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Mais Steampunk, e outras coisas

Uma das coisas que não teve espaço para comentários no post anterior foi o
novo conto postado em meu blog de contos eróticos, O Escritor Proibido.
Intitulado Amigas e a Noite, é de autoria de minha amiga (e ótima
escritora!) Roberta Nunes. O link está ao lado, mas o próprio nome diz, é
proibido para menores, depois não mandem mensagens iradas, combinado?
E aproveitem e visitem o blog Profana, Eu?, também da Roberta, o link
igualmente está ao lado!

Pausa para falar de coisas desagradáveis. Como se não bastasse a torrente de
notícias que nos causam um indescritível asco, agora a classe repugnantes de
criaturas sub-humanas, mais conhecidos como políticos, pretende censurar a
Internet!
Sim, é isso mesmo: querem equiparar o Brasil a poucas republiquetas que
tentam controlar o que não pode ser controlado, a livre circulação de idéias
que está na própria essência da Grande Rede, durante as eleições do ano que
vem. Obviamente irão fracassar, e isso é tão patente que uns e outros já
começam a dizer que não é bem assim, o projeto de reforma eleitoral (que só
beneficia a eles, bem entendido), será modificado...
A censura imposta a rádios e TVs já é uma obscenidade, pois um desses
subdesenvolvidos pode falar a maior barbaridade no também indecente horário
eleitoral gratuito, e ninguém pode depois corrigir.
Por que vocês acham que os políticos festejaram o voto para os analfabetos?
E por que querem nos calar? Porque o povo mantido na ignorância acredita que
eles só tem as melhores intenções, que o pré-sal é nossa segunda
independência (quanto será que custou para nossos bolsos a incessante
exibição daquelas chamadas da Petrobrás na TV?), e outras mentiras
equivalentes.
E assim mais e mais a politicalha vai deixando claro que todos são iguais, e
é necessário mesmo uma faxina geral na política brasileira. E esse
sentimento é perigoso, por ser terreno propício ao surgimento dos
"salvadores da pátria".
E nesta semana em que se completaram 70 anos do princípio da Segunda Guerra
Mundial, vale a pena lembrar que Hitler posava de salvador da pátria também,
com os resultados apocalípticos que qualquer um bem informado conhece.
Assim, para simbolizar a politicalha nacional, essa imagem que encontrei no
site de humor Kibeloco vem bem a calhar...



Leituras, como sempre ando as voltas com um monte! Recomendo o mais novo
álbum de Calvin & Haroldo, A Hora da Vingança, da Conrad, sensacional!
Acabei finalmente de ler o Paradigmas 1, da Tarja Editorial, e quero dar os
parabéns a todos os autores, muito bons os contos. Ah, e um deles também é
da Roberta Nunes!
Estou lendo dois ao mesmo tempo da Coleção Biblioteca UFO, UFOs na Rússia e
OSNIs, valem a pena.

Finalmente, voltando a falar em Steampunk, tentei encontrar algumas imagens
pela net para ilustrar meu conto Aurora, abaixo, e procurando "steampunk
blimps" ou "steampunk airships", encontram-se coisas muito legais. Me
fascina a estética desse movimento. Uma das imagens que achei mais parecida
com as idéias de meu conto abaixo é esta:



E descobri que mais uma vertente fantástica seguiu-se ao Stempunk, o
Dieselpunk. Se o primeiro localiza-se na coordenada temporal próximo da Era
Vitoriana, o Dieselpunk se situa mais entre os anos 1920, 30 ou 40, e até
mesmo 1950.
Agora já temos aviões, foguetes, carros bem estilosos, e até foguetes como
nessa imagem:



Um exemplo com o qual me deparei nesse movimento é o filme, muito legal por
sinal, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã. E começo a perceber que um conto que
postei neste blog há um tempo, Céu de Guerra: O Último Dia, ficou de maneira
involuntária bem próximo da estética desse novo movimento:

http://escritorcomr.blog.uol.com.br/arch2008-05-25_2008-05-31.html

Enfim, é bom ver que a criatividade não tem limites!
Então, novamente os convido a ler meu conto stempunk Aurora, logo abaixo, e
claro, meu livro "ufopunk" De Roswell a Varginha na Livraria Cultura, na
Martins Fontes, ou na Tarja Livros, sirvam-se nos links ao lado, e até a
próxima!
Contato: escritorcomr@uol.com.br .



Escrito por Escritor às 14h24
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Steampunk, AURORA

Demorou, mas cá está seu Escritor!
O gênero steampunk surgiu nos EUA, na esteira do cyberpunk. Este último todo
mundo já deve conhecer, Matrix, etc...
O steampunk, ou vaporpunk, pode ser descrito como uma ficção científica
retrofuturista. Seus fãs admiram Julio Verne entre outros autores, e o
enfoque é a tecnologia industrial e a vapor (daí o steam), presente ente o
final do século XIX e o princípio do século XX.
Um bom exemplo pode ser a HQ A Liga Extraordinária, de Alan Moore. E como é
um gênero muito visual, até com Star Wars andaram fazendo brincadeiras,
imaginem o R2-D2 a vapor:

http://www.sillof.com/C-Steampunk-SW.htm

Aqui no Brasil o gênero é divulgado pelo pessoal do Steampunk Brasil:

http://www.steampunk.com.br/

E claro, a Tarja, a editora pela qual saiu meu livro, De Roswell a Varginha,
publicou a primeira obra do gênero no Brasil, Steampunk, confiram no site da
Tarja Livros aí ao lado.
Enfim, resolvi experimentar dentro do Steampunk, e escrevi o conto abaixo,
espero que gostem e comentem.

