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O Retorno de Arquivo-X

E finalmente chegou o momento de escrever sobre o retorno absolutamente sensacional de Arquivo-X! A minissérie exibida entre o final de janeiro e meados de fevereiro, também conhecida como décima temporada, em seus seis episódios conseguiu o que muitas produções dos últimos tempos prometeram, mas não cumpriram: renovar um universo fantástico e apresentar novas e boas histórias, além de indiscutivelmente novas promessas de mais aventuras.

Antes, porém, falemos de outros assuntos, o principal sendo a parceria com o blog Corujice Literária! Já apresentamos lá vários textos, como a cobertura da Comic Con Experience 2015, a resenha da maravilhosa Graphic MSP Louco – Fuga, e nossa análise do sensacional Batman vs Superman – a Origem da Justiça. Há links em todos esses títulos, então convido os leitores a conferir!

Deste último, aliás, apresento abaixo alguns trechos:

 

De minha parte, absolutamente amei as referências, ver a Trindade máxima da DC unida na telona pela primeira vez, os vislumbres do universo maior que rapidamente nos levará até a Liga da Justiça, e ver novamente o maior herói de todos, Batman, em ação em uma de suas melhores encarnações.

 

Bem, pode haver SPOILERS, nada muito sério, adiante, então se ainda não conferiu o filme e não quiser correr qualquer risco, melhor ir fazer outra coisa, certo?

 

Sim, o tão injustamente criticado Ben Affleck está simplesmente sensacional como o mais perturbado, obstinado e violento Bruce Wayne já visto em live action! Atrevo-me até a dizer que ainda melhor que Christian Bale nos filmes de Christopher Nolan. Um detalhe absolutamente fundamental para mim foi que efetivamente VEMOS o Batman em ação, especialmente nas lutas, ao passo que na trilogia de Nolan as lutas se resumiam a rápidos movimentos muito próximos da câmera, ignorando por completo que o Cavaleiro das Trevas é mestre em praticamente todos os tipos de artes marciais conhecidos. E ele usa batarangues e outros apetrechos, esquecidos no enfoque excessivamente realista de Nolan.

 

Claro, Cavaleiro das Trevas... A maior, melhor, mais espetacular, dramática e emocionante saga jamais criada para os quadrinhos, obra-prima do mestre Frank Miller! Para mim foi uma emoção indescritível constatar como essa graphic novel influenciou Batman vs Superman, incluindo até mesmo uma transposição quase direta da cena do assassinato dos pais de Bruce Wayne em sua forma mais impactante. Uma fala de Alfred misturando bebida e a próxima geração da família Wayne está lá, e se procurarem podem encontrar várias outras referências a esse clássico das HQs. Além da referência máxima, a armadura de Batman e a luta com o Superman, que também contém frases inteiras de O Cavaleiro das Trevas. Vibrei demais!

De novo, clique aqui para conferir o restante do artigo.

 

E vamos a Arquivo-X... pensando bem, gostaria de aproveitar e comentar que para mim como autor, as referências máximas em termos de Ficção Científica no cinema e na televisão sempre foram Jornada nas Estrelas (como é estúpido não usar o título em português!), Guerra nas Estrelas (idem), e Arquivo-X (e vejam só, justo a tão criticada Fox teve a imensa sabedoria de manter o título original em português das aventuras de Mulder e Scully, hein?). É impossível negar que esses três universos magníficos foram os que mais me influenciaram no sentido de me tornar um escritor, e também roteirista.

E vejam que interessante, desde 2009 todos esses três grandes e clássicos universos estão passando por um processo de renovação e retorno. E sim, para mim tem um que fez isso bem melhor que os outros, vamos analisar?

 

Star Trek! Sim, novamente, a decisão da Paramount no Brasil por não utilizar o venerável nome JORNADA NAS ESTRELAS prejudicou imensamente a divulgação dos filmes de 2009, e Além da Escuridão de 2013. Tive o prazer de conferir os dois filmes da era Abrams no cinema, e gostei, especialmente do primeiro.

Conferir o filme de 2009 em um cinema lotado de trekkers foi algo especial. No momento da primeira aparição da nova e belíssima Enterprise, tudo veio abaixo! É indescritível a sensação de ouvir todo mundo dentro de um cinema gritando e aplaudindo. O que se repetiu quando surgiu na telona a venerável figura do inesquecível Leonard Nimoy. Sim, a destruição de Vulcano não agradou a uma vasta maioria, mas para mim foi uma decisão corajosa, aproveitando o fato de estarmos em outra linha temporal, ou seja, outra realidade.

Conversando com a comadre Surya, do site Aumanack, veio ainda outro problema. O trio principal em Jornada nas Estrelas sempre foi Kirk, Spock e McCoy. O primeiro a força, o segundo o cérebro, e o terceiro o equilíbrio, o lado humano completo com suas qualidades e defeitos, que protagonizaram debates brilhantes, filosóficos, inesquecíveis e inteligentes, com argumentos poderosos de lado a lado. Ou ainda, Spock é a lógica, Kirk é o coração, e McCoy a alma!

Infelizmente, em nome do maldito politicamente correto, o trio principal agora é Kirk, Spock e Uhura, um reles triângulo amoroso... e sim, patético os dois últimos discutirem a relação em meio a uma missão perigosa no sistema Klingon, em Além da Escuridão! E mudar o aspecto já mais que estabelecido dos Klingons? Não!

Os extras do filme de 2009 são preciosos, e gosto particularmente de um momento em que Leonard Nimoy vira para Zachary Quinto e diz “você nunca vai conseguir se livrar disso”. O Spock jovem de Quinto está muito bem nos dois filmes, e no primeiro tudo acaba funcionando a contento, embora todo o lado do debate filosófico que sempre foi o ponto forte de Jornada nas Estrelas tenha ficado de lado.

No segundo filme os problemas são em maior número. Benedict Cumberbatch como KHAAAAAAAAAAAAAAN está, claro, excelente, mas de novo, precisava repetir basicamente a receita de A Ira de Khan? Para mim tudo bem existir um grupo agindo nas sombras na Federação, afinal em A Nova Geração e Deep Space 9 isso também existia, e nem sempre atuando de maneira ética.

Mas repetir a cena “eu sempre serei seu amigo”, uhn, acho que não precisava.

E Kirk consertando o motor de dobra na base do chute? CADÊ A CIÊNCIA, meus caros, a base científica que sempre foi o forte em Jornada? Sem falar da nave perto da Lua caindo imediatamente em direção à Terra, teletransporte instantâneo, enfim...

Lamentavelmente o trailer do novo filme, Star Trek Beyond, não me agradou nem um pouco, e estou realmente pensando em nem gastar dinheiro para conferir no cinema. Mais parece um genérico muito mal feito de Star Wars que qualquer outra coisa, e foi excelente o comentário de George Takei ao ver o trailer, dizendo que não há nada ali vinculado ao trabalho do legendário Gene Roddenberry.

Tenho esperanças na nova série prometida para 2017, veremos. E recomendo o site dos amigos Star Trekkers, aliás.

 

Star Wars VII – O Despertar da Força. Claro que fomos ao cinema (duas vezes!), evidentemente que vibramos, e até já conferimos de novo em DVD... por sinal, DVD e blu-ray sem NADA de extras, que só estão no bem mais caro blu-ray duplo... depois o Lucas é que era mercenário, né, pois é!

Esse título, aliás... The Force Awakens se traduz como O Despertar da Força. Star Wars se traduz como Guerra nas Estrelas. Então não poderia ser Guerra nas Estrelas VII – O Despertar da Força? Ah, os “gênios” do marketing...

Sim, adorei o filme. Sim, a maior parte dos novos personagens é legal, o Finn por ser um desertor dos stormtroopers, o Poe por ser um grande piloto, o BB-8 fazendo até sinal de positivo (mas seus modelos custam caro), e especialmente a Rey, de novo um personagem de Star Wars na clássica Jornada do Herói. O retorno de velhos conhecidos, e uma muito, muito dolorosa partida... Até que a forte cena também me chamou a atenção e gostei, pela ousadia, mas aí fica uma dúvida, nos próximos filmes só teremos personagens “do bem” versus os “do mal”, sem ninguém na zona cinza ali no meio, ninguém mais humano mesmo?

E de novo o esquema de que o inimigo tem uma super-ultra-mega-hiper arma que tem que ser destruída? O que teremos então nos filmes VIII e IX? E infelizmente Kylo Ren não me convenceu muito como vilão, o descontrole dele mais valeu pela cena de humor com os dois troopers muito mais espertos que a maioria absoluta deles, dando meia volta diante do chilique do chefe, que por qualquer outra coisa.

E no momento do acionamento do Starkiller eles só esqueceram completamente como funcionam as leis da Física, né? Em instantes o raio se dividiu, atingindo e destruindo planetas a anos-luz de distância! Certo que Star Wars nunca prestou tanta atenção assim ao lado ciência da Ficção Científica, mas não precisavam exagerar, né?

Rogue One, para mim, está parecendo uma história bem mais interessante. E quanto ao filme VIII, o site Cinepop publicou uma teoria maluca sobre a origem de Rey que só me fez pensar: “PQP, midiclorians de novo!?”. Mais que Jar-Jar, mais que Ewoks, explicar a Força foi, disparado, a pior ideia de George Lucas em todos os tempos!

 

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 18h39
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O Retorno de Arquivo-X

Continuação

Por sinal, muito melhor é a teoria de que Jar-Jar seria o maior vilão de Star Wars, publicada neste link.

Ah, observações! A Rey, somente com seus instintos e talento natural para sentir a Força já deu uma surra no Kylo Ren (e esse pessoal que escreve os filmes continua péssimo para nomes...). Imaginem quando for treinada pelo Luke, que foi treinado pelos legendários Obi-Wan e Yoda!? E por sinal, aquele golpe que ela dava tentando espetá-lo com o sabre, me lembrou muito o estilo de luta do Palpatine... Enfim, de novo, aguardemos!

Finalmente, ARQUIVO-X! Sim, tenho uma predileção especial pelo maravilhoso universo criado por Chris Carter e as investigações dos agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully, pois além de tudo foram o melhor presente de aniversário que já tive! Podem conferir a data de estreia no livro Bastidores.

Sempre fui muito ligado às questões do espaço e vida extraterrestre, e felizmente ao contrário das teorias malucas do Mulder minha primeira leitura séria a respeito foi do inimitável livro Cosmos, de Carl Sagan. E inclusive o saudoso divulgador científico aparece na TV de Mulder no final da quarta temporada. E o fato é que meus primeiros livros, De Roswell a Varginha (Tarja Editorial, 2008) e Filhas das Estrelas (Editora Estronho, 2011), não teriam existido sem a inspiração de Arquivo-X.

Sempre concordei com os amigos que a série deveria ter terminado bem antes. Talvez na sétima temporada, Scully grávida e Mulder abduzido, algo para ficar na história! Mas tivemos a oitava e nona temporadas, a idiotice dos tais supersoldados...

Houve uma décima temporada em quadrinhos para os sortudos fãs estrangeiros, que aqui na Terra Brasilis só podemos conseguir por meio de uma quantidade razoável de dólares, ou outros meios mais, digamos, genéricos... e o que já li comprovou o quanto esse universo ainda pode render em termos de boas histórias, e sim, os Pistoleiros Solitários não morreram de forma alguma, YEAH!

Mas quando surgiu a sensacional notícia de que a série voltaria, em formato de minissérie de seis episódios, a alegria voltou! E ver Mulder e Scully de volta foi absolutamente emocionante, como rever velhos e queridos amigos!

 

My Struggle trouxe mais uma versão para o incidente de Roswell, a famosa queda de uma nave alienígena nas proximidades dessa cidade do Novo México, nos primeiros dias de julho de 1947. Os shippers se desesperaram por saber que nossos heróis tomaram caminhos separados, e fomos apresentados a um novo personagem, o magnata da mídia Tad O´Malley. Adorei particularmente a crítica feroz à sociedade egoísta, ególatra e consumista de hoje, e a renovação estupenda da conspiração, agora uma trama de pessoas que têm acesso à tecnologia alienígena, com os extraterrestres observando de longe. E, aparentemente, eles fazem muito bem! Também tivemos o retorno de Skinner, e seu comentário de que “o FBI já não é mais o mesmo” disse tudo sobre a “eficiência do governo”. Parece um país que você conhece? E claro, quem recebe um telefonema misterioso no final e diz que vai fazer algo a respeito? Nosso vilão preferido, o Canceroso!

 

Founder´s Mutation é um típico Arquivo-X, Mulder e Scully já integrados novamente ao Bureau, em uma investigação ligada a uma empresa de engenharia genética que pode ter parte com a conspiração. Lindas e emocionantes as cenas dos dois imaginando como seria se tivessem convivido com o filho, William. E claro, as piadas infames de Mulder e seu pouco respeito pelas regras estão ali, nem parece que tanto tempo se passou. Sensacional sua cena inicial frustrado pelos grandes mistérios terem sido explicados e atirando lápis no pôster da Scully... sim ela diz “meu pôster”.

 

Mulder and Scully meet the Were-Monster, episódio nada menos que sensacional! Merece tranquilamente entrar na lista de melhores episódios cômicos da série, genial a ideia de um monstro mordido por um humano sendo vítima da maldição de ter que acordar cedo, arrumar emprego... outra magnífica crítica contra a sociedade moderna e suas futilidades. Além disso David Duchovny e Gillian Anderson estão em seu melhor, piadas de rolar de rir a todo instante, especialmente Mulder apresentando suas teorias ao mesmo tempo em que descreve o que Scully diria em resposta, até que ela completa com um “esse é meu Mulder”. Cena desnecessária de cueca vermelha, e cena magnífica e “quente” de Scully, uhn... No cemitério bonitas homenagens a Kim Manners, diretor de 52 episódios da série, e Jack Hardy, diretor assistente de Chris Carter. Além das muitas e muitas referências, Scully se referindo a Queequeg, Guy se vestindo como Carl Kolchak, da série Os Demônios da Noite que inspirou Arquivo-X, e uma das melhores surpresas, o toque de celular de Mulder é o tema da série!

Por sinal, esse pôster foi criação do J. J. Lendl, artista que criou o The X-Files Poster Project. Ele criou pôsteres para cada episódio da série, então sem mais delongas cliquem aqui e confiram o site dele, vale a pena!

 

Home Again um típico episódio de monstro da semana, e um bem original na verdade, originário do trabalho de um artista com o fim de proteger a população de rua. Em meio à investigação, uma trágica história paralela para Scully com a morte de sua mãe, e ao longo do episódio inteiro sentimos toda aquela tensão e expectativa que somente Arquivo-X nos dava. Nada como nossa série favorita, que inspirou absolutamente tudo que veio depois na televisão, voltar para mostrar novamente como se faz!

 

Babylon trata do tema do terrorismo, com um atentado em solo americano logo no começo, e a introdução de dois novos personagens, os agentes do FBI Miller (Robbie Amell) e Einstein (Lauren Ambrose). A performance de ambos foi sensacional, sendo que eles são como versões mais jovens de Mulder e Scully, Miller disposto a acreditar, e Einstein, que também é ruiva e médica, muito cética e imaginando as poucas e boas que Scully passa ao lado de Mulder. Então Miller se junta a Scully para tentar, por meio de equipamento médico disponível, tentar se comunicar com o terrorista sobrevivente que está em coma, enquanto Einstein vai trabalhar com Mulder e se mostra várias vezes arrependida. E a “viagem” deste último é outro dos momentos cômicos da minissérie que nos fazem rolar de rir, mas é nela que são descobertas pistas fundamentais para afastar a ameaça de um atentado bem pior. No fim, Miller e Einstein conversam, e ela começa a se mostrar mais aberta.

