

Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 20h12
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - NECULAI E A ESCURIDÃO

Vó Nena e os Caçadores - Neculai e a Escuridão

O potente motor V-8 roncava alto, enquanto o Dodge Charger R/T percorria em alta velocidade a estrada do interior.
- Droga, droga, droga! – não parava de repetir Daniel. Era o mais velho, e deveria ter protegido o irmão. Samuel, o caçula da dupla, sempre fora o mais impulsivo.
Daniel olhou no retrovisor por um momento, enquanto fazia o Dodge atingir quase 200 km/h na estreita estrada.
- Está muito ruim? – perguntou com voz aflita.
Samuel estava com um corte na face esquerda, e segurava o braço direito quebrado com a outra mão.
- Eu aguento... acelera essa p.!
Daniel se concentrou na estrada, desviando de carros mais lentos em manobras que rendiam longas buzinadas, e ele imaginava, vários sinais desagradáveis feitos com o dedo médio.
- Nunca xingue meu carro!
Sorriu de leve. Se Samuel estava xingando, era sinal de que estava bem.
- O que você estava pensando, Samuel? Enfrentar Neculai como se fosse um desses vampiros porra-louca de hoje? Teve sorte dele não arrancar sua cabeça!
- Acha mesmo, mano, que não estou aqui desesperado? Ele pegou meu celular e o primeiro contato é a Vó Nena! Acelera isso!
- Estou acelerando, caramba! E você sabe muito bem que o segundo contato é a Tatiana... E como ainda tem gente que é fã desse monstro? Aquele débil mental do programa na Internet que ele trucidou... o que acontece com esse mundo?
- Vó Nena tem falado muito na escuridão se aproximando – disse Samuel entre duas tossidas. – Vai ver essa onda de retardamento mental aborrecente seja um sintoma.
Daniel sorriu de novo. Seu irmão ia viver, se estava transbordando sarcasmo daquele jeito. Porém, o desespero deles aumentava. Conseguiriam chegar a tempo?

Tatiana ouviu o celular tocar. Olhou ao redor, para o aposento tomado por símbolos de magia e ritualísticos, e encarou os olhos profundos e experimentes da figura frágil à sua frente. Agachou-se e colocou o celular no centro do círculo, apertou a região adequada da tela, e suspirou fundo.
- Alô – disse, tentando parecer tranquila.
- Alô, Tati! Foi um horror! Esse vampiro Neculai é forte demais, não conseguimos detê-lo! E agora ele tem o seu número e o da Vó Nena...
- Cala a boca, seu monstro filho de uma p. – disse uma voz vigorosa. – Pare de querer imitar meu neto Samuel e apareça!
A voz que emergiu a seguir do celular no chão poderia ser descrita de muitas formas, mas definitivamente não era humana.
- Cuidado com o deseja, Vó Nena...

Neculai surgiu no instante seguinte.
- Estou com fome! Ah, Tatiana, posso ver porque Daniel ficou tão preocupado, você é tão linda... Ele vai sentir fortes emoções ao te ver, depois que eu terminar...
O vampiro estendeu a mão na direção da vidente morena, porém um crepitar o obrigou a recolhê-la. Segurou a mão, que ficou avermelhada. Olhou para o chão, e observou o pentagrama artisticamente desenhado no revestimento, e o círculo de sal grosso e alho, com pouco mais de um metro, onde estava confinado.
Neculai ergueu o rosto, exibindo os dentes afiadíssimos em um sorriso macabro, e apanhou o celular do chão enquanto olhava para as duas.
- Então, vocês são versadas nas artes ocultas, não é mesmo? Não que vá ajudá-las muito.
Tatiana não conseguia parar de olhar para o rosto monstruoso. Neculai a observava com volúpia, mas desviou o olhar para a figura miúda do outro lado.
- Vó Nena! Já ouvi falar muito na senhora! Estou de fato honrado em conhecê-la! Vou até contar algo que poucos humanos sabem, os monstros também às vezes se entretêm com histórias horripilantes, e saiba que a senhora é personagem de muitas delas!
- Bom, eu fiz por merecer, seu filho de uma p.!
- Ah, e a linguagem chula das histórias também é verdade – deliciou-se Neculai. – Este momento é tão excitante que quase me fez esquecer minha fome.
- Vó – disse Tatiana, cada vez mais insegura. – Então este é Neculai?
- Sim, filha. Um dos Antigos! – disse Nena do alto de sua sabedoria. – Eles, de linhagens mais puras, têm esses poderes bem maiores que os outros sanguessugas que já conhecemos. Talvez esse bicho feio aqui seja mesmo uma das primeiras pestes trazidas prá nossa terra, pela maior calamidade de todas!
- Sim, Tati, querida, sou diferente dos demais! – zombou Neculai. – Não sou desses personagens de romances, especialmente as fadinhas purpurinadas daquela autora. E entretanto, saiba que existe um entendimento tácito entre nós, vampiros, de não atacar esses escritores. Claro, pois nos beneficiam muito com suas histórias! Estamos nos tornando heróis graças a eles!