AURORA

Rogério Daminelli chegou cedo ao Observatório Astronômico de Congonhas.
Havia tirado folga na noite anterior, mas não se sentia tão descansado
assim. Havia passado a noite com sua amada, Guinevere Alves, e as doces
lembranças lhe faziam esquecer qualquer cansaço.
Funcionários passavam diante da porta de seu escritório a todo instante,
limpando, fazendo manutenção e demais serviços requeridos para o
funcionamento da instalação. Rogério passou os olhos pelos jornais da manhã
que haviam sido deixados sobre sua mesa. “Argentina comemora sucesso no
lançamento de seu primeiro foguete”, dizia em letras garrafais a primeira
página de um deles. Um outro comentava algo a respeito das discussões no
Congresso Imperial, no Rio de Janeiro, e um jornal local debatia um projeto
de tornar aquele planalto onde se localizava o observatório no extremo da
zona sul de São Paulo, em um aeródromo para pouso de dirigíveis.
O jornal que mais chamou sua atenção foi o que estampava uma belíssima
imagem do cometa Donatti VI na primeira página. Descoberto por seu antigo
mestre, o Professor Salvadore Donatti, o cometa vinha proporcionando um belo
espetáculo nas últimas semanas. Quase todos os projetos de observação no
telescópio, que com seu espelho de 3,20 m de diâmetro era o maior da América
do Sul, eram dirigidos ao cometa.
Rogério estava a ponto de iniciar suas tarefas burocráticas, depois de
posicionar sobre a mesa um daguerreótipo de Guinevere, quando um sino soou
as suas costas, precedido por um sobro de ar pressurizado. Ele virou-se, e
viu que havia chegado uma cápsula de correspondência pelo tubo pneumático.
Quase todas as repartições públicas, como era o caso do observatório, eram
ligadas por aquele sistema, que permitia que mensagens chegassem muito mais
depressa do que se enviadas pelo correio. Funcionava bem, mas seguramente
não era páreo para o novíssimo telégrafo sem fio que, entretanto, era bem
mais caro.
Rogério levantou-se, apanhou o cilindro e o abriu, tirando um envelope que o
surpreendeu. Primeiro, por ter um selo oficial da Marinha Aérea. E segundo,
por ter, no nome do remetente, o nome de Salvadore Donatti.
O jovem astrônomo leu apressadamente a mensagem, e não pôde acreditar em seu
conteúdo. Releu-a mais uma vez, e uma terceira, até se convencer. A seguir
chamou uma secretária, pedindo-lhe para mandar parar o primeiro bonde a
vapor que surgisse.

Cerca de duas horas depois, um pouco além do que estava marcado na mensagem,
Rogério encontrava-se na plataforma de trens da Central dos Imigrantes, na
região industrial da zona leste de São Paulo. Era para lá que vinham,
subindo desde o litoral, os trens carregados de imigrantes de vários países.
Muitos italianos e espanhóis haviam chegado nos últimos tempos, e na verdade
passavam muito pouco tempo ali, na antiga Hospedaria dos Imigrantes. Com a
impressionante industrialização do Brasil após o segundo conflito com o
Paraguai, a necessidade de trabalhadores para as fábricas aumentava dia a
dia.
Muitos orientais abarrotavam o lugar, e Rogério lembrou-se de haver lido que
imigrantes do Japão estavam chegando em ritmo cada vez maior. Estava nisso,
tentando não perder de vista sua exígua bagagem, quando uma sirene
totalmente diferente chamou a atenção de todos.
Havia um trem parado na plataforma, e aos gritos, os funcionários empurravam
os imigrantes que ainda não haviam desembarcado, enquanto empregados da
plataforma os puxavam e gritavam para o maquinista mover logo a composição.
A sirene soou mais uma vez, e finalmente o trem moveu-se, sendo desviado
para uma via lateral algumas dezenas de metros adiante.
A mensagem dizia que Rogério deveria embarcar em um trem oficial, mas quando
esse veículo parou diante da plataforma, mal pôde acreditar no que via. Ao
contrário do ruído conhecido das locomotivas a vapor, o da máquina imensa
diante dele era mais suave, parecendo um silvo, acompanhado de baforadas de
fumaça branca de três chaminés postadas sobre a parte dianteira e inclinadas
para trás. Nas rodas não havia nada semelhante aos pistões e engates das
familiares Marias-Fumaça. Rogério teve a impressão de ouvir um zumbido, que
associou a algum tipo de motor elétrico.
- Ei, você! Rogério Daminelli! Vai ficar só admirando, ou vai subir a bordo?
Atrás da locomotiva engatavam-se apenas três vagões, e o homem que lhe
gritou era um militar com farda de serviço muito mal-encarado. Rogério,
intimidado, entrou com sua bagagem e acomodou-se num assento apontado pelo
militar. O homem sentou-se no assento do outro lado do corredor, depois de
ordenar via um microfone no canto da cabine que o trem partisse.
Com um silvo e o bem mais nítido zumbido de motores elétricos, o trem
acelerou, enquanto o militar falou:
- Sou o sargento Sebastião Nogueira, encarregado de levá-lo a Base Militar
de Peruíbe.
- Prazer, sargento...
Rogério estendeu-lhe a mão, mas o militar a ignorou, examinando-o de alto a
baixo. O astrônomo não resistiu a curiosidade e perguntou:
- Nunca havia visto uma locomotiva oficial de último tipo como esta, e nem
encontrei muitas notícias a respeito. Como ela funciona?
- Ah, está perguntando desta banheira? Um tipo novo, mais veloz destas
geringonças. Funciona a vapor e eletricidade, claro!
Explicou em poucas palavras que o motor não utilizava pistões, mas um novo
tipo de turbina a vapor para fazer girar um gerador elétrico. Esse gerador,
por sua vez, alimentava baterias que vertiam sua energia para os motores
elétricos nas rodas.
- É uma beleza, doutor, espere para ver quando sairmos da cidade!