 

E sim, se houver um spin off com Miller e Einstein terá meu completo e irrestrito apoio e audiência! Ainda mais se puder contar com participações especiais de nossos heróis principais, claro!

My Struggle II, finalmente, encerrou a minissérie, ou décima temporada, bem ao estilo Chris Carter, deixando-nos com mais perguntas que respostas. O dia seguinte foi divertido nas redes sociais, com o pobre diretor e produtor sendo espinafrado e xingado de todas as formas. Pôxa, gente, já deveriam estar mais acostumados, e mais otimistas também, já que durante a temporada já se falava que a Fox estava satisfeitíssima com os novos episódios e queria mais, inclusive até com o possível spin off de Miller e Einstein. O que havia sido sugerido no primeiro episódio acontece neste, com um possível ataque biológico relacionado a DNA alienígena. Termo, aliás, que foi repetido à exaustão em todo o episódio. Aprendemos o que houve com nossa querida Monica Reyes, e vimos como o Canceroso ficou afetado após o primeiro final da série. O episódio se torna uma luta contra o tempo para obter a cura para a infestação, com participação de Einstein e Miller, este que já confronta o Canceroso e se mostra essencial para salvar a vida de Mulder. Scully finalmente encontra os dois depois de ter inoculado a cura em Einstein, porém o estado de Mulder é crítico, e somente uma transfusão do sangue de William, o filho deles, poderia salvá-lo. Nesse momento aparece sobre a cena uma nave com tecnologia alienígena, que envolve tudo com um cone de luz, Scully olha sem ação para cima... e o episódio termina.

 

Chris Carter filho da...!!! Sim, até nisso voltamos aqueles maravilhosos tempos em que Arquivo-X foi a maior audiência do canal que o exibiu originalmente! Minha opinião é que foi uma excelente minissérie ou décima temporada, que teve exatamente o mesmo sabor das primeiras e históricas quatro temporadas de Arquivo-X. A mesma tensão, o mesmo suspense, o mesmo humor, a mesma obsessão de Mulder em descobrir a verdade, e a mesma racionalidade com a mente aberta de Scully.

Além de tudo, os novos personagens acrescentaram muitos elementos dignos de serem explorados. Com Miller e Einstein realizei um velho sonho, pois sempre quis saber como nossos dois heróis eram vistos por seus colegas do Bureau, e eles trazem mais uma excelente possibilidade de dar uma autêntica e duradoura sequência à série. Pena mesmo que Carter não tenha seguido os quadrinhos e deixado claro que os Pistoleiros sobreviveram e estão ainda por aí atuando, mas como na alucinação de Mulder em Babylon eles apareceram ao lado de Skinner... como diz no pôster, Eu Quero Acreditar!

Assim, finalizando este já longo texto, nossos amados universos de Ficção Científica têm experimentado uma grande renovação desde 2009, porém, para mim, o que se saiu melhor, por conseguir trazer de volta os mesmos sentimentos e o mesmo clima originais, que por tantos anos desfrutamos em episódios inesquecíveis que nunca cansamos de assistir e reassistir, sem dúvida foi Arquivo-X. Esses seis episódios foram muito poucos, na verdade, para matar tantas saudades de nossos amigos, que nos brindaram com histórias sensacionais, tensas, assustadoras, dramáticas e divertidas. E por isso, por trazer toda essa diversão de volta e ainda mais renovada, sem dúvida temos que comemorar e muito! Sou trekker sim, e adoro Star Wars, mas com certeza foi Arquivo-X o universo que apresentou a melhor renovação. Que venham mais episódios inéditos em 2017!

Antes de encerrar, gostaria de sugerir meus e-books disponíveis na Amazon:

A Lista: Fenda na Realidade

A Lista: Nêmesis

O Império, o Meteoro e a Guerra dos Mundos

Até a próxima!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 18h38
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BEM VINDOS AO FUTURO!

Hoje foi mais um dia para lembrar como é bom ser nerd. Ao longo de toda esta quarta-feira, 21 de outubro de 2015, todos nós ficamos com aquela sensação magnífica de estar fazendo parte de algo muito especial. Pois claro, como devem saber, 21 de outubro de 2015 é a data da chegada de Marty McFly e Doc Brown ao futuro, em De Volta para o Futuro II, segundo filme da maior trilogia da história da Ficção Científica!

Antes que o mimimi comece, Star Wars já não é uma trilogia há tempos... e poderia acrescentar, infelizmente...

Para comemorar esta data, vários veículos fizeram especiais, como os jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. O site Space lembrou que, em 05 de dezembro de 2014, uma miniatura do Delorean, além de uma coleção de memorabilia, voou no protótipo da nova nave espacial tripulada da NASA, a Orion. E de fato, esse Delorean em particular realmente viajou no tempo, visto que devido à velocidade da nave o fluxo temporal sobre ele foi mais lento, em algumas frações de segundo!

Várias marcas aproveitaram a data para homenagear e pegar uma carona na divulgação da trilogia. E uma delas foi a Dunlop, que ficou bem legal, aliás! E a Casa Branca fez de hoje o Dia de De Volta para o Futuro, para uma série de painéis com inovadores, em torno da questão: "O que o ano 2045 parece para você?". Pois é, cada um tem a presidência da república que merece... E por sinal, caso Marty e Doc chegassem a nossa São Paulo atual, poderiam ter alguns probleminhas...

Enfim, o dia é de festa, e para celebrar, nada melhor do que lembrar de algumas curiosidades sobre a saga. Abaixo relaciono várias delas, e vocês podem pesquisar mais no site Imdb.

 

De Volta para o Futuro:

- Shopping, Twin Pines Mall no começo do filme, no final Lone Pine Mall. Primeira evidência de que viagens no tempo têm consequências.

- Courthouse Square, a praça do Relógio da Torre, é uma área adjacente à Universal Studios, e já foi utilizada em inúmeras produções, incluindo: Knight Rider (1982–1986), Gremlins (1984), Magnum, P.I. (1986), Elvira, Mistress of the Dark (1988), Batman & Robin (1997), Buffy the Vampire Slayer (1998), Ghost Whisperer (2005–2010), Falling Skies (2011-), House M.D., 8x5 "The Confession" (2011/12).

- John Delorean (06/01/1925 – 19/03/2005) fundou a companhia Delorean Motor Company (DMC), em 24 de outubro de 1975, que faliu em 1982. Ele chegou a ser preso pela acusação de tráfico de drogas, porém foi inocentado quando a tese da defesa, de que a polícia armou o flagrante, foi aceita. Enviou um carta aos produtores, que pode ser vista nos extras do DVD, agradecendo por terem utilizado o DMC-12. Em 1995 o mecânico Stephen Wynne adquiriu a marca e passou a produzir peças e carros completos em Houston, Texas, sem qualquer relação com a empresa original, mas dando suporte a proprietários de Delorean. O DMC-12 foi produzido de 1981 a 1983, em cerca de 8.500 exemplares. Acredita-se que cerca de 6.500 ainda existam, dois deles em São Paulo.

- Johnny Be Gode, de Chuck Berry, a música que Marty toca, está na seleção do Disco de Ouro das naves Voyager 1 e 2.

- Cena de abertura, relógios da casa de Doc, é visível um boneco pendurado no ponteiro de um dos relógios.

- Julio Verne, autor favorito de Doc e Clara, inspirou o nome de seus filhos. Doc menciona Viagem ao Centro da Terra a Marty, e conversa com clara sobre Da Terra à Lua e 20.000 Léguas Submarinas. Porém quando diz que leu sobre Capitão Nemo quando era garoto ela estranha, já que a história foi publicada de março de 1869 a junho de 1870, no periódico Magasin d’Éducation et de Récréation, do editor Pierre-Jules Hetzel. Aliás, Julio Verne nasceu em 08/02/1828, então em 1885 ele tinha 57 anos.

- H.G. Wells publicou A Máquina do Tempo em 1895, mas não é mencionado na saga. Por sinal, Julio Verne disse, sobre Wells: “Ele mente”, pois Verne era adepto do absoluto rigor científico, ao passo que Wells dava asas à imaginação e não se limitava à ciência da época. Verne cobrou de Wells que mostrasse a cavorita, o mineral que repelia a gravidade, de Os Primeiros Homens na Lua. Talvez tenham nascido aí as duas grandes divisões da Ficção Científica, Hard adepta do rigor científico, e Soft, mais liberal e interessada na crítica social.

- Cena de Doc pendurado no relógio, pode-se ver que seus sapatos são fechados por velcro. Essa tecnologia foi lançada pela primeira vez pela Puma em 1968.

- Guitarra de Marty é um modelo Gibson ES-345, lançado em 1958.

- O lenço usado pelo motorista líbio é saudita.

- Doc coloca no marcador de tempo a data do nascimento de Cristo como 25 de dezembro do ano 0. Porém estudos modernos apontam como data correta 6 ou 4 A.C. Além disso, evidentemente o Delorean se materializaria no ano 0, na área que viria a ser a Califórnia. O diretor Robert Zemeckis disse que foi uma piada.

- George diz a Marty que não vai ao baile porque sábado a noite é exibido Science Fiction Theatre. Porém esse programa era exibido as sextas.

- Ronald Reagan gostou tanto da referência a ele que pediu ao projecionista para passar a cena novamente. E em seu discurso do estado da união de 1986, disse: “Como dito no filme De Volta para o Futuro, para onde vamos, não precisamos de estradas”.

- De acordo com o roteirista Bob Gale, em 26 de outubro de 1985, um grupo de pessoas se reuniu no estacionamento usado como cenário para o shopping Twin Pines Mall, aguardando para ver se Marty chegaria com o Delorean.

- O juiz que afirma que Marty e sua banda são barulhentos demais no começo do filme é Huey Lewis, autor das músicas Power of Love e Back in Time.

Continua abaixo:



Escrito por Escritor às 20h14
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BEM VINDOS AO FUTURO!

Continuação...

- O Delorean foi escolhido pelo visual, para que as pessoas de 1955 achassem que era uma nave espacial.

- Marty imita famosos guitarristas. Tocar deitado como Angus Young do AC/DC, pular em um pé só como Chuck Berry, e no solo como Jimmy Hendrix e Edward Van Hallen.

- Doc manda Einstein um minuto para o futuro, porém se passam 1 minuto e 21 segundos. O retorno se dá a 1h21, e o circuito do tempo do Delorean precisa de 1,21 gigawatts para funcionar.

- Em todos os três filmes a data do presente é 26 de outubro de 1985. Exatamente em 26 de outubro de 2010, 25 anos depois, saiu a edição de 25 anos em blu-ray.

- O posto Texaco aparece em 1985 e em 1955.  O avô materno de Christopher Lloyd foi um dos fundadores da Texaco.

- A revista Tales from Space homenageia a EC Comics, conhecida editora dos anos 50, e seu logo é visível na capa. Seus títulos de Ficção Científica eram Weird Science e Weird Fantasy, e o de terror era Tales from the Crypt. Robert Zemeckis era fã da EC, e foi produtor executivo da série Contos da Cripta de 1989.

 

De Volta para o Futuro parte II:

- Carl Sagan considerou o mais acurado filme sobre viagens no tempo já realizado, devido ao cuidado em lidar com as múltiplas linhas temporais, como se viagem no tempo fosse possível. Seu nome foi usado por Doc no game, quando da visita a Hill Valley em 1931.

- Elijah Wood é um dos garotos jogando videogame com quem Marty conversa, seu primeiro trabalho em um filme (está de camiseta vermelha).

- A camiseta que Doc usa durante boa parte do filme mostra caubóis a cavalo e um trem, antecipando o terceiro filme.

- Em 2015 carros de outros filmes de Ficção Científica podem ser vistos, como o Spinner de Blade Runner (1982), e o StarCar de O Último Guerreiro das Estrelas (1984).

- O carro (táxi) que leva o velho Biff ao Delorean, quando este está estacionado diante da casa de Marty e Jennifer, é um Citroen DS, lançado em outubro de 1955. Também aparece como ferro velho no 1985 alternativo.

- No roteiro original, ao invés de Tubarão 19, Marty veria em 2015 uma chamada para Godzilla 2015. E em 2014 tivemos um novo filme de Godzilla.

- No 1985 alternativo, Richard Nixon foi reeleito para um quinto mandato. Exatamente o mesmo acontece na HQ Watchmen, de Alan Morre e Dave Gibbons, publicada entre 1986 e 1987. E Moore e Bob Gale, roteirista da série De Volta para o Futuro, escreveram HQs do Batman.

 

De Volta para o Futuro parte III:

- O beijo de Doc em Clara foi o primeiro beijo em cena da carreira de Christopher Lloyd.

- Quando Doc e Marty estão preparando a viagem a 1885, Marty fala de Clint Eastwood, e Doc pergunta “Quem?”, são visíveis os pôsteres de A Revanche do Monstro (1955), e Tarântula! (1955), alguns dos primeiros trabalhos de Eastwood.

- Falando sobre a foto da lápide, Marty e Doc trocam de frases, Marty diz “Great Scott”, e Doc fala “Yeah, this is heavy”.

- A cidade do velho oeste ficava em Jamestown, Califórnia, e foi destruída por um raio em 1996.

- Em 1885, no veículo que transporta esterco, está escrito A. Jones. Em 1955 o letreiro diz D. Jones.

- Ronald Reagan foi convidado a interpretar o Prefeito Hubert, e recusou com relutância. O papel coube então a Hugh Gillin.

- Doc Brown comenta que o nome de sua família é Von Braun. É uma referência ao cientista alemão Werner Von Braun, projetista do míssil alemão V-2 da Segunda Guerra Mundial, e que depois trabalhou para os americanos, ajudando a fundar a NASA e tendo projetado o Saturno V, o foguete que levou o homem à Lua.

- Os três caras no saloon são interpretados por  Dub Taylor, Pat Buttram, e Harry Carey Jr., que participaram de inúmeros bangue-bangues como bêbados, ajudantes e cidadãos de pequenas cidades do velho oeste.

- O relógio da torre pode ser visto sendo descarregado do trem ao fundo, quando Marty e Doc falam com o maquinista sobre a velocidade de uma composição.

- Em 1885 existe um estabelecimento de venda de cavalos chamado Statlers. Em 1985 pode ser ouvido um anúncio de rádio sobre Statler Toyota. E em 1955 uma concessionária Statler Motors Studebaker.

- Mary Steenburgen interpreta Clara Clayton, uma mulher do século XIX que se apaixona por um viajante do tempo do século XX. E Um Século em 43 Minutos (1979), ela interpreta uma mulher do século XX que se apaixona por um viajante do tempo do século XIX.

- Mais longo salto no tempo do Delorean, de 7 de setembro de 1885 a 27 de outubro de 1985, 100 anos, um mês, 20 dias.

- O relógio da torre foi acionado às 8 horas de 5 de setembro de 1885. Como o raio o atingiu em 12 de novembro de 1955 às 22:04, significa que ele funcionou 70 anos, dois meses, 7 dias, duas horas e 4 minutos.

E A MELHOR!

- Em 12 de novembro de 1955 existem, na verdade, quatro versões distintas do Delorean em Hill Valley. 1- O que trouxe Marty no primeiro filme. 2- O que Biff velho usou para entregar o almanaque ao Biff jovem. 3- O usado por Marty e Doc para recuperar o almanaque. 4- O que ficou guardado na mina.

Para encerrar, deixo os caros leitores com uma mensagem muito especial de Doc Brown:

Não esqueça, o futuro é uma página em branco, tenha certeza de escrevê-lo bem!

Até a próxima, no futuro!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 20h11
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Samuel, como sempre, estava cismado.

— Essa P. desse carro tá querendo aprontar alguma comigo!