Tatiana sorriu de leve, encarou o vampiro e respondeu:
- Pois as fadas de verdade que conheço ficam muito ofendidas com essa comparação.
Neculai sorriu mais ainda, parecendo se divertir com a situação. Depois girou o corpo, olhando para Nena.
– E suas palavras a traem, velha! Tenho que admitir que conseguiram me surpreender com sua estratégia mágica, o pentagrama e o feitiço. Mas começo a perceber que não sou eu mesmo, realmente, o alvo de sua caçada, certo?
Tatiana olhou para Nena com expressão preocupada. A anciã lançou-lhe um olhar  de alerta, mas em seguida Neculai virou-se para Tatiana.
- Tão linda... e com tanto medo! Crescendo, tomando conta de sua mente, como um fogo dentro de você, consumindo-a... está sentindo, Tati? Sinto o cheiro de seu sangue, temperado pelo desespero!
Tatiana olhou para Neculai, e finalmente viu. Séculos de morte, chacina e violência, vítimas incontáveis, tudo sob um véu vermelho da cor do sangue. A visão vinha em ondas cada vez maiores, pois o próprio Neculai permitia que visse.
- Ah, Tatiana, sim... sim! Entregue-se ao desespero! Entregue-se a mim!

O vampiro deu um salto, e conseguiu sair do círculo de proteção. Somente suas roupas arderam em pequenos pontos, que ele apagou simplesmente batendo com as mãos. Tatiana e Nena deram-se as mãos, encolhendo-se em um canto. A anciã se apoiava na bengala.
- Então, qual das duas vai ser primeiro? – perguntou Neculai. – Ah, mas claro, já que me proporcionaram tanta diversão, além de uma farta refeição, vou dizer o que querem saber.
Neculai aproximou-se vagarosamente, ficando a três passos delas. Nena segurava firme a mão de Tatiana, que estava trêmula e ameaçava ceder em definitivo ao desespero.
- Sim! – disse o vampiro. – Pude ver os pensamentos da vidente, e ela está correta. A escuridão está chegando! Na verdade é um tanto incorreto, desculpem... A escuridão sempre esteve aqui, nesta terra tão agradável a nós, vampiros, onde se mata por quase nada, onde humanos exploram, segregam e enganam humanos, encontrando as mais magníficas e torpes justificativas para seus atos. Sim, para nós, o melhor do Brasil é mesmo o brasileiro! E o mais saboroso também...
O vampiro virou a cabeça, parecendo olhar para outros lugares, outros tempos. Em seguida tornou a focar toda sua atenção nelas.
- A escuridão está chegando, e não há nada que possam fazer. Ele nunca será detido! Sempre haverá alguém ansioso para desfrutar das vantagens que ele oferece, como era mesmo aquela propaganda? “Levar vantagem em tudo”, quem acha que a inspirou? Ah, por causa dele o Brasil é esse jardim das delícias. E falando em delícias...
Neculai avançou. Nena deu um passo e ficou entre ele e Tatiana, e ergueu sua bengala como se fosse uma espada.
- Sério, velha? – perguntou Neculai parando a um passo delas. – Vai me acertar com a bengala, é isso?

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 17h31
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - NECULAI E A ESCURIDÃO

Continuação...