Nogueira tinha razão. Mal saíram de São Paulo, e a locomotiva acelerou de
uma forma como jamais Rogério havia visto.
Reparou que, em um canto da parede frontal, havia um painel com diversos
relógios. Enquanto a impressionante máquina descia o último trecho da Serra
do Mar, já na reta, ele viu a velocidade registrada no ponteiro do maior dos
instrumentos:
- Meu Deus! Mais de cento e cincoenta quilômetros por hora!? Como é
possível?
Fazia poucos minutos que a impressionante locomotiva, puxando apenas mais
dois vagões, havia deixado para trás a balbúrdia da enorme Hospedaria dos
Imigrantes, na zona leste da cidade, e o grande marcador de velocidade
instalado na parede dianteira do vagão já apontava aquele número.
- Não me pergunte, doutor! – disse Nogueira. – Os técnicos que constroem
estas coisas falam uma língua própria. E nem sei dizer porque tive que ir
buscar o senhor em São Paulo. Não nos dizem muito, na verdade, no Exército.
O senhor sabe como é, os chefes mandam, a gente obedece!
As turbinas a vapor emitiam seus silvos enquanto atingiam a máxima rotação,
fazendo girar geradores elétricos que por sua vez alimentavam os motores nas
rodas principais, que zumbiam e faziam o monstro de aço avançar velozmente.
A velocidade impressionante foi mantida na ferrovia que percorria toda a
costa, rumo ao sul. Não fazia nem duas horas que haviam saído de São Paulo.
Rogério sentou-se, e buscou colocar em ordem os pensamentos. Sabia que, por
muitos anos, o Professor Donatti trabalhava para o governo imperial.
Esporadicamente trocavam cartas, e Daminelli lembrou-se do teor das últimas,
um assunto que ele e seu mestre discutiam muito na faculdade, mas que o
Professor depois lhe aconselhou a esquecer. Mas, como sempre acontece quando
temos uma paixão por certas coisas, Rogério ainda se correspondia com alguns
outros colegas, que também se dedicavam a perscrutar aquele mistério.
A linha do trem se afastou um pouco da costa, seguindo por uma rede de
viadutos que ficavam cerca de doze metros acima do nível do mar, em meio a
vegetação exuberante da Mata Atlântica. Nogueira chamou sua atenção para os
primeiros sinais de atividade militar:
- Já estamos no território da Base de Peruíbe, doutor! Veja lá, acho que
demos sorte, vamos poder ver mais uma tentativa de lançamento...
Rogério aproximou-se da janela, e viu uma rede de pequenos edifícios. Ao
longe, o que parecia um cais avançando para o mar. A cerca de dois
quilômetros da costa, ele pôde divisar uma espécie de plataforma, onde
existia algo similar a uma torre.
Entretanto, no instante seguinte a “torre” ergueu-se para o céu, apoiada em
uma torrente de fogo e fumaça. O projétil, que vinha a ser segundo o
sargento o mais novo teste de um foguete brasileiro, subiu, subiu... apenas
para se desfazer em uma devastadora explosão, a uma altura que Rogério
estimou como de três quilômetros.
- É, doutor... – disse Nogueira, tirando o quepe e coçando os ralos
cabelos. – Essas coisas explodindo, e os argentinos continuam a nossa
frente... vai mal...

Finalmente, o trem reduziu a velocidade para parar em um posto de controle.
A viagem a partir dali precisava de autorização, pois estavam entrando na
parte mais vital e secreta da Base Militar de Peruíbe. Era uma instalação
utilizada tanto pela Marinha e pelo Exército, e com o advento dos dirigíveis
militares, dos quais o Brasil aos poucos estava se tornando uma das
principais potências, também era utilizada no teste de novos protótipos,
tanto do Corpo Aéreo do Exército, quando da Marinha Aérea, cada uma delas
subordinada a sua respectiva Força.
Quando o Imperador Pedro II ainda era vivo, havia começado um movimento para
a criação de uma força de aeronaves independente das outras duas. Os
oficiais se rebelaram, logo antes da Intentona Republicana, que fora
esmagada pelas forças imperiais. Após a morte de Pedro II, o novo Imperador
comprometeu-se a deixar cada Arma com sua divisão aérea após as juras de
fidelidade dos comandantes, sem concentrar as operações em uma terceira
Força independente.
Rogério ainda não conseguia entender como pudera ser convocado. A mensagem
de Donatti não era clara, e mais ainda, trazia instruções específicas para
ser queimada logo após lida. O jovem astrônomo chegou a conclusão de que
teria mesmo que esperar.
E não teve que esperar muito. A sua esquerda, desfilavam os inúmeros
edifícios da base, instalações de montagem, hangares para as diversas
classes de dirigíveis, ancoradouros para navios, alojamentos... até que viu
uma outra edificação.
Aquela colossal construção despontou e rapidamente dominou todo o campo
visual de Rogério. Inteiramente em madeira, tinha uma altura descomunal, que
ele calculou como mais de sessenta metros. Mas seu comprimento foi o que
mais o impressionou. O trem seguia em frente com velocidade reduzida, e o
imenso edifício continuava passando pela janela. Passando... passando...
O trem parou finalmente em uma pequena estação, e Nogueira mandou que
apanhasse suas coisas. Rogério obedeceu, e saiu atrás do militar. O trem
voltou a andar assim que desembarcaram, logo desaparecendo na distância.
Nogueira estendeu uma folha a um soldado que aguardava atrás de uma mesa,
que a leu rapidamente e logo a carimbou.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 10h57
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Steampunk, AURORA

Continuação...