Daniel dirigia em meio ao tráfego pesado para a Festa do Peão. Era sempre a mesma história quando saíam com o Fusca de Vó Nena.

— Dá para relaxar?

— Olha, olha agora! – disse Samuel, apontando para os mostradores do painel. – Ficaram com luz vermelha, como ele faz sempre quando estou aqui!

O irmão mais velho desviou os olhos por um instante, e constatou que o velocímetro e o marcador de combustível de fato exibiam uma leve luminescência vermelha. Atento ao trânsito pesado, respondeu:

— Mas Samuel, o que você queria? Conhece muito bem a história da Vó com esse carro! Falando nisso, liga prá elas já que não tá fazendo nada!

Samuel ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Pegou o celular e olhou pela janela, tentando se esquecer do quanto não gostava daquele carro. Tatiana logo atendeu:

— Oi, Samuel!

— Coloca na viva-voz – disse Daniel.

Samuel fez isso, e o irmão perguntou:

— Tati, tudo bem?

— Tudo, e vocês?

— Quase chegando, e como sempre Samuel está de birra com o carro – riu Daniel.

— Essa P. desse carro é que tem birra comigo! – protestou o irmão mais novo.

Ouviu-se uma voz indignada:

— Mas que P. de linguagem é essa, Samuel, seu moleque! – Vó Nena gritou entre duas fortes tossidas. — Essa é a M. de educação que sua mãe te deu?

Daniel riu mais ainda, e perguntou:

— Vó, como a senhora está?

Nena tossiu de novo, ouviu-se também um espirro, e ela respondeu:

— Esses médicos filhos de uma P. já deveriam ter inventado um remédio contra essa M. de gripe, meu filho! Tô que não me aguento! E falando nisso, tá cuidado direitinho do Fusca?

— O Poizé tá excelente, Vó! Só o Samuel que não gosta muito dele...

Ouviram-se as risadas de Nena e Tatiana, e a anciã respondeu depois de nova tossida:

— O Fusca também não gosta muito do Samuel, he, he, he... meus netos, tomem cuidado.

— Tati, teve mais alguma visão? – perguntou Samuel tentando mudar de assunto.

— Não, nada, só aquela – disse a vidente. — Meninos, cuidado, duas forças muito poderosas estão a ponto de se enfrentar, e tudo aponta para a Festa do Peão.

— Pode deixar, amor – respondeu Daniel. – Trouxemos tudo que podemos precisar, e nenhuma coisa ruim vai escapar da gente.

— Qualquer coisa vocês liguem, meus netos – disse Nena.

Todos se despediram no momento em que entraram com o Fusca, um raro modelo azul monocromático ano 1962, no enorme estacionamento do evento. Rodaram um pouco pelos corredores apertados e Daniel reparou quando, em dado momento, passaram por um casal e três filhos, dois meninos e duas meninas, a pé. O garoto menor apontou o carro e deu um soco no braço do irmão, para em seguida o mais velho sair correndo atrás do mais novo. Até Samuel deu risada, e após mais algumas voltas viram um carro liberando uma vaga. Depois que ele saiu Daniel manobrou e estacionou o Fusca de ré, mas Samuel olhou para o lado e disse:

— Tá apertado aqui, não vai querer que amasse a porta no carro do lado.

— Refaço a manobra, então.

Daniel saiu um pouco da vaga, virou o volante, e dessa vez o Fusca encaixou-se bem. Desligaram no momento em que um utilitário esportivo compacto parou na frente deles. O motorista baixou o vidro e gesticulou. Daniel saiu primeiro e fez sinal negativo com a mão.

Porém, o outro resolveu insistir. Tirou o chapéu e o abanou, mas os dois irmãos continuavam a ignorá-lo enquanto pegavam as mochilas no banco de trás.

— Ô, sujeito, cê tava saindo! – berrou finalmente o outro.

— Não estava, amigo – respondeu Daniel. – Só manobrando para estacionar melhor.

O motorista do jipe olhou para o lado, e eles repararam na garota também de chapéu. O sujeito voltou a gritar com eles:

— Caramba, tô circulando aqui faz tempo, tira essa M. daí para eu estacionar!

Samuel, pela primeira vez, olhou para o Fusca e sorriu. Do painel emanava um brilho vermelho mais forte. Daniel, por sua vez, tentou argumentar:

— Olha colega, estamos chegando e já estacionamos. Vamos tratar dos nossos negócios, e não temos tempo a perder.

— Pois vão perder é essa tranqueira que puseram na minha vaga, seus frouxo!

O sujeito arrancou com o jipe, andou poucos metros, freou e engatou a ré. Os dois irmãos se afastaram, observando tranquilamente.

O jipe veio e bateu no Fusca, amassando o para-lama e o para-choque esquerdos e um pouco do capô. O motorista do jipe olhou pela janela, e estranhou os dois irmãos de pé a pouca distância, simplesmente observando. Ele olhou para a moça a seu lado, engatou a primeira, afastou-se um pouco, e voltou de ré pela segunda vez.

No momento em que o jipe ia novamente acertar o Fusca, o capô deste abriu-se e em seguida se fechou contra a traseira do utilitário esportivo. O motorista do jipe olhou pela janela, e abriu a boca espantado. De dentro do Fusca emanava uma luminosidade vermelha, visível também nos faróis, e o carro continuava a abrir e fechar o capô, dando verdadeiras mastigadas na traseira do jipe. A lataria do utilitário ficava cada vez mais amassada, e os dois ocupantes começaram a gritar.

— Mas que P. é essa!?

— Acelera, C., vamos fugir daqui, tá esperando o quê?

— Tô acelerando, mulher, tô acelerando!

O Fusca segurava o canto esquerdo do utilitário com a roda traseira deste no ar. Finalmente, após arrancar um pedaço da lateral traseira, abriu o capô e o jipe saiu em disparada, guinchando os pneus.

Daniel e Samuel simplesmente observaram tudo sem fazer nada. O Fusca havia saído um pouco da vaga, e recuou de ré enquanto sua lataria amassada retornava ao formato original. Quando parou em seu lugar, não havia mais qualquer sinal do incidente, exceto o pedaço do jipe no chão.

Samuel se aproximou, abaixando-se para apanhar a peça de metal e dizendo:

— Esses são os únicos momentos em que gosto desse carro.

Como que respondendo, os faróis do Fusca se tingiram brevemente de uma luminescência vermelha. O irmão mais novo parou, encarou o carro, e finalmente desistiu. A peça de metal ficou no chão.

Samuel voltou para junto de Daniel, que ria muito, e os dois rumaram para a entrada da Festa do Peão.

O evento estava lotado, com presença de pessoas de todas as cidades da região, e até vindas de outros estados. Na arena peões se exibiam montando cavalos e touros bravos, e na feira e na praça de alimentação havia muito o que ver e muito onde gastar.

O barulhento grupo que se acomodou em um dos stands de churrasco no meio da tarde, entretanto, queria consumir outro tipo de mercadoria. Todos se vestiam como autênticos peões de boiadeiro, mas seu interesse estava nas moças que passavam. Alguns do grupo já aproveitavam a companhia de garotas em roupas típicas, short ou calça jeans, camisa e chapéu, mas Fernando dizia que ainda estava esperando a dele.

E nesse momento a viu passando: morena, bronzeada, vestindo um short pequeno e justo, top, chapéu e botas. Ele se virou para os amigos, que exibiram sorrisos de aprovação, levantou-se do banco e aproximou-se da moça. Enlaçou sua cintura e foi logo dizendo:

— A moça tá desacompanhada, tá?

A morena virou o rosto para ele, e Fernando teve a impressão de ver um brilho diferente em seus olhos. Mas então ela abriu um sorriso e respondeu:

— Não estou mais.

Ela agarrou-o pela nuca e o beijou, enfiando a língua em sua boca com vontade. Os amigos berraram em aprovação, e a menina puxou Fernando para um canto, não muito longe da barraca onde sua turma comia e se bolinava.

A morena parecia insaciável, e Fernando ria com a sorte que teve.

— Mas você é gostosa mesmo, hein?

Ela acariciava todo o corpo do rapaz, arrancou sua camisa que estava presa na calça, e disse:

— Meu nome é Sheila, e o seu?

— Fernando, fofa. Mas você quer aqui mesmo? Assim?

Sheila o provocava, passava as mãos em seu corpo, e conduziu a mão dele para sua bunda, enquanto dizia:

— Por quê? Você não quer?

Em resposta, o peão de asfalto a agarrou, apalpando todo seu corpo. Sheila sorria enquanto ele beijava seu pescoço, depois tirou o chapéu do rapaz, segurando-o pelos cabelos e o beijou.

Fernando poderia jurar que jamais havia sido beijado daquela forma. Sheila parecia querer comê-lo vivo.

E foi quando sentiu. Os lábios da morena começaram a esquentar, um fogo parecia vir de dentro dela, e passar através do beijo para Fernando. Mas o que sentiu não era prazer.

O terror se espalhou por seu ser. Tentou gritar, mas a mulher o segurava com firmeza incomum, beijando e sugando sem parar. O tormento não tinha fim.

E então Fernando não sentiu mais nada.

 

Os gritos aterrorizantes chamaram a atenção de Samuel e Daniel, que haviam parado em uma barraca na praça de alimentação para um lanche. Sequer haviam tomado café antes de sair, apressados por Vó Nena diante da visão que Tatiana tivera, e se aprontavam para saborear grandes hambúrgueres, quando um tumulto lhes chamou a atenção.

Chegaram correndo, abrindo caminho entre a multidão. Garotas choravam, e alguns dos rapazes pareciam que iam borrar as calças em breve. Um vomitava no canto, quando os dois irmãos viram o motivo da balbúrdia.

Um corpo estava estirado no chão, vestindo roupas novas de caubói. Entretanto, o cadáver estava seco, com aparência mumificada. Samuel rapidamente tirou a câmera da mochila e bateu várias fotos, depois mudou a configuração para filmar a cena.

Enquanto isso Daniel interrogava as pessoas próximas:

— Alguém viu o que aconteceu?

Algumas pessoas evitavam encará-lo, outras saiam apressadas. Enquanto Samuel continuava a registrar o cadáver e procurar alguma evidência ao redor, Daniel repetia suas perguntas.

— Ele... ele parecia feliz, saiu com uma morena gostosa que chegou..

Daniel se virou e encarou um rapaz jovem, que disse ser amigo do morto. Conversou rapidamente com ele, mas era basicamente tudo que sabia. Observando uma e outra pessoa apontando a câmera do celular para o cadáver, ele perguntou ao rapaz:

— Será que ninguém tirou foto dessa mulher?

Outro sujeito da turma amparava o que havia vomitado, enquanto dois ainda estavam com as garotas que haviam conhecido. Diante da pergunta de Daniel, uma delas apanhou o celular e começou a mexer no aparelho. Finalmente passou a olhar fixamente para a tela, acompanhada das amigas que a rodeavam.

Daniel abriu caminho e ficou diante da menina. Ela percebeu, ergueu os olhos, e por fim virou a tela do celular para ele.

 

Aquele cavalo estava bem mais agitado que de costume, e quatro homens não conseguiam segurá-lo. O bicho relinchava e escoiceava, enquanto os peões tentavam com muito esforço introduzi-lo no cercado por onde seria conduzido até a arena.

Não muito longe dali um jovem casal passeava com a filha de quatro anos. A menina segurava a mão da mãe, e virava a cabeça para todos os lados, olhando o movimento.

O cavalo continuava a escoicear. Um grupo de pessoas assistia a cena a pouca distância.

A menina andava com um cavalo de pelúcia na outra mão, mas o brinquedo caiu, e ela se virou, soltando-se da mãe. Esta a chamou pelo nome, mas a menina correu para apanhar o bicho de pelúcia.

O cavalo finalmente acertou um coice de raspão, derrubando um dos homens. Os demais não conseguiram segurá-lo, e o animal saiu em disparada. O grupo de pessoas que assistia se dispersou, as pessoas corriam apavoradas e o cavalo passou galopando por elas.

A menina apanhou o cavalo de pelúcia, mas foi derrubada por pessoas que fugiam, assustadas com o cavalo que se aproximava.

Os pais da menina gritaram, paralisados pelo pânico, observando o animal se aproximar de sua filha.

Nesse instante uma moça loira, linda, usando um vestido curto delicado, chapéu e botas, se interpôs entre o cavalo em disparada e a menina.

O animal avançou mais alguns passos e parou diante da loira. A moça o olhava fixamente, e o cavalo baixou a cabeça. A loira o acariciou, enquanto o casal se aproximava correndo e tomava a menina nos braços.

— Obrigado, muito obrigado, moça! – disseram eles.

A loira os olhou com ar indiferente, virou-se e fez uma carícia final no cavalo. Os peões chegaram correndo nesse momento, olhando a cena sem conseguir acreditar.

A moça lançou um último olhar para o cavalo e se afastou andando, desaparecendo em meio à multidão.

O casal e sua filha seguiram em outra direção, enquanto os peões não tiveram qualquer dificuldade em conduzir o cavalo de volta à arena. Um e outro ainda olhava para trás procurando a loira, e comentavam entre si perguntando como ela pôde parar um animal bravo como aquele.

 

Na Festa do Peão também acontecia uma exposição com as novidades da moderna indústria agropecuária. Tratores, máquinas e implementos estavam em exposição e, assim como o restante do evento, o local também estava apinhado de gente.

Carla era uma das promotoras, e por mais que morresse de vontade de estar com as amigas, que aproveitavam a festa vestidas a caráter, já havia parado de reclamar do conjunto blazer e saia que vestia. O dinheiro que pagavam fazia valer a pena, e ela aproveitava um intervalo para esticar as pernas depois de comer algo.

Lembrou-se da morena de short e top que já havia chamado sua atenção quando passou várias vezes por seu estande, e Carla pensou em como seria bom encontrá-la. Suspirou com a recordação dos olhares que trocaram e já estava voltando, quando seu sonho se tornou realidade.

A morena surgiu de trás de um dos enormes tratores, olhando para Carla com desejo.

— Oi, sou Sheila – disse.

— Oi — respondeu Carla.

A morena apanhou sua mão, conduzindo-a para um canto sossegado. Carla olhou o relógio e viu que ainda tinha alguns minutos, e afinal ela tinha direito de aproveitar a festa. Conversaram um pouco enquanto andavam e, ao constatar que ninguém mais as incomodaria, Carla beijou Sheila com vontade

A promotora passeava com as mãos pelo corpo da morena, que retribuiu seus carinhos. Parecia que uma queria devorar a outra.

 

— Alguém viu a Carla?

O gerente da revendedora de tratores estava furioso. A promotora havia saído para seu intervalo e ainda não retornara.

Um grito aterrorizante veio de trás de uma colheitadeira exposta em outro estande. As pessoas correram para lá e não acreditaram no que viram.

 

— Mas que P. é essa ceufi?

— É selfie, Vó – explica Tatiana. – A mesma coisa que autorretrato.

— Esse povo tá é cada vez mais besta, isso sim! – comenta a anciã.

As duas observaram a foto enviada pelos rapazes, enquanto Samuel explicava:

— Faz uns vinte minutos soubemos de outro zunzunzum, e descobrimos um segundo corpo, uma moça que era promotora num estande da feira agropecuária, aqui ao lado.

— Algumas pessoas disseram que a moça estava no intervalo e se engraçou com uma morena gostosa – acrescentou Daniel.

— Sei, morena gostosa – comentou Tatiana.

— Amor, você sabe que só tenho olhos prá você.

— Vamos deixar de sem-vergonhice enquanto a gente caça, vocês dois? – disse Vó Nena entre duas tossidas.

— Daí demos sorte, pois uma das meninas do primeiro grupo fotografou o tal Fernando saindo com a morena, e quando mostramos essa foto para as testemunhas do segundo caso, confirmaram que é a mesma mulher.