Vó Nena segurou firme sua bengala, mantendo Tatiana encolhida atrás de si. Neculai abriu um largo sorriso, mostrando as aterradoras presas, no momento em que a anciã desferiu o golpe.
Neculai aterrissou no outro lado do cômodo, derrubando uma mesa com livros e utensílios. O vampiro, surpreso por ter ficado grogue com o golpe, levantou-se devagar.
- Como...?
- Pau Brasil, seu filho de uma grande p.! – disse Vó Nena brandindo a bengala. – Desde o começo, muito bom para machucar vocês, demônios!
Neculai se apoiou em uma cadeira e levantou, andando de lado sem tirar os olhos do rosto de Nena.
- Acha mesmo que conseguirá vencer, velha? Não eu, mas todos os monstros e demônios à solta?
- Sei que vou, seu canalha! – disse Vó Nena, sempre com a bengala em riste.
Neculai soltou uma pavorosa gargalhada.
- Já se esqueceu em que país está, Nena? Até eu ganhei um fã clube! Aqui os políticos, aliás a classe que mais se aproveita da presença dele, de seu principal alvo, roubam sem parar e o povo torna a elegê-los! Sempre haverá egos inflados, ganância e sede de poder, e sempre haverá monstros como eu para tirar proveito!
Foi a vez de Vó Nena rir.
- Todos esses séculos, Neculai, e você ainda não aprendeu o principal. Em meio a escuridão, mesmo a menor fagulha espanta as trevas!
Nena se aproximou erguendo a bengala, e revelando uma estaca na outra mão. Porém Neculai foi mais ligeiro, deslizou para o celular que ainda estava no círculo, e ignorando a dor das queimaduras devido à energia mágica, apertou um comando. Desapareceu no mesmo instante, mas sua voz ainda pôde ser ouvida.
- Vamos ver se seus contatos, Nena, irão gostar de minha visita!

Um potente barulho de motor, seguido pelo guincho de uma forte freada, vieram lá de fora. No instante seguinte Daniel e Samuel entraram correndo.
- Cadê o maldito? – perguntou Daniel apontando a espingarda municiada com balas de prata.
Nena sentou-se em uma cadeira. Estava cansada, apoiou as mãos na bengala e disse
- Calma, meus netos, ele foi embora. Samuel, venha cá e deixe sua avó ver esse braço.
Tatiana, refeita dos momentos de terror, correu e abraçou Daniel. Trocaram um longo beijo. Samuel por sua vez obedeceu e se aproximou. Nena examinou o ferimento e disse:
- É, mágica não vai resolver isso. Daniel, deixa esses agarramentos prá depois e leva seu irmão pro hospital.
- Vó, o que rolou aqui? – perguntou Samuel. – Vocês tão vivas, não dá prá acreditar! Aquele vampiro filho da p...
Samuel tomou um dolorido peteleco da avó, que disse:
- Olha a linguagem, moleque!
- P., Vó, doeu!
Outro cascudo, ainda mais doído. Daniel e Tatiana, ainda abraçados, pararam de se beijar para apreciar a cena, que sempre se repetia.
- P. é o c., moleque! – gritou Vó Nena. – Tô te educando! Agora entra naquela banheira que seu irmão chama de carro, e vá pro hospital tratar desse braço!
Tatiana ajudou a levar Samuel até o Dodge, e o mais novo dos irmãos ainda reclamava, massageando o cocuruto.
- Caramba, como ela é quase um metro mais baixa que eu, e consegue me bater assim?
- Anos de prática – riu Daniel.
Os dois irmãos entraram no Dodge, que logo sumiu na noite. Tatiana entrou, bem a tempo de acompanhar Vó Nena atendendo ao celular.
- Vó, tem certeza que é seguro?
- Minha filha, aquele ordinário daquele vampiro que nem pense em voltar aqui. – apanhou o celular e apertou o comando de atender – Alô.

Pelo aparelho puderam acompanhar gritos, e a mesma voz inumana de antes.
- Nena, Nena... muito esperto de sua parte! Só havia um contato no celular, e quem diria? Era de seu maior inimigo nesta cidade! Apareci bem no meio de um culto, a confusão como pode imaginar foi enorme, e devo dizer que os dois seguranças dele e uma das fiéis estavam deliciosos.
- Mandou ele pro culto do vereador Ramalho? – perguntou Tatiana.
Nena olhou divertida para a moça, sem responder. Neculai, por seu lado, disse:
- Mas acho engraçado, velha, dizer que luta pelo lado da luz, e mandar um monstro como eu para cá. Os dois homens e a mulher que matei deveriam ter família, e provavelmente só estavam fazendo seu trabalho, e ela certamente queria algum alívio das agruras de sua vida.
Elas sentiram a voz do vampiro muito mais próxima, quando ele sussurrou:
- Não acha que isso contará contra você, quando chegar sua hora de prestar contas lá em cima?
- Neculai, tudo é questão de equilíbrio – disse Nena. – E nesse quesito, maldito, pode apostar que fiz muito mais bem do que mal. Vocês acham que vão vencer, mas os Caçadores e os seres da terra, os Encantados, vão acabar com vocês e com essa guerra.
- Veremos, Nena, veremos. Até lá, não desgrude de seu celular!
E com essa frase Neculai desligou. Vó Nena descansou o celular na mesa, voltou a apoiar as mãos na bengala de Pau Brasil, e ficou em silêncio meditando.