Nogueira virou-se, ficando de frente para Rogério, mas falou para alguém as
costas do astrônomo:
- Muito bem, Professor, ele agora é problema do senhor!
Bateu uma continência desleixada, e sumiu por uma porta. Rogério virou-se, e
duas coisas chamaram sua atenção.
A primeira foi o Professor Donatti, sempre elegantemente vestido com cartola
e casaca. A outra, as suas costas e além da amurada da pequena estação e dos
trilhos da ferrovia, eram as enormes portas do gigantesco hangar se abrindo,
e o maior dirigível que Rogério já vira saindo por estas.
- Ah, caro Rogério, há quanto tempo! – Donatti o abraçou, e a seguir
virou-se, arrastando o jovem e ficando a seu lado, contemplando o
espetáculo. – Que bom que chegou a tempo de ver nossa obra-prima saindo do
hangar pela primeira vez!
O hangar deveria medir ao menos seiscentos metros de comprimento. O imenso
dirigível saía pelas portas, sendo puxado por tratores a vapor e
estabilizado por centenas de operários que seguravam amarras. Em grandes
letras na fuselagem, estava estampado o nome da impressionante nave.
“AURORA”.
O dirigível, de 250 metros de comprimento segundo Donatti, já havia saído do
hangar. Mas era apenas a metade dianteira da aeronave... Acoplada em sua
traseira, uma estrutura cilíndrica com dez metros de diâmetro, encimada por
uma cúpula e apoiada no centro de uma estrutura em treliça reforçada de
vinte metros de comprimento, e a seguir um novo envoltório idêntico ao
primeiro.
Duas unidades de 250 metros cada acopladas, uma adiante da outra, com uma
estrutura que pareceu familiar para o astrônomo exatamente no meio,
totalizando mais de 500 metros de comprimento. Alheio a sua estupefação, o
Professor Donatti perguntou:
- Então, como é ter sua visão tornada realidade?
Rogério estava sem fala. Nem em seus maiores delírios poderia imaginar que
sua proposta, que ele próprio era o primeiro a admitir ser visionária e
provavelmente impossível, fosse materializada daquela forma.

Ainda foram necessários dois dias de preparativos, e finalmente o Aurora
decolou em um belo entardecer. A sofisticação do monstruoso dirigível de
mais de meio quilômetro impressionou Rogério. Ele, que também tinha a
formação de engenheiro, impressionou-se com os detalhes da máquina. Logo que
informado de que subiriam até 20 quilômetros de altitude, teve a impressão
de que sua mente não conseguiria processar a informação. Felizmente, logo se
lembrou dos estudos na faculdade, quando se falava de cabines pressurizadas
para vôos em elevadas altitudes. Foram muitos os colegas a fazerem piada
quanto aquela possibilidade. Se eles pudessem estar ali agora!
Ele logo descobriu que um dos lugares preferidos para ficar era no domo de
observação, no topo do envoltório dianteiro. Uma cúpula de vidro deixava
livre a visão para cima, e aquele céu estrelado da primeira noite, quando já
haviam superado os oito quilômetros de altura, o lembrou de porquê havia
escolhido aquela profissão.
A visão de um dos dois domos laterais, que também existiam no envoltório
traseiro, também era de tirar o fôlego. As cidades fracamente iluminadas lá
embaixo eram um espetáculo extraordinário. Mas ainda havia uma coisa que lhe
estava incomodando. Quando perguntou a razão daquilo para o Professor
Donatti, este apenas lhe pediu com um sorriso triste que aguardasse.
Aquela missão era comandada pelo Almirante Arthur Coimbra, uma figura
impressionante e homem de confiança do antigo e do atual Imperador. Era uma
figura nobre e imponente, e mais que tudo, chamava a atenção sua mão direita
mecânica, que usava no lugar da original. Coimbra havia perdido a mão em um
duelo com o próprio Deodoro da Fonseca, líder da Intentona Republicana.
Tornara-se um dos maiores heróis do Império do Brasil ao vencer o duelo de
sabres mesmo assim, matando Deodoro, de quem antes fora muito amigo, e
encerrando a curta mas sangrenta revolta.
Da tripulação de quarenta membros ainda faziam parte duas pessoas da
Inteligência do Exército, a Coronel Suzana do Rosário e sua subordinada
Capitã Maria Celeste. Rosário era uma negra forte e orgulhosa, que já
nascera livre após a abolição proclamada quase ao mesmo tempo do estouro do
segundo conflito paraguaio.
- Rogério Daminelli, pensei que nunca mais o veria...
Maria Celeste, uma bela ruiva de pele clara e longos cabelos ondulados,
aproximou-se e segurou firme a mão dele. O Professor Donatti, com quem
Rogério conversava antes assuntos sem muita importância, mostrou-se
surpreso.
- Também é um prazer voltar a vê-la... devo chamá-la de Capitã?
A moça sorriu, aproximou-se e beijou-o na bochecha, cochichando:
- Para você, será sempre Maria...
As duas militares os cumprimentaram e dirigiram-se para a ponte de comando.
Donatti, sorrindo e voltando a colocar a cartola no lugar, virou-se para o
jovem e disse:
- Pelo que vejo, esta viagem poderá não ser apenas de trabalho para você,
meu amigo.
Rogério explicou que Maria Celeste fora uma paixão adolescente, seus
colégios eram vizinhos, e por um longo tempo eles se corresponderam até
perderem contato.
- Foi sem dúvida uma imensa surpresa saber que ela agora faz parte do
Exército, professor. Mulheres militares! Bem, os tempos estão mesmo mudando,
não?
O jovem astrônomo rememorou o brilho mais intenso que o normal nos belos
olhos castanhos da moça. Rogério se surpreendeu ansiando por uma conversa
mais prolongada com ela.
- Então meu jovem – disse o Professor Donatti tentando trazer Daminelli de
volta a realidade. – O que está achando do passeio?
- O passeio está ótimo, Professor – respondeu Rogério. – Na verdade,
frequentemente me apanho sentindo uma ansiedade incrível de sentar no posto
do telescópio, e estudar seu cometa.
Donatti riu, e perguntou:
- Acha que viemos investigar o cometa? Agora que ele está se afastando após
o periélio, a passagem mais próxima do Sol?
- Confesso que isso também me surpreendeu, Professor, mas qual outro motivo
seria?
Donatti novamente lhe pediu mais um pouco de paciência, emendando:
- Recomendo que vá dormir, meu caro. Teremos um dia cheio amanhã!