— Além disso, soubemos de outra coisa estranha – comentou Samuel. – Um cavalo desembestou para cima de uma menina pequena, e uma loira também gostosa... eu posso comentar, viu, mano? Enfim, essa loira apareceu de repente e amansou o bicho.

Samuel fez uma pausa, e prosseguiu:

— Tipo, amansou mesmo! O cavalo era para ser montado durante a competição dos peões, mas ficou manso, não serve mais pro rodeio!

Ouviram pelo telefone Vó Nena tossir bastante, e depois de alguns instantes a anciã, com voz rouca, disse:

— Meus netos, a primeira vagabunda deve ser uma súcubo

— Súcubo? – perguntou Samuel.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 13h56
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Continuação:

— É, um demônio que seduz e rouba a energia das pessoas – completou Nena. – E não faz diferença, homem, mulher, o que aparecer prá ela tá bom.

— E como matamos, Vó? – perguntou Daniel.

— Faca, espada, fogo, bala de prata, tudo isso serve, meus netos. Mas tomem cuidado, essas filhas da P. são muito fortes, resistentes, e principalmente vocês que são homens, podem cair no papo dela muito fácil. Não vão abrindo as calças aí prá qualquer uma, hein?

— Vó!? – disse Tatiana indignada.

Nena riu, bem como os rapazes, mas a anciã completou:

— Filha, essas pestes seduzem até quem já passou da idade! E até você, linda desse jeito, pode cair na conversa de uma delas.

— E essa outra, Vó? – perguntou Samuel. – Acha que a gente deve investigar?

— Pelo visto a Tati acertou, Samuel, meu neto – comentou Nena entre duas tossidas. – Não é normal uma moça amansar cavalo bravo assim, só de olhar e tocar. Fiquem de olho, vou mandar a Tati pesquisar, pois não lembro de cabeça qual criatura influencia bicho assim.

— Vamos ficar de olho, Vó – disse Daniel.

— E você se cuide! Principalmente com esses rabos-de-saia! – disse Tatiana.

— Eu te amo, Tati!

Daniel desligou, Tatiana segurou o celular contra o peito, preocupada com o namorado.

 

O grupo de quatro peões comentava o desempenho inédito de dois dos competidores do rodeio.

— C., nunca vi o Mané e o Severino montarem tão bem!

— Eles sempre foram uns frôxo – comenta outro. – Como é que agora tão quase na final?

— Ara, agora só quero saber é de pegar mulher. E olha só que boazuda essa...

Os quatro observaram a loira passando, de vestido delicado, chapéu e botas, e foram atrás. Percebendo como ela parecia perdida, olhando para todos os lados como se procurasse alguma coisa, um deles se adiantou e perguntou:

— A moça parece perdida, carece de precisá de ajuda?

A loira se virou, e os peões fizeram um semicírculo diante dela.

— Preciso ver os animais.

— Ah, então a moça falou c´as as pessoas certa! – um deles se adiantou, piscou para os demais, e passou o braço pelos ombros dela. – Como é seu nome, belezura?

— Ariele.

— Pois então, a gente é tudo peão, e podemos te levar pra ver os bicho. Prefere touro ou cavalo?

— Quero ver todos.

— Então, vem com a gente!

O peão saiu andando com Ariele, e seus três companheiros foram atrás. Nesse momento cruzaram com Samuel e Daniel, e o mais velho se virou, observando o grupo.

— Se essa loira não tiver cuidado, pode se dar mal... – comentou Samuel.

Daniel apanhou um objeto do bolso, colocou-o na palma da mão, e apontou os dedos para o grupo. A agulha da bússola se moveu, apontando para as pessoas que se afastavam.

— Não sei se é ela que pode se dar mal... vamos, mano!

Sem explicar, Daniel saiu correndo atrás dos peões. Samuel o seguiu a contragosto.

 

Dois dos peões estavam caídos ao chão, um deles gemendo e segurando o braço quebrado, o outro desacordado.

O terceiro tentava segurar a loira por trás, enquanto o quarto berrava com ela:

— Sua piranha! A gente só queria se divertir um pouco.

— Vocês são esses homens horríveis que maltratam os animais! Me larguem!

Ariele se debatia, mas o peão a segurava pelos braços. Nesse momento chegaram Daniel e Samuel.

— O que tá acontecendo aqui?

O peão encarando Ariele se virou, olhou os dois rapazes e disse:

— Vão embora, seus frangote, antes que sobre proceis também!

O que segurava a loira se distraiu, e Ariele aproveitou. Ergueu o pé e rapidamente o desceu, acertando a ponta do pé do homem com o salto de sua bota. O peão a largou berrando.

— Sua filha da p.!

Mas o homem não desistiu. Fez um movimento rápido com a mão para acertar um soco na loira, mas só conseguiu derrubar seu chapéu. Este esvoaçou e caiu perto de Daniel, que observou a peça de relance e disse:

— Essa não...

No mesmo instante eles foram derrubados por uma súbita ventania. O peão diante do irmão mais velho se virou, somente para ser acertado por um raio bem no peito. O outro se afastou pulando no pé que não fora pisado, de olhos arregalados para a loira.

Ariele flutuava a centímetros do chão, uma luz intensa saía de seus olhos, e raios crepitavam e saltavam de suas mãos. O vento, do qual ela própria era a origem, fustigava seus cabelos e só aumentava.

Os quatro peões por fim levantaram, olhando em pânico para a loira.

— Vão embora daqui, seus M., se quiserem viver! – berrou Samuel. Foi a senha para os quatro saírem correndo e desaparecer.

Daniel, enquanto isso, apanhou o chapéu da loira, e tentou se aproximar dela. Ele não ouvia os gritos de Samuel, enquanto avançava passo após passo. A moça ainda flutuava, e ele conseguiu se esquivar de alguns dos raios que saíam dela.

Finalmente, com um salto, Daniel colocou o chapéu na cabeça da loira. Os dois caíram ao chão.

A próxima coisa que o irmão mais velho viu foi Samuel quase em cima deles, apontando a arma com balas de prata para a moça e gritando:

— Mas que P. é você? Vou te mandar bala de qualquer jeito, então é melhor falar, se quiser que doa menos!

Daniel se levantou e segurou a arma, obrigando o irmão a baixá-la. Samuel não entendeu:

— Tá louco, mano? Não viu o que essa coisa fez?

— Vi sim, e foi você que não viu no chapéu dela.

— Chapéu? Mas que P. é essa de chapéu? – perguntou Samuel, virando-se para olhar para a loira, que já se levantava. – O que tem o chapéu...

— Obrigada por devolvê-lo a mim, estranho – disse a loira com uma voz suave e melodiosa. Ela tirou o chapéu, segurando-o junto ao corpo, e nesse momento Samuel viu.

Na parte da frente, acima da aba, havia uma estrela de cinco pontas cujo brilho variava como um caleidoscópio. A moça passou uma das mãos, e o brilho se espalhou por todo o chapéu. Em seguida, a forma luminosa se alongou e estabilizou, com a estrela em uma das pontas.

— Tá de brincadeira comigo!? – disse Samuel incrédulo.

— Soube no momento em que vi a estrela – comentou Daniel. – E quer guardar essa arma, cacete?

Samuel voltou a apontar a arma para a moça, que disse:

— Sou Ariele, e vim a este lugar para defender os animais de uma presença maléfica.

— A única coisa aqui que não é natural é você, moça – comentou o irmãos mais novo ainda com a arma apontada.

— P., Samuel, já mandei guardar isso! – disse Daniel. E, virando-se para a moça, disse:

— E você, fada, daqui a pouco vai ter um monte de gente aqui por causa dessa confusão. Melhor irmos conversar em um lugar seguro, pois já sabemos dessa presença maléfica.

Daniel apanhou sua mochila do chão e foi andando. Ariele e Samuel olhavam para ele incrédulos, quando o irmão mais velho se virou e acrescentou:

— Ou podem os dois ficar aí se encarando. Vocês que sabem.

Daniel se afastou. A varinha de Ariele voltou a ser um chapéu e ela seguiu o rapaz. Deixado sozinho, Samuel resmungou alguns palavrões, voltou a colocar a arma na mochila, e finalmente os seguiu.

 

— Fadas são seres elementais, como as iaras, alamoas, sacis e outros da nossa terra – explicou Vó Nena. A anciã deu uma forte tossida e prosseguiu: — Não são naturais do Brasil, então os daqui não gostam muito delas. Mas elas não são maléficas como os filhos da P. dos vampiros, que também são estrangeiros no nosso país.

— Vó, essa coisa causou uma confusão dos diabos quando perdeu o chapéu, que na verdade era a varinha dela – disse Samuel com ao telefone. – Tem certeza?

— Os poderes das fadas são enormes, Samuel – disse Tatiana, entrando na conversa. – As varinhas servem para canalizá-los, e também como controle no caso de fadas muito jovens, provavelmente como é o caso da que vocês encontraram.

A vidente fez silêncio por um momento, depois acrescentou:

— E o Daniel, onde está?

— Foi com ela ver mais uma etapa do rodeio.

— Ah, foi? Ele vai ver só quando voltar!

— Fica quieta, menina! – disse Nena. – Samuel, meu neto, a fada disse por que queria ver o tal rodeio? Perceberam alguma outra coisa anormal?

— O comentário que ouvimos por todo lado aqui é que dois peões que eram desconhecidos estão tendo muito destaque. Essa etapa é a semifinal, e parece que eles nunca foram tão longe.

Nena tossiu, e nem ela nem Tatiana falaram nada por alguns segundos. Então a anciã finalmente respondeu:

— Ás vezes, uma filha da P. dessas súcubos não suga a vítima de uma vez. Essas desgraças gostam de manipular, e pode acontecer de fazer isso com mais de uma pessoa, tirando proveito da energia delas.

— A senhora acha então que essa súcubo, a tal da morena gostosa, pode ter influenciado esses peões?

— E a fada pode ter sentido essa energia também – comentou Tatiana. – Acabei de sentir também, Samuel, foi só pensar na Festa do Peão que me veio essa imagem.

Tatiana ficou em silêncio, e depois acrescentou com voz trêmula:

— Imagem de muito sangue e morte, Samuel. E você e o Daniel no meio. Tomem cuidado, pelo amor de Deus!

— Vamos tomar, Tati. Mais alguma coisa, Vó?

— Quando forem matar a coisa, meu neto, tomem cuidado. A fada pode ajudar, mas não confiem muito.

Eles se despediram e Samuel desligou, guardando o celular. Pessoas passavam por eles, apressadas para chegar à arena, onde a semifinal começaria em poucos minutos. E ele voltou a ouvir comentários, aqui e ali, a respeito do incrível desempenho dos dois peões desconhecidos.

Samuel ajeitou a mochila e correu.

 

As arquibancadas estavam lotadas para a competição. Os peões se revezavam no lombo dos cavalos, tentando ficar os oito segundos regulamentares sobre os animais. Estes, por sua vez, escoiceavam e muito, dificultando ao máximo o trabalho dos competidores.

A cada peão que conseguia completar o tempo e pular da montaria o público berrava. Vários deles tinham sua própria torcida organizada, porém vários grupos já haviam deixado a arena, devido à desclassificação de seus favoritos.

Porém, dois dos concorrentes estavam chamando a maior parte da atenção, e também da torcida, na competição desse ano. Quando Mané foi anunciado, aquela parte da torcida que gosta de vibrar com um azarão se ergueu e gritou o nome do peão a plenos pulmões. Depois de se preparar, a porteira foi aberta e Mané tratou de se segurar sobre o cavalo, uma das mãos para cima e a outra firmemente segura na corda que contornava o corpo do animal. A multidão vibrava, e quando os oito segundos se passaram, Mané largou o cavalo, saltou e aterrissou com uma cambalhota.

O peão observou os auxiliares apanharem o cavalo bravo, e abriu os braços. O público vibrou, gritando seu nome.

— Esses brutos estão machucando os animais! Vou parar com isso!

Ariele, observando a cena entre a grade que separava a arquibancada da arena, estava furiosa. Daniel, a seu lado, observou Mané estender o braço e apontar para outro peão que se preparava. O locutor do rodeio anunciou o nome de Severino, e a multidão foi ao delírio mais uma vez.

— Vem cá, foram nesses dois mesmo que você sentiu algo diferente?

— O que importa? – perguntou a fada.  – Os animais estão sofrendo.

— Importa que tem alguma coisa muito ruim aqui, e pessoas podem morrer.

— Não me importo com os humanos.

Daniel olhou para a loira, sorriu com o canto da boca e disse:

— Isso não combina com as histórias que contam sobre vocês.

Ariele se virou para ele, mostrando uma curiosidade que até então Daniel não havia visto, e perguntou:

— Que histórias?

Foi a vez do caçador ficar curioso. Perguntou:

— Nunca ouviu falar em contos de fada? Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, essas coisas?

— Estive pouco no mundo dos humanos, sou uma fada jovem.

Daniel viu aí uma oportunidade, e decidiu tentar obter mais informações.

— E o que veio fazer aqui? Só proteger os animais?

— Sim.

— Mas esse rodeio existe há anos, por que só agora? Vieram outras com você?

Ariele, que até então observava a arena e a multidão, tornou a encarar Daniel. Respondeu:

— Muitas de nós sentiram a escuridão, mas somente eu decidi vir, contra o conselho de minhas irmãs.

— Por que outras fadas não vieram? – perguntou Daniel enquanto voltava a apanhar os binóculos.

Na arena, Severino já estava pronto, e quando a porteira abriu o mesmo roteiro se repetiu. Oito segundos depois ele também saltava do cavalo e agradecia aos aplausos, mas rapidamente olhou nas proximidades do corredor que contornava a arena, parecendo procurar algo.

Subitamente o peão fixou o olhar em um ponto, e seguiu correndo para lá. Daniel moveu os binóculos, e conseguiu ver de relance Mané, o outro peão, com o braço ao redor da cintura de uma morena. A mesma da foto que haviam conseguido.

Daniel baixou os binóculos e pensou em sair correndo para lá. Ariele, nesse meio tempo, respondeu:

— Minhas irmãs acham que a escuridão já cresceu muito, e não devemos nos envolver.

Daniel olhou decidido para a loira, agarrou a mão dela e disse:

— Pois agora você está envolvida mesmo. Vem!

O caçador saiu correndo, desviando das pessoas, puxando a fada com ele.

Chegaram a um ponto do corredor circular que ficava entre a arena e a arquibancada, onde a passagem só era permitida a competidores e imprensa. Um leão de chácara estava ao lado de funcionários da Festa do Peão para desencorajar os mais atrevidos, mas isso não deteve Daniel.

— Somos da imprensa, colega, tá aqui a credencial.

Ariele observou Daniel mostrar ao homem um pedaço de papel. O portão foi aberto e eles puderam passar. A fada estendeu a mão, e o caçador deixou que ela visse o objeto.

— Mas isso é só um papel em branco – disse a fada.

— Mas não é qualquer papel – disse Daniel, guardando-o. – É um pedaço do mesmo bloco onde Getúlio Vargas assinou sua carta-testamento, o maldito.

Daniel, como parte de uma tradição familiar, parou e cuspiu no chão ao falar o nome do ditador, depois explicou:

— Muitas das desgraças que minha avó, eu, meu irmão e outros como nós combatemos começaram com ele, que tinha gente em seu governo trabalhando com magia negra, criaturas maléficas e coisas piores. Esse papel é encantado, e mostra qualquer coisa que pensemos. Mas não funciona com seres mágicos como você. E espere para ver o que a caneta que o bastardo usou faz!

Eles continuaram correndo, e nesse momento o celular de Daniel tocou. Atendeu e ouviu a voz do irmão:

— Cacete, cadê vocês?