- Vó... desculpe...
Tatiana puxou outra cadeira e sentou-se diante de Nena. A anciã segurou a mão da vidente, olhando-a com ternura, e perguntou:
- Desculpar por que, filha?
Tatiana baixou a cabeça. Nena estendeu a mão e ergueu seu queixo.
- Não fui forte o bastante – disse por fim Tatiana. – Ele iria demorar mais para sair do círculo, se eu não tivesse fraquejado.
- Besteira, menina! – disse Nena. – Você e os meninos nunca tinham enfrentado um dos Antigos antes, e estão vivos depois de tanto medo e sofrimento. E isso já quer dizer que venceram. Da próxima vez, estarão preparados!
Nena observou Tatiana, enquanto acariciava seus longos cabelos escuros. Depois uma sombra desceu sobre seu olhar, e ela disse:
- Filha, você viu as vítimas de Neculai, eu sei. Mas tenho que perguntar, e o que mais?
A expressão de Tatiana se tornou sombria, e parte de sua mente se esforçou para afastar o inominável pavor que ameaçava tomá-la. Nena, observando-a atentamente, ficou com pena da moça. Finalmente a vidente disse:
- Vi o que o vampiro comentou. Todos tentando levar vantagem. Brigas de ego, as pessoas querendo impor suas vontades ou opiniões umas sobre as outras, ganância, ódio, intolerância, perseguição... conflito, violência. E a escuridão cobrindo tudo e todos.
Tatiana suspirou. Voltou a baixar a cabeça, mas logo a ergueu de novo, encarando a anciã.
- Vó, e quem era ele, de quem vocês falaram?

Vó Nena olhou para Tatiana, mais séria do que a moça jamais havia visto. Ergueu-se, caminhando amparada pela bengala. A moça se levantou e a seguiu, e seguiram juntas até o quintal da casa. O céu estava estrelado, como somente no interior se pode ver, e se viam no extenso gramado as três árvores de Pau Brasil, plantadas havia décadas pelos pais de Nena. Além deles, a cerca de madeira que delimitava a propriedade, e a primeira das casas vizinhas.
Vó Nena olhou para aquele bucólico panorama por alguns momentos, depois se voltou para Tatiana. Ainda manteve um longo silêncio antes de responder:
- Uma coisa que antes de hoje achava que era só lenda, filha. Uma coisa para a qual todos vamos ter que nos preparar. E muito.

Neculai criado por Adriano Siqueira

Vó Nena e os Caçadores criados por Renato A. Azevedo

Vó Nena e os Caçadores retornarão


Espero que tenham apreciado este primeiro conto de 2015, caros leitores! Devo dizer que sempre fui, e sempre me apresento, como um escritor de Ficção Científica, mas por que não experimentar com outros gêneros, saindo de sua zona de conforto? Os mundos mágicos da Fantasia apresentam tantas possibilidades, que afinal tenho elaborado algumas histórias com novos personagens, dos quais os principais são Vó Nena e os Caçadores. Nós os encontraremos muitas vezes ainda, podem ter certeza!

Quero agradecer ao amigo e colega Adriano Siqueira, que permitiu que eu utilizasse sua mais recente criação, o vampiro Neculai, nesta história (a imagem logo acima, aliás, tem também seu crédito). Não deixem de participar do grupo Neculai, Sangue e Desespero no Facebook, e de conferir o estupendo site Contos de Vampiro e Terror! Se houvessem mais pessoas como o Adriano na Literatura Fantástica Brasileira, estaríamos em muito melhor situação com certeza!

Aos que desejarem conferir meu livro De Roswell a Varginha, escrevam para o e-mail ao final deste post. E gostaria de convidá-los para ler meu segundo livro, Filhas das Estrelas, em versão digital. E também estou no Somnium 110, editado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica, na antologia Adeus Planeta Terra, e na antologia Monstros da Editora Buriti, organizada pela amiga Georgette Silen.

Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 17h30
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O MUNDO MAIS ANTIGO DO UNIVERSO

Já fazia tempos que queria escrever aqui a respeito de uma das mais espantosas descobertas do ano. Em junho foram confirmados dois planetas orbitando a Estrela de Kapteyn, a somente 13 anos-luz de distância de nós. Um deles, Kapteyn b, se situa precisamente na região habitável da estrela, com um ano ou período de somente 48 dias terrestres. Tão perto de seu sol e ainda habitável, pois a Estrela de Kapteyn, descoberta por Jacobus Kapteyn em 1897, é uma anã vermelha.

Mas o mais extraordinário é que esse sistema é antiquíssimo, pois a Estrela de Kapteyn tem idade estimada de 11,5 bilhões de anos.

Pense a respeito! Esse planeta, Kapteyn b, ocupa a região habitável de sua estrela desde muito antes da formação de nosso Sistema Solar, há 4,6 bilhões de anos. Há realmente a possibilidade de a vida ter tido um tempo inacreditavelmente longo para se desenvolver nesse mundo, e as possibilidades são absolutamente espantosas. Com tempo suficiente, quem sabe até mesmo seres complexos e inteligentes tenham tido tempo de evoluir, de novo, antes mesmo do surgimento do Sol e da Terra! E isso a meros 13 anos-luz daqui, tão perto, em termos cósmicos, quanto ali na esquina.

Recomendo fortemente que os leitores visitem alguns ótimos links a respeito:

Link 1

Link 2

Link 3 (e não é ótimo somente porque fui eu o autor, certo?)

Link 4 em inglês

Link 5 em inglês e com um vídeo.

E sugiro ainda que acompanhem esses dois sites:

Enciclopédia dos Planetas Extrassolares

Catálogo de Exoplanetas Habitáveis.

Finalmente, um dos elementos mais sensacionais a respeito da descoberta de Kapteyn b foi o pedido da equipe responsável para que o o astrônomo e escritor de ficção científica Alastair Reynolds escrevesse sobre esse histórico achado. E Reynolds elaborou uma das melhores histórias que já li nos últimos tempos, intitulada Sad Kapteyn, e que pode ser lida no original em inglês neste link.

Quando me foi solicitado que escrevesse um artigo sobre exoplanetas para a revista UFO (mais informações lá embaixo), acrescentei um box com esse conto traduzido para o português. Infelizmente ele ficou de fora do processo de edição, mas agora apresento abaixo a tradução para vocês, espero que gostem!

Civilização encontrada em Kapteyn b

Este conto tem o título original Sad Kapteyn, e foi escrito por Alastair Reynolds. O original pode ser lido em Ph.qmul.ac.uk/sad-kapteyn. Tradução por Renato A. Azevedo.

Olá, Terra. Sou eu de novo.

Espero que estejam recebendo meu sinal alto e claro.

Vocês ficarão felizes em ouvir que me aqueci novamente após os longos séculos da fase de cruzeiro interestelar. Realizei um completo diagnóstico, e posso confirmar que todos os meus sistemas estão funcionando normalmente. Melhor que isso, na verdade. Ainda que pareça ostentação, estou na verdade em grande forma. Propulsão, núcleo do computador da Inteligência Artificial, sensores de longo alcance e instrumentação, navegação e arranjos de comunicações, eu não poderia estar em melhores condições.

Nada mau para uma peça de hardware espacial que já visitou seis sistemas solares, sem jamais ter retornado para o planeta de origem. Claro, não posso tomar o crédito para mim. Somente fui bem manufaturada, construída para durar milhares de anos.

De tudo, obrigado por me criarem.

Vamos aos negócios portanto, e eu mal consigo começar a contar a vocês o que descobri, aqui na Estrela de Kapteyn! Este realmente é um extraordinário lugar, um sistema solar como nenhum outro que já visitei. Queria que pudessem estar aqui comigo, ver essas coisas através de meus olhos.