Após uma noite de revisão e  testes no completíssimo equipamento astronômico
e curtas horas de sono, houve o desjejum do primeiro amanhecer a bordo e a
seguir todos foram convocados para um pequeno salão de reuniões, anexo aos
aposentos do Almirante Coimbra.
O militar, esmeradamente trajado e sem nunca deixar de portar o sabre, o
mesmo com que tirara a vida de Fonseca, anunciou:
- Bem, meus amigos, estamos aqui hoje para que finalmente todos sejam
informados acerca dos objetivos de nossa missão. Como sabem, a maior
preocupação corrente na alta cúpula das Forças Armadas é com o rápido
desenvolvimento tecnológico da Argentina.
- Eles lançaram recentemente um foguete de grande porte, evento esse para o
qual tiveram a gentileza de convidar observadores dos países vizinhos. Nossa
equipe que testemunhou esse portento voltou realmente impressionada. Os
argentinos, ao que parece, conseguiram manobrar a distância o projétil,
utilizando-se de algum tipo de telégrafo sem fio. Pelo mesmo meio, o foguete
enviou algumas informações, incluindo a altitude atingida, próxima de 40
quilômetros sobre a Terra.
Um murmúrio de admiração tomou o pequeno recinto, e até mesmo o comandante
do dirigível, Coronel Benedito Gonçalves. O Professor Donatti comentou:
- Malditas geringonças elétricas!
- Mas o fato, Professor – disse Coimbra – É que nossos vizinhos estão, por
todas as informações que pudemos levantar, mais adiantados do que nós, em
termos de eletricidade e foguetes.
- Certamente – disse a Coronel Rosário. – A fim de contrabalançar nosso
avanço em dirigíveis e navegação aérea.
- Análise muito acertada, cara Coronel – respondeu o Almirante. – Não nos
iludamos! Desde nossa segunda intervenção no Paraguai, os argentinos estão
se armando.
Aquelas análises pareciam muito estranhas a Rogério. Naturalmente lera muito
a respeito da escalada das tensões com o país vizinho, mas não conseguia
imaginar o que diabos aquilo poderia ter em comum com o objetivo obviamente
científico e astronômico daquela nave.
- Vejo que nosso jovem amigo parece um tanto confuso. – comentou Coimbra. –
Professor, se quiser fazer sua apresentação...
Donatti levantou-se e agradeceu. Um auxiliar aprontou o dispositivo que
projetava imagens em uma superfície de tela branca, na parede frontal do
salão, e fechou as cortinas das janelas.
Todos puderam ver imagens da Lua, e Rogério reconheceu o recente eclipse que
puderam testemunhas, enquanto Donatti dizia:
- Estas imagens foram tomadas no recente eclipse lunar, ocorrido em 23 de
maio de 1891. Mostram a região da cratera Aristharcus, onde algo muito
interessante parece estar ocorrendo...
As imagens mostravam claramente algum tipo de brilho, fagulha ou explosão
nas proximidades da cratera. Rogério subitamente teve a nítida sensação de
que sabia porque o haviam convocado. Mas ainda não conseguia ligar aquele
assunto com a tensão militar com a Argentina, a menos que...
- Este é, então, o objetivo de nossa missão. – disse Donatti. - E também o
motivo de temos convocado sua presença aqui, meu caro Rogério!
- Professor – principiou Rogério, tentando não gaguejar – Deve saber muito
bem que, em meu trabalho no Observatório Astronômico de Congonhas, não me
ocupo com esses fenômenos...
- Mas continua a se corresponder com conhecidos a respeito – comentou a
Coronel Rosário. -  Não é?
Rogério ficou surpreso de saberem. Donatti completou:
- Não fui a favor de que eles examinassem sua correspondência, meu amigo. Na
verdade, toda esta coisa me parece um absurdo...
- Professor – disse o Almirante Coimbra – temos que saber!
- Acha mesmo, Almirante – perguntou Donatti – que há qualquer possibilidade
de os argentinos estarem enviando pessoas para viajar em seus foguetes?
- Sabemos pelos nossos espiões que o mesmo modelo, exibido para os
observadores internacionais, já havia voado com sucesso no ano passado! Quem
saberá em que nível eles se encontram agora?
- Honestamente, Almirante, – disse Donatti, largando em uma mesa a batuta
que usava para apontar características específicas nas imagens exibidas. –
que os argentinos conseguiram viajar até a Lua?
- Como explica esses fenômenos de luminosidade em uma área tão específica,
como acaba de nos mostrar?

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 10h55
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Steampunk, AURORA

Continuação...