— Estamos na área fechada, indo atrás do tal Severino. Ele viu o outro peão com a súcubo.

— E agora, como entro aí?

— Contorne por trás. E você tá com ela, né?

— Tá na mochila, afiada como sempre.

Daniel suspirou aliviado. Disse:

— Que bom, porque acho que vamos precisar!

Desligou, e continuou puxando a fada. Severino, bem distante deles, tomou um corredor lateral que se afastava da arena. Daniel começou a pensar que não conseguiria salvar os dois peões do encanto da súcubo.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 13h54
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Continuação:

Mané se sentia no paraíso. Sheila o agarrava e beijava como se quisesse devorá-lo.

— Ah, minha morena, você é muito gostosa, minha querida!

— Você que é, meu peão campeão – disse a morena sussurrando enquanto lambia sua orelha.

Mané se afastou, olhando nos olhos dela. Eram de uma cor que ele não se lembrava de ter visto antes. Na verdade, pensando um pouco a respeito, pareciam variar entre o castanho, o amarelo e o vermelho. Aquilo, por um instante, pareceu estranho demais, assim como o calor que ele sentia no corpo e nos lábios dela. Mas logo se esqueceu daquilo, voltando a agarrá-la e beijá-la.

— Minha morena, vou ganhar esse rodeio procê!

— Mas não vai mesmo, zé-ruela!

Severino, que havia ficado por um momento olhando a cena, correu e acertou um soco em cheio no rival. Toda sua raiva estava dirigida contra Mané, e só depois se veria com aquela vagabunda... não, espere... por que ficaria bravo com Sheila, a morena mais maravilhosa que já vira? Ia é acabar com aquele safado que tentava se aproveitar dela, isso sim.

Por sinal, o que mais queria era agarrar e traçar Sheila ali mesmo. Mas antes ia acabar com a raça do rival.

— Vou acabar com você, seu frôxo!

— É mesmo, seu fio d'uma quenga? Você e quem mais?

Mané ameaçou algumas vezes, depois deu um salto e caiu ao chão agarrado a Severino. Acertou vários socos no rival, mas recebeu vários golpes também. Tudo que queria era matar aquele safado para ficar com a morena.

Acabar com Mané para poder amar Sheila era tudo que Severino também queria. Enquanto os dois se engalfinhavam pelo chão, nem desconfiavam que trilhas com suas energias fluíam, indo direto para a súcubo. Sheila se deliciava com isso, e mal conseguia se conter na expectativa de qual deles iria sobrepujar o outro, e ganhar o grande prêmio.

O de ser sugado por ela, claro.

 

Tatiana voltava com mais uma bacia com água, para manter úmidos os lenços que punha na testa de Vó Nena. A febre da anciã havia voltado, mas logo que a vidente colocou o vasilhame sobre a mesinha ao lado da cama, sentiu tontura e precisou se segurar para não cair.

— Que foi, filha? – perguntou a anciã com voz fraca.

Tatiana estava trêmula, e precisou fazer um esforço enorme para se manter de pé. Conseguiu sentar-se na cama, e olhou com expressão lívida para Nena. Disse:

— Os meninos estão em perigo!

 

Daniel finalmente encontrou os peões, e ignorando por um momento a morena sorridente que parecia se divertir com a briga dos dois, correu para separá-los.

— Vocês parem com isso, idiotas! – berrou com toda a autoridade que conseguiu.

Severino o encarou com ódio, mas Mané agarrou Daniel pela jaqueta e o jogou para o lado. Os dois peões voltaram a brigar. Daniel caiu, depois se apoiou em um dos joelhos e observou a cena.

Lembrou-se nesse momento de Ariele. Olhou para a direção de onde havia vindo, e a fada estava apoiada em um dormente da cerca, parecendo sentir fraqueza.

— É isso mesmo, caçador? Trouxe uma fada para tentar me enfrentar?

Daniel virou o rosto, e Sheila surgiu diante dele. Assim, bem próxima, ele observou toda sua beleza e sensualidade. Sacudiu a cabeça, mas a voz da súcubo tornou a embalá-lo, enquanto os dois peões continuavam a brigar.

— Sim, Daniel, sei tudo sobre você e seu irmão. E sobre essa aí, que já havia percebido fazia tempo! Muito nova, e incapaz de resistir a mim.

Severino deu um golpe, e Mané foi lançado próximo de Sheila. O peão ficou aos pés dela, ergueu-se, e deu com o olhar da súcubo sobre ele. Sheila estendeu a mão, acariciou seu rosto, depois o puxou para junto de si, beijando-o. Daniel observou um brilho azulado passar do peão para a súcubo, antes que esta segurasse sua cabeça e com um rápido movimento quebrasse seu pescoço.

O brilho se intensificou, e o fluxo azul foi todo para a boca da demônio. Mané caiu morto ao chão.

— Uhn, delícia!

Severino olhava a cena, mas não havia qualquer medo em seu olhar. Dominado pela paralisia que sentia, Daniel estava impotente quando Sheila se aproximou do outro peão, acariciando-o.

— Doce Severino, você foi tão bom para mim! Quero mais desse seu fogo, vá lá e ganhe o rodeio! Depois volte para mim, quero você todinho!

Severino olhou embevecido para a morena, a beijou, e o brilho azulado passou da boca da súcubo para a dele. O peão, depois de mais beijos e abraços, saiu correndo pois os competidores da final estavam sendo chamados.

Sheila se virou para Daniel, que continuava desesperadamente lutando contra a paralisia.

— Está vendo, caçador? Suas esperanças não têm como durar. Como podem esperar nos vencer? Acham mesmo que podem impedir a escuridão?

Daniel arregalou os olhos, enquanto a súcubo acariciava seu rosto.

— A escuridão vai chegar, e quem vai ajudar vocês humanos? – perguntou ela.

Um rápido movimento, e a súcubo foi lançada longe. Ela bateu em uma grossa tora de madeira fincada no chão, partindo-a em duas. Daniel, liberto do encanto da demônio, levantou-se, olhou para o lado e viu Ariele.

— Nós, seres da terra, vamos ajudar, vagabunda!

O caçador mal conseguiu ver Sheila se aproximar, tão rápido que ela mais parecia um borrão, e atingir a fada fazendo-a bater contra a parede de um galpão próximo. O impacto abriu um rombo nele, mas lá de dentro saiu um potente raio que atingiu a súcubo, lançando-a no ar, girando descontrolada até cair e abrir uma vala no chão de terra batida a metros de distância.

Ariele saiu do galpão mancando, com a varinha na mão, delicadas asas vibrando em suas costas e expressão dura no rosto. Daniel se virou, e em meio a poeira viu a súcubo se levantando. Irradiava um brilho vermelho como fogo, e suas roupas ficaram em frangalhos. Sua pele rachou e quebrou, grandes pedaços que caíam ao chão e queimavam até sumir. Seus olhos ficaram amarelos, e ela disse:

— Vou matar vocês, hoje vão conhecer o verdadeiro inferno!

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 13h53
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - SHEILA E ARIELE

Continuação:

A súcubo abriu a boca, e um jato de chamas quase atingiu Daniel. Ele rolou pra o lado, já com uma pistola em punho, e disparou várias vezes contra a demônio.

A súcubo olhou para o próprio corpo, nos buracos feitos pelas balas de prata e que em poucos segundos se fecharam. Depois olhou para Daniel com um sorriso grotesco, antes de ser atingida por um tiro bem na testa. Ela ficou imóvel por um instante antes de cair de costas.

O caçador e a fada se aproximaram cautelosamente. Daniel mantinha a arma apontada, olhando o corpo ainda escultural da súcubo, agora nu e coberto por uma pele vermelha onde se viam marcas e linhas em preto e amarelo, delineadas por vários tons de vermelho. Ariele olhou por um momento, depois bateu as asas mais forte e flutuou para longe.

Nesse momento a súcubo abriu os olhos, chutando a arma na mão de Daniel e agarrando sua perna. Com um rápido giro lançou o caçador longe, atingindo Ariele. Os dois caíram ao chão, enquanto a demônio ficava em pé.

— Estou começando a me entediar, isso é tudo que têm?

Daniel olhou para ela, observando uma sombra se aproximando rapidamente por trás da súcubo. Em um rápido movimento, a cabeça do monstro foi separada do pescoço e caiu ao chão. O corpo se manteve poucos instantes antes de desabar também.

Os olhos da cabeça cortada ainda piscavam em desespero, enquanto Samuel brandia uma comprida faca para que todos vissem.

— A peixeira que decapitou Lampião, o Rei do Cangaço. Nunca falha!

Os olhos na cabeça da súcubo ficaram vidrados, e seu corpo parou com os espasmos. Ambas as partes finalmente pegaram fogo e queimaram em instantes, não deixando o menor rastro.

Samuel se aproximou, e ajudou o irmão a se levantar. Ariele se pôs de pé, escondendo as asas.

— Outros humanos estão vindo – ela disse.

— Já encerramos por aqui – comentou Samuel. – Melhor irmos.

Os três se afastaram em passos rápidos, mas Daniel teve tempo de dar um soco no braço do irmão:

— Cacete, onde você estava!

Samuel riu, e respondeu:

— Fiquei olhando a luta de vocês, tentando decidir o melhor momento de atacar. Eu que não queria apanhar daquela coisa.

Daniel sentia-se todo dolorido, mas estava decidido a não dar mais motivos de piadas para Samuel. Tentando não mancar, no que não estava sendo bem sucedido, acompanhou o passo do irmão e da fada. Ouviram os gritos e comentários de pessoas, certamente diante do corpo de Mané, mas nesse caso não havia nada que pudessem fazer.

 

Severino acabou sendo a grande decepção da Festa do Peão. Já montado no cavalo para sua apresentação na grande final, de acordo com as descrições dos auxiliares exibiu subitamente a expressão de quem não sabia o que estava fazendo ali. A porteira se abriu, e em menos de três segundos o peão anteriormente revelação estava no chão.

— E é assim que acaba – comentou Daniel. – A influência da súcubo sobre ele sumiu, e toda a energia também.

— No fim, pode até se considerar um sortudo – acrescentou Samuel. – Viveu para montar outro dia.

— Vocês humanos são estranhos.

Ariele estava ainda mais radiante do que antes, comprovando que a influência da súcubo havia afetado até a ela. Alguns frequentadores da festa olhavam com desejo para a loira, mas a presença dos dois irmãos os mantinham longe.

— E agora? – perguntou Daniel.

— Vou voltar para junto de minhas irmãs, e contar o que vi aqui. Sei que vocês e outros seres naturais deste país nos consideram invasoras, mas também somos espíritos desta terra, e sentimos a influência nefasta que se aproxima.

Daniel e Samuel se encararam. O irmão mais novo nunca gostara de estar na presença de seres encantados, e se afastou. Entretanto, antes disso fez um pequeno sinal para a fada com a cabeça.

— Seu irmão não gosta de mim, mas o que foi isso que fez com a cabeça?

Daniel riu, olhou para Ariele e disse:

— Ele não gosta de nenhum ser que não seja humano. Mas não se preocupe, foi um sinal de cumprimento. Ele deve ter gostado de saber que você me ajudou.

A fada encarou diretamente o caçador. Os olhos dela eram do azul mais profundo e cintilante que se poderia imaginar, e Daniel ficou pensando que seria fácil se apaixonar por ela. Mas naquele momento ele só queria abraçar Tatiana.

— E eu também preciso agradecer. Se não fosse você, aquela súcubo poderia ter acabado comigo – comentou Daniel ao chegarem a um local discreto. Estendeu a mão, que a fada tomou em um cumprimento.

— Vocês devem tomar cuidado – disse Ariele. – A súcubo estava certa. Um tempo de trevas se aproxima, e vocês vão precisar de toda a ajuda possível.

A fada abaixou a cabeça, depois voltou a olhar para ele por um instante. Estendeu suas asas quase transparentes, elevou-se no ar, e de repente se tornou um ponto de luz, que revoou pela área antes de desaparecer.

Samuel já aguardava junto ao Fusca.

— Como é? – perguntou Daniel em tom divertido. – Você do lado do Fusca da Vó Nena?

— Para quem encarou, na mesma tarde, uma fada e uma súcubo, esse Poizé aqui é fichinha.

O carro ligou sozinho, fazendo Samuel estremecer de leve. Mas o irmão mais novo da dupla se conteve, e entrou no carro depois que Daniel abriu a porta do passageiro.

— Já contei tudo para elas. Vó Nena teve febre agora no final da tarde, mas já está melhor de acordo com a Tati. Sua namorada teve uma visão, aliás, e está preocupada.

— Vou ligar assim que sairmos deste estacionamento – comentou Daniel.

Depois de esperar um carro manobrar e entrar em uma vaga próxima, eles saíram com o Fusca. Já havia uma picape com quase dez pessoas na caçamba esperando para estacionar na vaga da qual saíram. Dois jovens foram os primeiros a descer da caminhonete, e um deles apontou para o carro dos irmãos antes de socar o braço do outro. O restante do grupo deu risada, e alguns repetiram a brincadeira, enquanto o Fusca se afastava.

Vó Nena e os Caçadores retornarão.

Espero que tenham gostado da segunda história de Vó Nena e os Caçadores! Lembrando que o primeiro conto com eles já foi publicado aqui no Escritor com R, podem conferir a Parte 1 clicando aqui, e a Parte 2 aqui.

Esse link abaixo, Seu Comentário é Importante, é importante mesmo! Portanto gostaria que o usassem para uma pequena enquete, vocês leriam uma história de Vó Nena e os Caçadores com os palavrões por extenso? E sim, em breve teremos o primeiro ebook deles.

Já que estamos nos ebooks, aproveitem e confiram nos links minhas obras já publicadas, pois lembrem que é permitido alimentar os autores nacionais:

De Roswell a Varginha

Filhas das Estrelas

O Império, o Meteoro e a Guerra dos Mundos

Retrofuturismo - um compêndio do Comendador Romeu Martins sobre as variantes do punk e suas associações inimagináveis

A Lista: Fenda na Realidade


 

A Lista: Nêmesis

Além disso, não deixem de visitar o Corujice Literária!

Então, convido os leitores a continuar acompanhando o Escritor com R, em breve mais posts, contos e muito mais.

Até a próxima!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 13h53
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UM LONGO SEMESTRE, LANÇAMENTOS E NOVIDADES

Olá, caros leitores. Finalmente pude escrever-lhes, pois os tempos não têm sido fáceis. Foi um longo semestre, cheio de idas e vindas, reviravoltas, surpresas, incidentes, e os planos de retornar a postagens mais frequentes no blog foram sendo deixados de lado.

Mas finalmente consegui aprontar algo que vale a pena postar aqui. O primeiro assunto é meu primeiro lançamento pela Amazon, novamente pela série A Lista. A Lista: Fenda na Realidade, foi pensado a princípio para uma antologia, mas aquelas idas e vindas mencionada acima, mais coisas menores que não vêm ao caso, me levaram à decisão pela publicação independente. O ebook tem tido uma boa trajetória, frequentemente entre os mais vendidos do subgênero da Space Opera, então convido vocês a conhecê-lo:

Chegando a Alpha Centauri, na primeira expedição interestelar da humanidade, a nave Icarus se depara com um estranho fenômeno, com potencial de destruir não somente sua realidade mas várias outras. De outro universo, um brilhante astrofísico e matemático observa o mesmo rasgo na realidade. Poderão eles trabalhar juntos e salvar o Multiverso?

Dedicado à memória de Carl Sagan e Neil Armstrong.

O link 1 (clique aqui) é na Amazon brasileira.

E o link 2 (clique aqui) é na internacional.