Realizei uma checagem em meus arquivos e entendo porque vocês me enviaram à Estrela de Kapteyn. Ao contrário de outros sistemas que visitei, este sol e sua pequena família de planetas não são parte do grupo normal de estrelas orbitando no disco e no bojo da galáxia. Esta estrela é natural do halo galáctico, membro de uma população dispersa de estrelas e aglomerados estelares, que circundam a Via Láctea em uma grande e tênue esfera. É inteiramente possível que essas estrelas não fossem originalmente parte de nossa galáxia, mas vieram de uma outra após uma colisão gravitacional. E algumas dessas estrelas são incrivelmente antigas, mais velhas e veneráveis, talvez, que qualquer estrela residente no disco galáctico.

A Estrela de Kapteyn realiza suas reações nucleares de forma tão lenta e estável que mesmo meus instrumentos não conseguem apontar um limite superior para sua idade. Pode ser quase tão velha quanto o Universo.

E seus planetas?

Quase tão antigos também.

Façam com essas informações o que quiserem, mas sinto a idade deste sistema em meus ossos. Claro, queria dizer na verdade meu chassi. Não tenho ossos, sei disso. Mas acreditem em mim, este sistema realmente parece perdido no tempo. O silêncio e placidez são quase insuportáveis. Nada aconteceu por aqui por giros inteiros de toda a galáxia, e nada irá acontecer. A Estrela de Kapteyn continua a brilhar fracamente, ao longo de sua inacreditavelmente extensa vida. Os mundos mortos percorrem suas órbitas mortas.

Mas uma vez, havia alguma coisa.

Eu sei, estou tomando liberdades. Eu deveria ter enviado meu sinal de início de operações antes de realizar qualquer investigação. Mas não consegui resistir. Vocês me construíram muito curiosa.

Encontrei sinais de uma civilização.

O primeiro planeta, Kapteyn b, ainda circula na região habitável da estrela, orbitando uma vez a cada quarenta e oito dias. Agora não existe nada vivo lá, nem sequer uma atmosfera, mas certa vez havia uma cultura tecnológica.

Sim, a primeira que encontramos. A razão primeira pela qual fui construída.

O que acham desta descoberta?

O fato é, não foi difícil detectá-la. Cidades cobrem quase toda a superfície desse mundo. Estruturas enormes, que deveriam ter atingido o espaço! Discos e torres e os remanescentes do que acredito terem sido elevadores espaciais, subindo da superfície até órbitas geossincrônicas. Uma lua, sua superfície coberta pelo mesmo tipo de arquitetura. Evidência de colonização no segundo planeta, Kapteyn c, mesmo em sua órbita muito mais fria.

Maravilhas sem comparação, mas desgastadas em um tipo de uniformidade cinza como túmulos, depois de éons de micrometeoritos e bombardeios de raios cósmicos. Cidades mudas como esfinges.

E nem o menor sinal de vida em lugar nenhum.

Kapteyn b tem crateras do tamanho de continentes, e fico pensando se são sinais de alguma catástrofe realmente colossal. Um acidente cósmico, ou coisa pior? Qualquer que seja o caso, os construtores destas cidades se foram há muito tempo. Talvez estejam mortos desde antes que a Estrela de Kapteyn fosse removida de sua galáxia original.

Diante do risco de especular tanto diante de tão poucas informações, não posso evitar elaborar algumas teorias. Eu também fui o produto de uma civilização tecnológica, com a capacidade de transformar um planeta, colonizar outras luas e mundos, construir arrojadas estruturas. O povo de Kapteyn b era claramente mais avançado que vocês, meus próprios construtores, mas com tempo suficiente, vocês também poderiam transformar um mundo dessa maneira.

Algo para se pensar a respeito, não é mesmo?

Bem, estou encerrando esta transmissão. Irei realizar algumas explorações neste sistema, e talvez lançar alguns pacotes de instrumentos na superfície de Kapteyn b. Haverá algum perigo, pois precisarei ficar em uma órbita baixa, e quem sabe o que pode acontecer? Ainda assim, é um risco que estou preparada para assumir. Vocês me fizeram assim, e estou grata por tudo que pude ver e fazer.

Mas vejam.

Sei que é coisa pouca, e eu não queria incomodá-los com isso. Mas já faz bastante tempo desde que recebi a última mensagem de vocês. Coloco muito esforço nessas transmissões, e seria muito bom, mesmo que apenas uma vez, saber se há alguém em casa ouvindo-as.

Apenas isso, me respondam se ainda se importam, se ainda estão aí?


Gostaram? Enfim, se quiserem conferir a UFO 217, basta clicar neste link, ou visitar sua banca de preferência. A capa ficou bonita, hein?

Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 11h23
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