Rogério olhou os demais, e seus rostos de incredulidade não deveriam ser
muito diferentes de sua própria expressão. Características lunares
transitórias. Esse era o nome dos estranhos fenômenos que astrônomos, desde
a invenção do telescópio e até mesmo antes, vinham testemunhando sobre a
superfície lunar. A maioria absoluta dos homens da ciência os descartava
como simples alucinações ou erros de observação. Uns outros poucos ainda
diziam que podiam ter origem em algum tipo de atividade geológica, como
terremotos e vulcões, no próprio satélite natural.
A idéia de que esse tipo de fenômeno se devesse a ação de supostos
visitantes da Lua...
A discussão entre Donatti e Coimbra chegou a um ponto de impasse, e
finalmente o Almirante virou-se para Rogério e perguntou:
- Senhor Daminelli, o que tem a dizer? Costuma estudar de forma privada
esses estranhos fenômenos, não?
Todos se voltaram para ele, o que para Rogério era incômodo. Entretanto,
fazendo força para se manter calmo, levantou-se e dirigiu-se aos presentes:
- Senhoras e senhores, de fato, nunca deixei de me interessar pelos
fenômenos lunares transitórios. Com alguns poucos colegas, tenho estudado
esse assunto em segredo, mas não chegamos a qualquer conclusão. Devo
lembrá-los de que são testemunhados desde a invenção do telescópio.
- E quanto a possibilidade de os argentinos estarem chegando a Lua com seus
foguetes? – perguntou Maria. Sua voz continuava doce e profunda como sempre.
- Capitã, já faz um bom tempo que não me dedico a engenharia, apesar de
conhecer a absoluta maioria das técnicas que, entre outras coisas, tornaram
o Aurora possível. Mas quanto a ir ao espaço...
- Seria necessária uma velocidade extraordinária para isso, não seria? –
perguntou o Coronel Gonçalves.
- Sim senhor – respondeu Rogério. Cerca de 28.000 quilômetros por hora, e
isso apenas para nos manter em órbita ao redor da Terra. Para atingir a Lua,
seria necessário escapar da atração gravitacional de nosso planeta, com uma
velocidade de pelo menos 40.000 km/h.
- Duvido seriamente, – disse Donatti – que os argentinos disponham de
máquinas capazes de tremenda façanha. Na verdade, considero extremamente
improvável que seja possível, mesmo em cem anos! Para mim, os senhores estão
prestando excessiva atenção aos romances daquele tal francês, Júlio Verne,
isso sim!
A discussão enveredou pelas conquistas técnicas, e Donatti aproveitou para
falar do fabuloso telescópio a bordo:
- O Telescópio Pedro II, batizado em honra a nosso falecido Imperador e
patrono das ciências, tem um espelho principal de 2,70 m de diâmetro. A
altitude que o Aurora chegar, superior a 20 km, deve ser capaz de
proporcionar uma visão muitíssimo superior a qualquer engenho maior baseado
em Terra, por ficar sobre a maior parte da atmosfera do planeta. Lembra-se
de como riram de nós quando você propôs a idéia, caro Rogério?
Ele se lembrava. Um telescópio suspenso nos céus, acima das nuvens, onde a
turbulência da atmosfera seria consideravelmente reduzida, seria capaz de
fazer observações muito mais precisas.
- Quem sabe, professor – disse Rogério ao final da reunião. – O próximo
avanço talvez seja um telescópio situado no espaço!
- Esses engenheiros e suas bugigangas mecânicas – disse Donatti. – E como
pretende operá-lo, ou fazer retornar as fotografias dos astros que
porventura forem observados?
- Na Base de Peruíbe – disse o Coronel Gonçalves. – já estão sendo feitas
pesquisas a fim de traduzir daguerreótipos e mesmo fotografias em algum tipo
de código. Este código seria transmitido via telégrafo sem fio, e no destino
seria traduzido a fim de compor novamente a imagem. Claro, ainda estamos
muito distantes de resultados práticos.
Donatti seguiu resmungando contra as “engenhocas”, enquanto o Almirante
Coimbra disse:
- Bem, mesmo que discordemos quanto as informações, todos estamos
conscientes dos objetivos da missão. Estou confiante de que darão o seu
melhor para cumpri-la.
Todos aquiesceram, e foram distribuídas tarefas. A dos dois astrônomos, com
uma reduzida equipe de auxiliares, seria colocar o telescópio de prontidão.
Seria noite de Lua cheia, e teriam muito trabalho pela frente.