Recentemente publiquei mais uma história, A Lista: Nêmesis, para participar do concurso Brasil em Prosa da Amazon:

Os sobreviventes de uma expedição condenada chegam a um novo mundo, onde fazem uma extraordinária descoberta.



Quer conferir (ainda gratuitamente pelos próximos dias), clique aqui.

Além disso, estamos com uma parceria com o blog Corujice Literária, e a já tradicional colaboração com o site Aumanack.

Saiu recentemente o fanzine Conexão Literatura número 02, com destaque de capa para Edgar Allan Poe, e um artigo meu sobre Literatura & Alienígenas.

Quanto ao mais, planos estão sendo feitos, outros retomados. Aqui no Escritor com R haverá certamente novos textos em breve, contos da Lista, contos de Vó Nena e os Caçadores (gostaram da história de estreia, que pode ser conferida abaixo?), e outras novidades na medida do possível.

Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 20h12
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - NECULAI E A ESCURIDÃO

Vó Nena e os Caçadores - Neculai e a Escuridão

O potente motor V-8 roncava alto, enquanto o Dodge Charger R/T percorria em alta velocidade a estrada do interior.
- Droga, droga, droga! – não parava de repetir Daniel. Era o mais velho, e deveria ter protegido o irmão. Samuel, o caçula da dupla, sempre fora o mais impulsivo.
Daniel olhou no retrovisor por um momento, enquanto fazia o Dodge atingir quase 200 km/h na estreita estrada.
- Está muito ruim? – perguntou com voz aflita.
Samuel estava com um corte na face esquerda, e segurava o braço direito quebrado com a outra mão.
- Eu aguento... acelera essa p.!
Daniel se concentrou na estrada, desviando de carros mais lentos em manobras que rendiam longas buzinadas, e ele imaginava, vários sinais desagradáveis feitos com o dedo médio.
- Nunca xingue meu carro!
Sorriu de leve. Se Samuel estava xingando, era sinal de que estava bem.
- O que você estava pensando, Samuel? Enfrentar Neculai como se fosse um desses vampiros porra-louca de hoje? Teve sorte dele não arrancar sua cabeça!
- Acha mesmo, mano, que não estou aqui desesperado? Ele pegou meu celular e o primeiro contato é a Vó Nena! Acelera isso!
- Estou acelerando, caramba! E você sabe muito bem que o segundo contato é a Tatiana... E como ainda tem gente que é fã desse monstro? Aquele débil mental do programa na Internet que ele trucidou... o que acontece com esse mundo?
- Vó Nena tem falado muito na escuridão se aproximando – disse Samuel entre duas tossidas. – Vai ver essa onda de retardamento mental aborrecente seja um sintoma.
Daniel sorriu de novo. Seu irmão ia viver, se estava transbordando sarcasmo daquele jeito. Porém, o desespero deles aumentava. Conseguiriam chegar a tempo?

Tatiana ouviu o celular tocar. Olhou ao redor, para o aposento tomado por símbolos de magia e ritualísticos, e encarou os olhos profundos e experimentes da figura frágil à sua frente. Agachou-se e colocou o celular no centro do círculo, apertou a região adequada da tela, e suspirou fundo.
- Alô – disse, tentando parecer tranquila.
- Alô, Tati! Foi um horror! Esse vampiro Neculai é forte demais, não conseguimos detê-lo! E agora ele tem o seu número e o da Vó Nena...
- Cala a boca, seu monstro filho de uma p. – disse uma voz vigorosa. – Pare de querer imitar meu neto Samuel e apareça!
A voz que emergiu a seguir do celular no chão poderia ser descrita de muitas formas, mas definitivamente não era humana.
- Cuidado com o deseja, Vó Nena...

Neculai surgiu no instante seguinte.
- Estou com fome! Ah, Tatiana, posso ver porque Daniel ficou tão preocupado, você é tão linda... Ele vai sentir fortes emoções ao te ver, depois que eu terminar...
O vampiro estendeu a mão na direção da vidente morena, porém um crepitar o obrigou a recolhê-la. Segurou a mão, que ficou avermelhada. Olhou para o chão, e observou o pentagrama artisticamente desenhado no revestimento, e o círculo de sal grosso e alho, com pouco mais de um metro, onde estava confinado.
Neculai ergueu o rosto, exibindo os dentes afiadíssimos em um sorriso macabro, e apanhou o celular do chão enquanto olhava para as duas.
- Então, vocês são versadas nas artes ocultas, não é mesmo? Não que vá ajudá-las muito.
Tatiana não conseguia parar de olhar para o rosto monstruoso. Neculai a observava com volúpia, mas desviou o olhar para a figura miúda do outro lado.
- Vó Nena! Já ouvi falar muito na senhora! Estou de fato honrado em conhecê-la! Vou até contar algo que poucos humanos sabem, os monstros também às vezes se entretêm com histórias horripilantes, e saiba que a senhora é personagem de muitas delas!
- Bom, eu fiz por merecer, seu filho de uma p.!
- Ah, e a linguagem chula das histórias também é verdade – deliciou-se Neculai. – Este momento é tão excitante que quase me fez esquecer minha fome.
- Vó – disse Tatiana, cada vez mais insegura. – Então este é Neculai?
- Sim, filha. Um dos Antigos! – disse Nena do alto de sua sabedoria. – Eles, de linhagens mais puras, têm esses poderes bem maiores que os outros sanguessugas que já conhecemos. Talvez esse bicho feio aqui seja mesmo uma das primeiras pestes trazidas prá nossa terra, pela maior calamidade de todas!
- Sim, Tati, querida, sou diferente dos demais! – zombou Neculai. – Não sou desses personagens de romances, especialmente as fadinhas purpurinadas daquela autora. E entretanto, saiba que existe um entendimento tácito entre nós, vampiros, de não atacar esses escritores. Claro, pois nos beneficiam muito com suas histórias! Estamos nos tornando heróis graças a eles!

Tatiana sorriu de leve, encarou o vampiro e respondeu:
- Pois as fadas de verdade que conheço ficam muito ofendidas com essa comparação.
Neculai sorriu mais ainda, parecendo se divertir com a situação. Depois girou o corpo, olhando para Nena.
– E suas palavras a traem, velha! Tenho que admitir que conseguiram me surpreender com sua estratégia mágica, o pentagrama e o feitiço. Mas começo a perceber que não sou eu mesmo, realmente, o alvo de sua caçada, certo?
Tatiana olhou para Nena com expressão preocupada. A anciã lançou-lhe um olhar  de alerta, mas em seguida Neculai virou-se para Tatiana.
- Tão linda... e com tanto medo! Crescendo, tomando conta de sua mente, como um fogo dentro de você, consumindo-a... está sentindo, Tati? Sinto o cheiro de seu sangue, temperado pelo desespero!
Tatiana olhou para Neculai, e finalmente viu. Séculos de morte, chacina e violência, vítimas incontáveis, tudo sob um véu vermelho da cor do sangue. A visão vinha em ondas cada vez maiores, pois o próprio Neculai permitia que visse.
- Ah, Tatiana, sim... sim! Entregue-se ao desespero! Entregue-se a mim!

O vampiro deu um salto, e conseguiu sair do círculo de proteção. Somente suas roupas arderam em pequenos pontos, que ele apagou simplesmente batendo com as mãos. Tatiana e Nena deram-se as mãos, encolhendo-se em um canto. A anciã se apoiava na bengala.
- Então, qual das duas vai ser primeiro? – perguntou Neculai. – Ah, mas claro, já que me proporcionaram tanta diversão, além de uma farta refeição, vou dizer o que querem saber.
Neculai aproximou-se vagarosamente, ficando a três passos delas. Nena segurava firme a mão de Tatiana, que estava trêmula e ameaçava ceder em definitivo ao desespero.
- Sim! – disse o vampiro. – Pude ver os pensamentos da vidente, e ela está correta. A escuridão está chegando! Na verdade é um tanto incorreto, desculpem... A escuridão sempre esteve aqui, nesta terra tão agradável a nós, vampiros, onde se mata por quase nada, onde humanos exploram, segregam e enganam humanos, encontrando as mais magníficas e torpes justificativas para seus atos. Sim, para nós, o melhor do Brasil é mesmo o brasileiro! E o mais saboroso também...
O vampiro virou a cabeça, parecendo olhar para outros lugares, outros tempos. Em seguida tornou a focar toda sua atenção nelas.
- A escuridão está chegando, e não há nada que possam fazer. Ele nunca será detido! Sempre haverá alguém ansioso para desfrutar das vantagens que ele oferece, como era mesmo aquela propaganda? “Levar vantagem em tudo”, quem acha que a inspirou? Ah, por causa dele o Brasil é esse jardim das delícias. E falando em delícias...
Neculai avançou. Nena deu um passo e ficou entre ele e Tatiana, e ergueu sua bengala como se fosse uma espada.
- Sério, velha? – perguntou Neculai parando a um passo delas. – Vai me acertar com a bengala, é isso?

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 17h31
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VÓ NENA E OS CAÇADORES - NECULAI E A ESCURIDÃO

Continuação...

Vó Nena segurou firme sua bengala, mantendo Tatiana encolhida atrás de si. Neculai abriu um largo sorriso, mostrando as aterradoras presas, no momento em que a anciã desferiu o golpe.
Neculai aterrissou no outro lado do cômodo, derrubando uma mesa com livros e utensílios. O vampiro, surpreso por ter ficado grogue com o golpe, levantou-se devagar.
- Como...?
- Pau Brasil, seu filho de uma grande p.! – disse Vó Nena brandindo a bengala. – Desde o começo, muito bom para machucar vocês, demônios!
Neculai se apoiou em uma cadeira e levantou, andando de lado sem tirar os olhos do rosto de Nena.
- Acha mesmo que conseguirá vencer, velha? Não eu, mas todos os monstros e demônios à solta?
- Sei que vou, seu canalha! – disse Vó Nena, sempre com a bengala em riste.
Neculai soltou uma pavorosa gargalhada.
- Já se esqueceu em que país está, Nena? Até eu ganhei um fã clube! Aqui os políticos, aliás a classe que mais se aproveita da presença dele, de seu principal alvo, roubam sem parar e o povo torna a elegê-los! Sempre haverá egos inflados, ganância e sede de poder, e sempre haverá monstros como eu para tirar proveito!
Foi a vez de Vó Nena rir.
- Todos esses séculos, Neculai, e você ainda não aprendeu o principal. Em meio a escuridão, mesmo a menor fagulha espanta as trevas!
Nena se aproximou erguendo a bengala, e revelando uma estaca na outra mão. Porém Neculai foi mais ligeiro, deslizou para o celular que ainda estava no círculo, e ignorando a dor das queimaduras devido à energia mágica, apertou um comando. Desapareceu no mesmo instante, mas sua voz ainda pôde ser ouvida.
- Vamos ver se seus contatos, Nena, irão gostar de minha visita!

Um potente barulho de motor, seguido pelo guincho de uma forte freada, vieram lá de fora. No instante seguinte Daniel e Samuel entraram correndo.
- Cadê o maldito? – perguntou Daniel apontando a espingarda municiada com balas de prata.
Nena sentou-se em uma cadeira. Estava cansada, apoiou as mãos na bengala e disse
- Calma, meus netos, ele foi embora. Samuel, venha cá e deixe sua avó ver esse braço.
Tatiana, refeita dos momentos de terror, correu e abraçou Daniel. Trocaram um longo beijo. Samuel por sua vez obedeceu e se aproximou. Nena examinou o ferimento e disse:
- É, mágica não vai resolver isso. Daniel, deixa esses agarramentos prá depois e leva seu irmão pro hospital.
- Vó, o que rolou aqui? – perguntou Samuel. – Vocês tão vivas, não dá prá acreditar! Aquele vampiro filho da p...
Samuel tomou um dolorido peteleco da avó, que disse:
- Olha a linguagem, moleque!
- P., Vó, doeu!
Outro cascudo, ainda mais doído. Daniel e Tatiana, ainda abraçados, pararam de se beijar para apreciar a cena, que sempre se repetia.
- P. é o c., moleque! – gritou Vó Nena. – Tô te educando! Agora entra naquela banheira que seu irmão chama de carro, e vá pro hospital tratar desse braço!
Tatiana ajudou a levar Samuel até o Dodge, e o mais novo dos irmãos ainda reclamava, massageando o cocuruto.
- Caramba, como ela é quase um metro mais baixa que eu, e consegue me bater assim?
- Anos de prática – riu Daniel.
Os dois irmãos entraram no Dodge, que logo sumiu na noite. Tatiana entrou, bem a tempo de acompanhar Vó Nena atendendo ao celular.
- Vó, tem certeza que é seguro?
- Minha filha, aquele ordinário daquele vampiro que nem pense em voltar aqui. – apanhou o celular e apertou o comando de atender – Alô.

Pelo aparelho puderam acompanhar gritos, e a mesma voz inumana de antes.
- Nena, Nena... muito esperto de sua parte! Só havia um contato no celular, e quem diria? Era de seu maior inimigo nesta cidade! Apareci bem no meio de um culto, a confusão como pode imaginar foi enorme, e devo dizer que os dois seguranças dele e uma das fiéis estavam deliciosos.
- Mandou ele pro culto do vereador Ramalho? – perguntou Tatiana.
Nena olhou divertida para a moça, sem responder. Neculai, por seu lado, disse:
- Mas acho engraçado, velha, dizer que luta pelo lado da luz, e mandar um monstro como eu para cá. Os dois homens e a mulher que matei deveriam ter família, e provavelmente só estavam fazendo seu trabalho, e ela certamente queria algum alívio das agruras de sua vida.
Elas sentiram a voz do vampiro muito mais próxima, quando ele sussurrou:
- Não acha que isso contará contra você, quando chegar sua hora de prestar contas lá em cima?
- Neculai, tudo é questão de equilíbrio – disse Nena. – E nesse quesito, maldito, pode apostar que fiz muito mais bem do que mal. Vocês acham que vão vencer, mas os Caçadores e os seres da terra, os Encantados, vão acabar com vocês e com essa guerra.
- Veremos, Nena, veremos. Até lá, não desgrude de seu celular!
E com essa frase Neculai desligou. Vó Nena descansou o celular na mesa, voltou a apoiar as mãos na bengala de Pau Brasil, e ficou em silêncio meditando.

- Vó... desculpe...
Tatiana puxou outra cadeira e sentou-se diante de Nena. A anciã segurou a mão da vidente, olhando-a com ternura, e perguntou:
- Desculpar por que, filha?
Tatiana baixou a cabeça. Nena estendeu a mão e ergueu seu queixo.
- Não fui forte o bastante – disse por fim Tatiana. – Ele iria demorar mais para sair do círculo, se eu não tivesse fraquejado.
- Besteira, menina! – disse Nena. – Você e os meninos nunca tinham enfrentado um dos Antigos antes, e estão vivos depois de tanto medo e sofrimento. E isso já quer dizer que venceram. Da próxima vez, estarão preparados!
Nena observou Tatiana, enquanto acariciava seus longos cabelos escuros. Depois uma sombra desceu sobre seu olhar, e ela disse:
- Filha, você viu as vítimas de Neculai, eu sei. Mas tenho que perguntar, e o que mais?
A expressão de Tatiana se tornou sombria, e parte de sua mente se esforçou para afastar o inominável pavor que ameaçava tomá-la. Nena, observando-a atentamente, ficou com pena da moça. Finalmente a vidente disse:
- Vi o que o vampiro comentou. Todos tentando levar vantagem. Brigas de ego, as pessoas querendo impor suas vontades ou opiniões umas sobre as outras, ganância, ódio, intolerância, perseguição... conflito, violência. E a escuridão cobrindo tudo e todos.
Tatiana suspirou. Voltou a baixar a cabeça, mas logo a ergueu de novo, encarando a anciã.
- Vó, e quem era ele, de quem vocês falaram?

Vó Nena olhou para Tatiana, mais séria do que a moça jamais havia visto. Ergueu-se, caminhando amparada pela bengala. A moça se levantou e a seguiu, e seguiram juntas até o quintal da casa. O céu estava estrelado, como somente no interior se pode ver, e se viam no extenso gramado as três árvores de Pau Brasil, plantadas havia décadas pelos pais de Nena. Além deles, a cerca de madeira que delimitava a propriedade, e a primeira das casas vizinhas.
Vó Nena olhou para aquele bucólico panorama por alguns momentos, depois se voltou para Tatiana. Ainda manteve um longo silêncio antes de responder:
- Uma coisa que antes de hoje achava que era só lenda, filha. Uma coisa para a qual todos vamos ter que nos preparar. E muito.

Neculai criado por Adriano Siqueira

Vó Nena e os Caçadores criados por Renato A. Azevedo

Vó Nena e os Caçadores retornarão


Espero que tenham apreciado este primeiro conto de 2015, caros leitores! Devo dizer que sempre fui, e sempre me apresento, como um escritor de Ficção Científica, mas por que não experimentar com outros gêneros, saindo de sua zona de conforto? Os mundos mágicos da Fantasia apresentam tantas possibilidades, que afinal tenho elaborado algumas histórias com novos personagens, dos quais os principais são Vó Nena e os Caçadores. Nós os encontraremos muitas vezes ainda, podem ter certeza!

Quero agradecer ao amigo e colega Adriano Siqueira, que permitiu que eu utilizasse sua mais recente criação, o vampiro Neculai, nesta história (a imagem logo acima, aliás, tem também seu crédito). Não deixem de participar do grupo Neculai, Sangue e Desespero no Facebook, e de conferir o estupendo site Contos de Vampiro e Terror! Se houvessem mais pessoas como o Adriano na Literatura Fantástica Brasileira, estaríamos em muito melhor situação com certeza!

Aos que desejarem conferir meu livro De Roswell a Varginha, escrevam para o e-mail ao final deste post. E gostaria de convidá-los para ler meu segundo livro, Filhas das Estrelas, em versão digital. E também estou no Somnium 110, editado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica, na antologia Adeus Planeta Terra, e na antologia Monstros da Editora Buriti, organizada pela amiga Georgette Silen.

Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 17h30
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O MUNDO MAIS ANTIGO DO UNIVERSO

Já fazia tempos que queria escrever aqui a respeito de uma das mais espantosas descobertas do ano. Em junho foram confirmados dois planetas orbitando a Estrela de Kapteyn, a somente 13 anos-luz de distância de nós. Um deles, Kapteyn b, se situa precisamente na região habitável da estrela, com um ano ou período de somente 48 dias terrestres. Tão perto de seu sol e ainda habitável, pois a Estrela de Kapteyn, descoberta por Jacobus Kapteyn em 1897, é uma anã vermelha.

Mas o mais extraordinário é que esse sistema é antiquíssimo, pois a Estrela de Kapteyn tem idade estimada de 11,5 bilhões de anos.

Pense a respeito! Esse planeta, Kapteyn b, ocupa a região habitável de sua estrela desde muito antes da formação de nosso Sistema Solar, há 4,6 bilhões de anos. Há realmente a possibilidade de a vida ter tido um tempo inacreditavelmente longo para se desenvolver nesse mundo, e as possibilidades são absolutamente espantosas. Com tempo suficiente, quem sabe até mesmo seres complexos e inteligentes tenham tido tempo de evoluir, de novo, antes mesmo do surgimento do Sol e da Terra! E isso a meros 13 anos-luz daqui, tão perto, em termos cósmicos, quanto ali na esquina.

Recomendo fortemente que os leitores visitem alguns ótimos links a respeito:

Link 1

Link 2

Link 3 (e não é ótimo somente porque fui eu o autor, certo?)

Link 4 em inglês

Link 5 em inglês e com um vídeo.

E sugiro ainda que acompanhem esses dois sites:

Enciclopédia dos Planetas Extrassolares

Catálogo de Exoplanetas Habitáveis.

Finalmente, um dos elementos mais sensacionais a respeito da descoberta de Kapteyn b foi o pedido da equipe responsável para que o o astrônomo e escritor de ficção científica Alastair Reynolds escrevesse sobre esse histórico achado. E Reynolds elaborou uma das melhores histórias que já li nos últimos tempos, intitulada Sad Kapteyn, e que pode ser lida no original em inglês neste link.

Quando me foi solicitado que escrevesse um artigo sobre exoplanetas para a revista UFO (mais informações lá embaixo), acrescentei um box com esse conto traduzido para o português. Infelizmente ele ficou de fora do processo de edição, mas agora apresento abaixo a tradução para vocês, espero que gostem!

Civilização encontrada em Kapteyn b

Este conto tem o título original Sad Kapteyn, e foi escrito por Alastair Reynolds. O original pode ser lido em Ph.qmul.ac.uk/sad-kapteyn. Tradução por Renato A. Azevedo.

Olá, Terra. Sou eu de novo.

Espero que estejam recebendo meu sinal alto e claro.

Vocês ficarão felizes em ouvir que me aqueci novamente após os longos séculos da fase de cruzeiro interestelar. Realizei um completo diagnóstico, e posso confirmar que todos os meus sistemas estão funcionando normalmente. Melhor que isso, na verdade. Ainda que pareça ostentação, estou na verdade em grande forma. Propulsão, núcleo do computador da Inteligência Artificial, sensores de longo alcance e instrumentação, navegação e arranjos de comunicações, eu não poderia estar em melhores condições.

Nada mau para uma peça de hardware espacial que já visitou seis sistemas solares, sem jamais ter retornado para o planeta de origem. Claro, não posso tomar o crédito para mim. Somente fui bem manufaturada, construída para durar milhares de anos.

De tudo, obrigado por me criarem.

Vamos aos negócios portanto, e eu mal consigo começar a contar a vocês o que descobri, aqui na Estrela de Kapteyn! Este realmente é um extraordinário lugar, um sistema solar como nenhum outro que já visitei. Queria que pudessem estar aqui comigo, ver essas coisas através de meus olhos.

Realizei uma checagem em meus arquivos e entendo porque vocês me enviaram à Estrela de Kapteyn. Ao contrário de outros sistemas que visitei, este sol e sua pequena família de planetas não são parte do grupo normal de estrelas orbitando no disco e no bojo da galáxia. Esta estrela é natural do halo galáctico, membro de uma população dispersa de estrelas e aglomerados estelares, que circundam a Via Láctea em uma grande e tênue esfera. É inteiramente possível que essas estrelas não fossem originalmente parte de nossa galáxia, mas vieram de uma outra após uma colisão gravitacional. E algumas dessas estrelas são incrivelmente antigas, mais velhas e veneráveis, talvez, que qualquer estrela residente no disco galáctico.

A Estrela de Kapteyn realiza suas reações nucleares de forma tão lenta e estável que mesmo meus instrumentos não conseguem apontar um limite superior para sua idade. Pode ser quase tão velha quanto o Universo.

E seus planetas?

Quase tão antigos também.

Façam com essas informações o que quiserem, mas sinto a idade deste sistema em meus ossos. Claro, queria dizer na verdade meu chassi. Não tenho ossos, sei disso. Mas acreditem em mim, este sistema realmente parece perdido no tempo. O silêncio e placidez são quase insuportáveis. Nada aconteceu por aqui por giros inteiros de toda a galáxia, e nada irá acontecer. A Estrela de Kapteyn continua a brilhar fracamente, ao longo de sua inacreditavelmente extensa vida. Os mundos mortos percorrem suas órbitas mortas.

Mas uma vez, havia alguma coisa.

Eu sei, estou tomando liberdades. Eu deveria ter enviado meu sinal de início de operações antes de realizar qualquer investigação. Mas não consegui resistir. Vocês me construíram muito curiosa.

Encontrei sinais de uma civilização.

O primeiro planeta, Kapteyn b, ainda circula na região habitável da estrela, orbitando uma vez a cada quarenta e oito dias. Agora não existe nada vivo lá, nem sequer uma atmosfera, mas certa vez havia uma cultura tecnológica.

Sim, a primeira que encontramos. A razão primeira pela qual fui construída.

O que acham desta descoberta?

O fato é, não foi difícil detectá-la. Cidades cobrem quase toda a superfície desse mundo. Estruturas enormes, que deveriam ter atingido o espaço! Discos e torres e os remanescentes do que acredito terem sido elevadores espaciais, subindo da superfície até órbitas geossincrônicas. Uma lua, sua superfície coberta pelo mesmo tipo de arquitetura. Evidência de colonização no segundo planeta, Kapteyn c, mesmo em sua órbita muito mais fria.

Maravilhas sem comparação, mas desgastadas em um tipo de uniformidade cinza como túmulos, depois de éons de micrometeoritos e bombardeios de raios cósmicos. Cidades mudas como esfinges.

E nem o menor sinal de vida em lugar nenhum.

Kapteyn b tem crateras do tamanho de continentes, e fico pensando se são sinais de alguma catástrofe realmente colossal. Um acidente cósmico, ou coisa pior? Qualquer que seja o caso, os construtores destas cidades se foram há muito tempo. Talvez estejam mortos desde antes que a Estrela de Kapteyn fosse removida de sua galáxia original.

Diante do risco de especular tanto diante de tão poucas informações, não posso evitar elaborar algumas teorias. Eu também fui o produto de uma civilização tecnológica, com a capacidade de transformar um planeta, colonizar outras luas e mundos, construir arrojadas estruturas. O povo de Kapteyn b era claramente mais avançado que vocês, meus próprios construtores, mas com tempo suficiente, vocês também poderiam transformar um mundo dessa maneira.

Algo para se pensar a respeito, não é mesmo?

Bem, estou encerrando esta transmissão. Irei realizar algumas explorações neste sistema, e talvez lançar alguns pacotes de instrumentos na superfície de Kapteyn b. Haverá algum perigo, pois precisarei ficar em uma órbita baixa, e quem sabe o que pode acontecer? Ainda assim, é um risco que estou preparada para assumir. Vocês me fizeram assim, e estou grata por tudo que pude ver e fazer.

Mas vejam.

Sei que é coisa pouca, e eu não queria incomodá-los com isso. Mas já faz bastante tempo desde que recebi a última mensagem de vocês. Coloco muito esforço nessas transmissões, e seria muito bom, mesmo que apenas uma vez, saber se há alguém em casa ouvindo-as.

Apenas isso, me respondam se ainda se importam, se ainda estão aí?


Gostaram? Enfim, se quiserem conferir a UFO 217, basta clicar neste link, ou visitar sua banca de preferência. A capa ficou bonita, hein?

Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 11h23
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Retomando as atividades, e está chegando a Copa do Mundo

Muita, muita coisa aconteceu desde o mais recente post neste blog há mais de um ano.

A notícia mais triste, que chocou a literatura fantástica brasileira, foi o encerramento de atividades da Tarja Editorial. Por essa editora lancei meu primeiro livro, De Roswell a Varginha, além de ter participado das antologias A Fantástica Literatura Queer Volume Laranja, e Retrofuturismo. Se vocês forem ao site da Tarja Livros, poderão conseguir algumas dessas obras.

No final de 2013 tivemos O Hobbit: a Desolação de Smaug, filme fantástico e que me fez ficar sonhando com Tauriel... Apesar de alguns reclamarem das mudanças em releção ao livro do grande J.R.R. Tolkien. A maioria destes parece não entender que as linguagens literárias e cinematrográficas são diferentes. Brevemente, espero, conseguirei escrever um prometido artigo a respeito para o site Aumanack, que aliás, vocês devem visitar clicando aqui!

Vimos o adeus de mais um Doctor Who, Matt Smith, e dissemos olá para o mais novo Doutor, Peter Capaldi. Cosmos retornou, honrando a maravilhosa obra-prima do inesquecível Carl Sagan, agora apresentado por Neil deGrasse Tyson. Novos mundos foram descobertos, incluindo o mundo habitável mais próximo do nosso, e mais antigo também, Kapteyn b. Ah, e leiam o conto inspirado pela descoberta, é sensacional!!!

E nesta semana, claro, tem a tal da Copa do Mundo. Alguns têm protestado, dizendo "não vai ter copa", coisas e tais. Mas agora, após bilhões serem gastos na preparação, e outros tantos roubados? Por que não protestaram há anos, quando o Brasil se candidatou? Uns e outros estão prometendo bagunça, aliás, esquecendo-se da mais elementar regra da convivência: seu direito termina onde começa o meu, e vice-versa. De fato, toda civilidade e respeito foram esquecidos desde os desfiles de escola de samba, ou melhor, os protestos de junho de 2013, conforme foram assim classificados em entrevista pelo cantor Lobão.

Nenhum direito de ninguém pode se sobrepor ao direito de outros. Essa é uma das noções mais básicas da democracia, que esse pessoal ignorante que gosta de brincar de revolução parece se esquecer. O resultado são transtornos como os que vivemos hoje aqui em São Paulo, em mais uma greve promovida por uma minoria. O Brasil tem muito mesmo a aprender em termos de democracia.

Quanto à Copa, quem genuinamente gostar de futebol, o que não é meu caso, seja feliz e aproveite, se bem que acho um exagero imenso o quanto anda se falando do tal Neymar. Tenho a leve impressão, diante do tom das reportagens, que ele vai ganhar a Copa sozinho. Ou então, na grande decisão por pênaltis na final, vai precisar fazer o último chute, que deve converter ou então será a derrota. Ele corre para a bola, e com muita "categoria" dá... como se chama mesmo? Ah, sim, uma "cavadinha", e a bola vai parar nas mãos do goleiro, como já ocorreu.

Enfim, mesmo detestando futebol é inevitável acabar acompanhando em épocas de Copa do Mundo, e é sempre esse clima de oba-oba. Quando ao mais, só posso dizer que vença o melhor.

E abaixo, como o assunto principa deste blog sempre será a Ficção Científica, um conto da Lista, Multiverso aliás, do qual em breve eu espero ter grandes novidades.

A LISTA: A COPA DOS CLONES

“Esporte é saúde, esporte é alegria. Futebol, a alegria do povo. Mentiras, nada mais que grosseiras mentiras, repetidas a exaustão até que se tornem verdades, como o Brasil é o país do futuro, caldeirão cultural exemplo de convivência, tantas incontáveis imbecilidades que os pobres de espírito aceitam sem questionar!”.

Rubens olhou para a tela onde o texto luzia. Em outra janela, os inúmeros emails que recebera, a maioria absoluta o xingando e amaldiçoando, e alguns mais exaltados até contendo sórdidas ameaças de morte. Acendeu um cigarro e soltou largas baforadas. Sabia que retomara um péssimo hábito, mas desde a prisão de seu amigo e mentor, Ademar, era a única forma que encontrava para relaxar.

Felizmente, uma pequena mas consistente porcentagem das mensagens, pelo contrário, o encorajava. Manifestavam apoio incondicional, várias vindas de estudantes muito aplicados, com notas excelentes em matemática, física ou química, mas que foram mesmo assim reprovados e impedidos de se formar.

Acontece que havia uma nota para educação física, e outra específica para futebol. E pelo Brasil afora, aqueles que não eram íntimos da bola, e nem queriam ser, estavam mais e mais se tornando cidadãos de segunda classe.

Rubens lembrava-se das Olimpíadas, dois anos antes. Revoltados com os privilégios para a delegação do futebol, os demais atletas competiram em protesto pela bandeira olímpica. O governo fez de tudo para que a transmissão do evento se concentrasse no futebol, mas após poucos dias de medíocre audiência, a cobertura voltou a normalidade, sob protestos oficiais.