As primeiras observações haviam sido muito promissoras, e depois de algumas
horas de trabalho noite adentro, Rogério e o Professor Donatti decidiram
fazer uma pausa.
O refeitório de bordo se localizava no invólucro traseiro, e uma de suas
paredes se confundia com o domo de observação do lado esquerdo da aeronave.
Eles comeram alguma coisa, e depois ficaram em silêncio observando o
majestoso panorama.
O Aurora havia atingido uma altitude de 20.240 metros, valor exibido em
instrumentos colocados ao lado do domo, e de cada uma das maiores janelas da
aeronave. O dirigível exibia uma sofisticação incomum para uma aeronave
militar, com cabines pequenas mas confortáveis, e o ambiente interno era
mantido graças aos controles de pressurização e temperatura.
- Faz pensar esse panorama, não? – perguntou Donatti.
- E como, Professor – respondeu Daminelli. – O mundo parece menor a cada
dia. Lembro quando saí de São Paulo, precisando aguardar a partida do trem
que trazia novas levas de imigrantes.
- As divisões estão se diluindo e as distâncias encolhendo rapidamente, meu
jovem! E o avanço da tecnologia está nos levando a explorar novas
fronteiras. Olhe lá fora, veja a curvatura da Terra! Chegou a imaginar que
observaria o mundo desta prodigiosa altitude de vinte quilômetros, enquanto
escrevia sua tese?
- Cheguei a imaginar sim, Professor, mas a realidade que antecipamos em
nossas entusiasmadas conversas é muito mais surpreendente. E igualmente
espantoso foi ver o senhor trabalhando com os militares. – Rogério disse em
tom mais baixo.
Uma sombra desceu sobre os olhos de Donatti. Ele virou o rosto e tornou a
olhar para fora, enquanto dizia:
- Sim, a esta altura, percebemos que as fronteiras pouco sentido fazem... A
própria guerra parece ainda mais estúpida, não concorda?
Daminelli insistiu:
- Professor, o senhor sempre repudiou os militares, como agora trabalha com
eles?
- Meu filho... – disse o Professor sacudindo a cabeça em negação. – Lembra
de nossas conversas enquanto eu o auxiliava em sua tese, nosso sonho em
comum agora tornado realidade com este telescópio volante, e a frustração
diante dos parcos recursos investidos na ciência e no conhecimento?
Naturalmente Rogério se lembrava, e Donatti não o esperou para prosseguir:
- Não pude recusar, meu jovem, quando me fizeram a proposta. Permita que eu
diga que tampouco eu deixei de estudar as anomalias lunares. E quando o
próprio Coimbra me ofereceu o cargo de diretor científico deste projeto, a
cobiça me dominou.
Rogério conhecia aquela sensação. E entendia perfeitamente. A sede pelo
saber era uma ânsia, uma compulsão irresistível. Ele sabia que acabiaria
fazendo a mesma coisa.
- Bem, Professor, tampouco eu resisti, pois estou aqui com o senhor. O que
acha de retornarmos ao trabalho?
Donatti pareceu mais animado. Tentando abrir um sorriso, mesmo que a sombra
ainda dominasse sua expressão, colocou a inseparável cartola na cabeça e
respondeu:
- Bem dito, meu jovem. Vamos, as estrelas nos aguardam!
Os dois cientistas saíram do refeitório e retornaram ao observatório. Em uma
mesa próxima, separada da que eles ocupavam por um biombo igual a vários que
existiam no pequeno salão, a Coronel Rosário pôs-se a refletir sobre o que
acabara de ouvir.

A primeira noite de observações para valer fora promissora. Menos pelos
resultados das observações na cratera Aristharcus, e mais pela
impressionante capacidade do telescópio.
O Aurora mantinha-se em posição enquanto eram feitas as observações
astronômicas, girando o menos possível. As turbinas a vapor produziam muito
menos vibrações do que os motores convencionais, mas seria impossível
operá-las a altitude em que estavam.
O dirigível tinha um conjunto de caldeira e turbina principal em cada
envoltório, mais uma caldeira e uma turbina secundários. Os conjuntos
principais, já testados em aeróstatos daquela classe, com 250 m de
comprimento, funcionavam bem até 5.000 m de altura, caindo consideravelmente
de desempenho em altitudes superiores. No Aurora, os conjuntos principais
operavam até essa altitude, propulsionando geradores que alimentavam os
motores elétricos, em número de quatro em cada envoltório, que por sua vez
giravam as hélices.
A grandes altitudes, dependiam inteiramente dos conjuntos menores, que
funcionavam pressurizados. O maior volume de carga do Aurora era ar
comprimido para a atmosfera de bordo e as caldeiras secundárias. Tinham uma
autonomia planejada, tanto em termos de cilindros de ar comprimido quando de
óleo combustível, para uma semana.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 10h53
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Steampunk, AURORA

Continuação...

Rogério, perturbado com alguns dos resultados da observação, aproveitou sua
folga para um rápido lanche na cozinha de bordo, e depois subiu pela escada
em caracol até o domo de observação. Ali, não conseguia se cansar de
observar o céu límpido e estrelado, e a impressionante vista da face redonda
da Terra, nitidamente visível no horizonte.
- Vejo que está gostando de nosso brinquedo...
O som das botas, idênticas as de montaria, denunciou a aproximação de
alguém, e aquela voz aveludada só poderia ser de uma pessoa. Maria Celeste
tirou o quepe, sacudiu os longos cabelos escarlate que deixou cair sobre os
ombros, e ficou ao lado de Rogério observando o firmamento. Era estranho
para ele ver uma mulher de calças, mas teve que reconhecer que havia
elegância na vestimenta de Maria. Calças brancas, botas negras e polidas
mais o fardão azul e vermelho do Exército a deixavam muito atraente.
- O mundo parece tão pequeno olhando daqui de cima, não acha?
- Acho, Maria, que parece muito menor quando olhamos para cima através do
telescópio. Parece muito menor agora, na verdade...
Ela se aproximou ainda mais, ficando bem junto a ele. Rogério podia sentir
seu perfume, enquanto Maria dizia:
- O que andaram descobrindo? Ouvi dizer que não encontraram nada em
Aristharcus.
Ela disse isso, e o abraçou, cingindo-o com os braços sobre seus ombros.
Rogério tentou resistir, mas finalmente acabou prendendo seus braços ao
redor da cintura de Maria.
- Mas encontramos muita coisa em outras regiões... – disse ele. – Coisas
surpreendentes, que duvido muito que sejam obra dos argentinos... quando
apresentarmos nosso relatório...
Não pôde falar mais nada, pois Maria o afogou em um beijo ardente,
apertando-o contra si. Rogério não pensou em mais nada, na missão, naquele
mistério, nem mesmo em Guinevere, a amada que ficara aguardando-o em São
Paulo.
Maria abriu a camisa por baixo do fardão, mostrando que não usava nada por
baixo. Aproximou o rosto de Rogério de seus seios, e inclinou-se para trás
em êxtase. Logo o astrônomo via que ela começava a tirar sua roupa, ao mesmo
tempo que deixava cair as calças ao chão.
Ali mesmo fizeram sexo, quente, desesperado, quase animalesco.
Ficaram abraçados por vários minutos depois, deitados e olhando o
firmamento. Rogério hesitou várias vezes, mas por fim começou a perguntar:
- Por que...
- Por que, você pergunta, meu amor? – ela disse sorrindo. – Porque se tem
alguma coisa que a guerra nos ensina, é que devemos aproveitar enquanto
estamos vivos. Convenções sociais, etiqueta...
Ela se levantou, nem tinha se dado ao trabalho de tirar as botas, apenas
voltou a cobrir seu corpo nu com as roupas, e quando terminou olhou mais uma
vez para ele. Tinha lágrimas nos olhos e disse, sorrindo apesar de tudo:
- As coisas que temos que fazer por nosso Império... Não perca tempo com
regras e imposições estúpidas, Rogério querido! Os bons momentos são tão
raros, é melhor que estejam para sempre na lembrança, do que no
arrependimento de nunca tê-los vivido.
Sem mais nada a dizer, ela se virou e desceu.