“Aqueles atletas desonram a tradição esportiva nacional e seu próprio país”, afirmaram raivosamente os ministros da Casa Civil, Cultura e Comunicação Social. Tentaram por todos os meios colar nos atletas a pecha de antipatriotas e traidores.

A seleção de futebol não chegou ao pódio. O restante da delegação quebrou novamente o recorde de medalhas conquistadas.

Rubens lembrava-se do começo de tudo. Vinte anos de ditadura militar e crescimento econômico medíocre, o povo queria viver, queria liberdade e alegria. Coincidentemente com a abertura democrática, o futebol conquistou dois títulos em duas copas seguidas, e o Brasil se tornou pentacampeão.

“Os bons tempos de Pelé e tantos craques estavam de volta”, diziam peças publicitárias da época.

Depois tudo arrefeceu, e o jejum de conquistas foi ligeiramente aplacado por outros esportes. O sucesso dos mesmos, ao mesmo tempo em que o futebol vivia em crise, motivou uma reação dos cartolas.

Aproximando-se da classe política, conseguiram vários privilégios negados a outros esportes ou manifestações culturais. O resultado era o que se via na última década. Tudo, absolutamente tudo, para o futebol. O resto... era o resto!

Campeonatos cada vez mais onipresentes. Cada jogador, disputado pelos times a peso de ouro, sempre com salários milionários. Espaço na mídia, dinheiro, poder. Faltava apenas mais uma copa, e finalmente, depois de anos de preparativos, e da formação de uma nova geração de jogadores, eles estavam prontos!

O time brasileiro, liderado pelos atacantes Reginaldinho, Edinho e Marcinho, era chamado de imbatível, estelar, e outros vocábulos inventados por comentaristas sem imaginação. Chegara o dia da final da Copa da Alemanha contra a Argentina, e na imprensa internacional o clássico duelo latino era um dos destaques.

O outro grande destaque era o julgamento, sob acusação de alta traição, de Ademar, o amigo e mentor de Rubens. Este, ao mesmo tempo em que redigia seu texto, enviava tudo para a Lista. Fora apresentado a mesma pelo amigo, e mesmo agora enquanto escrevia, duvidava.

Aquela coisa de múltiplos mundos era nada mais que Ficção Científica para ele. Mas ficava inquieto diante de certas mensagens.

Ocorreu que Ademar descobriu que boa parte do time brasileiro havia sido especialmente preparada, e de formas até então inimagináveis. Alguns jogadores foram tratados com terapia genética, e ele conseguira provas de que o próprio Pelé foi levado a uma insuspeita clínica para coleta de material biológico. O mesmo ocorreu com outros craques, cedendo em segredo material para a grande experiência.

Que, de acordo com uma fonte de Ademar dentro da CBF, e que desapareceu misteriosamente antes de depor como testemunha de defesa, havia sido iniciada muitos anos antes. Dezoito anos, na verdade, a idade do próprio Edinho, que disputava com Reginaldinho a artilharia da Copa. Outros jornalistas levaram fotos do jovem para especialistas, comparando-as com as de Pelé na mesma idade, e o resultado, assombroso, foi uma das provas utilizadas pela defesa. Clonagem, era essa a arma brasileira, para espanto e protesto do resto do mundo.

O próprio governo alemão protestou, ameaçando com o cancelamento da Copa.

Outras confederações igualmente manifestaram seu repúdio, e algumas seleções deixaram a competição. Nada disso abalou a seleção, nem tampouco a CBF ou a FIFA. O governo reagiu prendendo e processando Ademar, colocando contra o mesmo toda a engrenagem legal disponível.

Naquele dia, o mesmo da final da Copa, seria data a sentença. Até mesmo os Repórteres sem Fronteira compareceram. Defesa e acusação se enfrentavam:

- Esse senhor, traindo os princípios da imprensa, de forma sórdida manchou o bom nome de nosso amado país, e em uma de suas manifestações mais ricas, que, da mesma forma que sua música, faz com que nossa grande nação se sobressaia mais e mais no exterior! Este é um atentado contra a auto-estima de nosso povo!

- O nobre colega apenas está fazendo coro com a propaganda oficial! Pois fazer do futebol ou da música questão de orgulho e afirmação nacional, como se fossem drogas de entorpecimento coletivo, inclusive com o fim de perpetuar-se o status quo de atraso que prejudica imensa parcela da população, constitui-se em um eterno motivo de atraso para nosso país, do qual os corruptos aproveitam-se para seu usufruto egoísta!

A batalha começava a ficar feia no tribunal, enquanto naquele mesmo instante a final da Copa acontecia. O juiz teve que pedir moderação aos debatedores, e por fim houve uma pausa para que todos pudessem assistir a partida. Tão confiante estava a seleção, que nem sequer treinaram. Muitos comentaristas concordavam, “nossos craques são os melhores”, diziam.

Primeiro tempo, sem gols. O juiz aproveitou o intervalo para as deliberações finais, e Ademar foi considerado culpado apenas de calúnia contra um símbolo nacional, sob protestos da acusação. O segundo tempo começou, e somente depois seria dada a sentença.

Silêncio pelos seguintes 43 minutos. Aos 45, a Argentina marca. Durante os dois minutos de acréscimo, o time brasileiro tenta, na base do “talento individual”, sem sucesso. A Argentina é campeã.

Reginaldinho, substituído quase ao final, sai chutando tudo pela frente, reclamando de Edinho que não passa a bola:

- Só porque é clone do Pelé e tem privilégios, se acha o máximo! Por isso perdemos!

Ao final os argentinos se abraçam, e poucos brasileiros falam. Marcinho foi um desses. Disse que de nada valeram as injeções, “Prá quê isso, diziam que íamos jogar como os craques de antigamente. Grande coisa!”, encerrou. Reclamou como outros dos privilégios de Edinho.

A acusação exigiu o imediato desligamento dos televisores. A defesa pediu o arquivamento do processo. O juiz, confuso, disse que precisava de mais tempo para novas deliberações. Ademar foi conduzido pelos guardas, aplaudido pelos colegas. Sorriu para Rubens.

Este sentia-se inseguro. Não sabia que desdobramentos poderiam esperar. Mas o fato de as máscaras haverem caído como o fizeram talvez fosse suficiente.

A Lista foi uma série publicada originalmente na revista Scifi News. É vedada a cópia ou reprodução por qualquer meio sem a prévia autorização do autor e da equipe da revista. Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.
Contato pelo email escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 17h08
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Livros digitais e Dia do Fã 2013

Estacionando um pouco a nave-máquina-do-tempo-portal-dimensional a fim de apresentar algumas novidades!

Posts abaixo comentei a respeito do lançamento em eBook de Filhas das Estrelas:

Eles dizem que agem com absoluta transparência.
Eles dizem que é evidente que não existem conspirações.
Eles afirmam que é absurda a ideia de extraterrestres nos visitando.
Eles estão mentindo!

O contato com alienígenas é um dos temas mais explorados na ficção científica, motivando histórias plenas de fascínio, terror, suspense, ação e mistério. Esses são elementos presentes em Filhas das Estrelas, uma coletânea de seis contos inspirados por histórias, teorias e conspirações a respeito de discos voadores e seres extraterrestres.

Cliquem aqui para conferir, na Amazon (Kindle), ou Saraiva (ePub).

Agora De Roswell a Varginha também está disponível na Amazon:

Fatos surpreendentes vêm sendo resguardados do mundo há mais de meio século. Acobertados por uma política oficial de informações confidenciais, dezenas de documentos conectam dois casos separados que ao se relacionarem provam contatos reais com extraterrestres. Roberto Monteiro, jornalista, e Ligia Barros, policial federal, são amigos de infância, com as famílias unidas, tanto pela tradição militar, como por um mistério do passado. Além da amizade, os dois nutrem um amor secreto, bem como um forte desejo de saber mais sobre fatos obscuros relacionados aos seus avôs.

Quando o jornalista é contatado por um homem emblemático que se apresenta trazendo conhecimentos extraordinários, ele sabe que necessita de ajuda. Por detrás da fachada de uma respeitável empresa de segurança, encontram-se três companheiros de Roberto, investigadores clandestinos, que pesquisam conspirações e fatos ocultos, denunciados por um jornal informal que editam.

Dados: o Exército Brasileiro, a ESA, a FAB, o Cindacta e a NASA estão de posse da cópia desses documentos.

Fato: essa documentação reunida forma a ponte de Roswell a Varginha.

Aguarda-se o pronunciamento das autoridades.

Cliquem aqui e confiram!

E uma outra obra minha está disponível, O Império, o Meteoro e a Guerra dos Mundos:

Após o Astrônomo Imperial alertar a Imperatriz Isabel acerca da aproximação de um bólido celeste, eventos estranhos e ameaçadores passam a acontecer no interior do Brasil. A trilha de destruição causa o acionamento da Armada Imperial, mas a investigação de um jovem oficial e uma audaciosa estudante levam a descobertas incríveis, levando-os a crer que a obra do recentemente famoso escritor H.G. Wells não seja inteiramente fictícia.
 
Já está disponível para a venda por apenas R$ 1,99 o eBook "O Império, O Meteoro e a Guerra dos Mundos", de Renato A. Azevedo. Steampunk.

Então, mais uma vez, cliquem e confiram!

E completando, está chegando o Dia do Fã, e como sempre estarei por lá junto a colegas escritores com grandes novidades!

Dia do Fã 2013

Você não pode perder!!

Venha comemorar com os fãs-clubes de ficção e fantasia mais um Dia do Fã  que será realizado com o apoio da Faculdade Sumaré. As dependências da unidade Sumaré receberão os fãs para um dia repleto de alegria, muitas brincadeiras, exposições, bate papo, desfile de fantasias e muito mais.

Destaco também que Os escritores Renato A. Azevedo (ou seja, eu!) Georgette Silen, Adriano Siqueira e Giulia Moon estarão neste evento com seus livros para um bate-papo e autógrafos.

Data: 23 de março, das 9 às 17h
Local : Faculdade Sumaré – Rua Capote Valente, 1121 – Próximo à Estação Sumaré do Metrô
Telefones: (11) 3067-7999 ou 2103-7999
Entrada franca.

Colabore com nossa Ação Social, não se esqueça de trazer 01Kg de alimento não perecível que será doado para a ACEDEMSP de São Miguel Paulista. Sua ajuda será preciosa para nós.

Então, nos vemos lá!
Até a próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 14h56
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Novidades para começar o ano

Já estava na hora de 2013 ter início, hein? Infelizmente neste país o ano só começa após o carnaval, então vamos as novidades!

Havia comentado posts atrás a respeito de minha participação no Talk Show, programa da Just TV apresentado pela excelente Celia Coev. Pois já está disponível online, e se alguém ainda não conferiu, seguem os links:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

O papo com a Celia e o Gilmar Lopes, owner do excelente site E-farsas, foi ótimo! Como é bom debater com pessoas inteligentes e que sabem argumentar, e não com algum mentecaptos, ignorantes e fanáticos (frequentemente reunindo de forma quase sobrenatural essas três "qualidades"...) com que tenho me deparado nos últimos tempos.

Um dos exemplos, ainda a respeito do post abaixo, publicado no dia em que o mundo acabou, 21 de dezembro de 2012, foi uma mensagem que vi no Facebook, de uma pessoa que se dizia "desapontada" pelo mundo obviamente continuar em frente, afirmando que "esse mundo não tem direito de continuar existindo". Ou seja, a criatura considera que pode decretar a si própria juiz de todas as formas de vida neste planeta! Detalhe, a mensagem foi postada por celular. Eu mesmo não uso um celular com acesso a Internet, ou seja, essa postura anti-científica é ridiculamente incoerente com a alta tecnologia que a criatura medíocre carrega e utiliza, não é?

Confesso que fiquei surpreso por ainda não ter sido xingado ou ameaçado diante dos questionamentos quanto aos famosos círculos ingleses, ou agroglifos, em meu artigo Temporada de agroglifos de 2012 na Inglaterra suscita questionamentos, na recente UFO 195. Da maneira como anda o fanatismo, a estupidez, o "ou estão comigo ou estão contra mim ou o planeta"...

Enfim, falemos de boas notícias! A primeira é que Filhas das Estrelas, meu segundo livro lançado em 2011 pela Editora Estronho, está agora disponível também em eBook!



Como sempre brincamos entre nós, escritores fantásticos brasileiros, é permitido alimentar os autores nacionais!

De Roswell a Varginha, meu primeiro livro, igualmente prossegue sua carreira, e vale relembrar que ele marca o início deste universo de ficção científica ufológica, e Filhas das Estrelas é uma coletânea de contos derivados daquele com os mesmos personagens, mas com muitas caras novas surgindo. De novo, apoiem a literatura fantástica brasileira, clicando aqui, aqui, ou aqui.

A outra grande notícia foi minha escalação para a antologia LIVROS, também da Estronho! Para mim, livros representam a liberdade, a possibilidade de viajar para onde quisermos, quando quisermos! Então, o anúncio da antologia, começado com estas fatídicas perguntas: "E se os livros fossem objetos proibidos? Se ler fosse tomado como uma afronta à lei imposta?", me incentivaram de maneira incrível a escrever um conto sobre liberdade, especialmente pelo fato de que o Brasil, infelizmente, caminha para muito em breve o ato de ler um livro em público ser considerado um insulto.

Já tratei aqui diversas vezes das tentativas de censura, como por exemplo neste post, e evidentemente estas prosseguem, testemunho da época abominável de progressivo emburrecimento que vivemos desde 2003. Eles conseguirão tornar irreversível o estado de exaltação a ignorância e mediocridade crescentes neste país? Esperemos que não, e na tentativa de ajudar, ao menos um pouco, a combater esse processo, escrevi o conto A Lista: Batalha pelos livros, muito em breve nessa espetacular antologia! Quero deixar também os maiores parabéns aos demais colegas selecionados, e dizer que estou muito ansioso para ler seus trabalhos!

O primeiro conto de minha série A Lista a ser publicado em livro foi A Lista: Letras da Igualdade, no volume laranja de A Fantástica Literatura Queer. Fiquei muito surpreso com as resenhas favoráveis, tanto no Blog do Pai Nerd quanto no Leitor Cabuloso, generosidade a qual muito agradeço! E ainda agradeço a Yoda por nenhum "militonto" questionar o fato de eu estar nessa antologia mesmo sendo heterossexual, hehehe.

Claro que vocês leitores sabem que A Lista, um fórum de discussão envolvendo participantes situados em incontáveis universos paralelos, teve origem nas páginas de nossa querida revista Scifi News, entre 2004 e 2006, iniciando na edição 81. Alguns destes foram publicados aqui no blog, basta procurar no sistema de busca no alto da página por A Lista que vocês os encontram, combinado?

Um dos assuntos predominantes em todo o desenvolvimento que tenho realizado dA Lista, ao longo desses anos, tem sido justamente a liberdade, além da luta contra a opressão. Então, entrar na LIVROS foi algo que me deixou muito feliz e realizado, e acredito que será uma antologia que deixará uma marca na Literatura Fantástica Brasileira.

E antes de encerrar, um anúncio, apesar de eu não ter o costume de falar a respeito de projetos em andamento: sim, estou trabalhando em um livro dA Lista! Será que saberemos finalmente qual o objetivo deste fórum transdimensional, e de seu misterioso Moderador? Descobriremos quem são os fugidios viajantes insinuados em A Lista 6 (consultem o arquivo do blog)? Só o que posso lhes prometer é que está se tornando o mais longo e complexo romance que já escrevi, e estou fazendo de tudo para que ele seja publicado em 2014, então fiquem na torcida!

Até a próxima!

Contato: escritorcomr@uol.com.br.



Escrito por Escritor às 15h54
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