A terceira e quarta noites a bordo foram as mais produtivas. O Telescópio
Pedro II, levado aquelas alturas pela impressionante nave, deveria ter
produzido as mais nítidas imagens da Lua jamais tomadas.
O aparato possuía três posições de observação, possíveis graças ao mesmo
número de complexos arranjos de espelhos e prismas. Muito similar a um novo
instrumento desenvolvido para os barcos submarinos que estavam sendo
prototipados pela Marinha, instrumento este batizado de periscópio. Mesmo
com uma dessas naus submersa, esse instrumento permitia que se observasse a
superfície da água.
Donatti e Daminelli eram auxiliados por Alfonso Queirós, jovem aprendiz e
secretário do Professor. Normalmente o rapaz ficava no posto de observação
principal, ajustando continuamente a posição e estabilidade do telescópio
por meio de polias e roldanas de controle milimétrico. Para assegurar que
nenhuma vibração decorrente do funcionamento do Aurora atrapalhasse as
observações, todo o conjunto flutuava em um recipiente de óleo grosso, e era
ligado ao corpo do restante da estrutura por meio de braços apoiados em
rótulas de borracha.
O equipamento era de uma sofisticação e complexidade que desde o primeiro
momento impressionaram Rogério. Em seus rascunhos iniciais, nem em sonho
havia imaginado aqueles detalhes.
Mas os resultados das observações foram o mais surpreendente de tudo. Os
militares, Rosário, Celeste ou Coimbra, frequentemente se uniam aos
astrônomos. Até mesmo o Coronel Gonçalves apareceu no começo da quarta
noite. Todos faziam questão de lembrar aos astrônomos que o objetivo era a
Lua e seus estranhos fenômenos, sob protestos da equipe científica que
também gostaria de dedicar algum tempo aos demais corpos celestes.
O Professor Donatti chegou mesmo a realizar algumas rápidas observações do
Cinturão de Asteróides, de Marte, Júpiter, Saturno e demais planetas. Mas o
assunto das anomalias lunares não lhe saía da cabeça, nem de seus colegas.
Haviam realmente encontrado coisas impressionantes.

- ... Coisas essas, meus amigos – disse Donatti na preleção das onze da
manhã do quinto dia – que em nossa opinião, eliminam total e absolutamente
qualquer hipótese desses fenômenos lunares inexplicáveis serem resultado de
ação humana!
As fotos exibidas no projetor de imagens não deixavam margem a qualquer
dúvida. Rogério era especialista em fotografias astronômicas, e o Aurora era
equipado com a aparelhagem mais avançada disponível. Não poderia haver
qualquer engano.
- Vejam aqui – disse Donatti apontando uma imagem da cratera Archimedes. –
Em Aristharcus, onde nos concentramos na primeira noite, não observamos
absolutamente nada de anormal, então organizamos nossas vigílias e
observações em outros locais de nosso satélite. Em Archimedes, pudemos obter
estas imagens.
Rogério, ao lado de Donatti durante a apresentação, dirigiu-se aos demais:
- Pudemos flagrar essas estranhas sombras sobre Archimedes. O mais
surpreendente foi quando tentamos aumentar a aproximação ao máximo
possível. – Uma nova imagem surgiu na tela, e o astrônomo prosseguiu - Mesmo
com esta imagem desfocada, pode-se ver claramente que as sombras são
projetadas de enormes objetos cilíndricos, sobre a cratera.
- Eles estaria flutuando sobre a cratera? – perguntou a Coronel Rosário. –
Dirigíveis?
- Não, senhora Coronel – respondeu Rogério. – Com absoluta certeza não, pois
não existe atmosfera na Lua.
As discussões quanto as impressionantes imagens seguiram com comoção cada
vez maior, até que Donatti interveio:
- Senhoras e senhores, não foi apenas isso que descobrimos na Lua!
Numa sucessão de imagens, eles exibiram novas provas fotográficas de
estranhos fenômenos luminosos, objetos que pareciam possuir contornos
geométricos, e o mais surpreendente, segundo Rogério, foram as descobertas
em dois locais:
- Primeiro, no Mar da Tranquilidade, uma grande área escura quase no centro
da Lua, facilmente visível quando esta se apresenta na fase cheia. Tiramos
fotos nas últimas noites, em diversos horários, para recolher o maior número
possível de informações...
As imagens mostravam o relevo pontilhado de pequenas crateras, depressões, e
um conjunto de ao menos cinco objetos parecidos com torres ou edifícios,
acompanhados a pouca distância por um espigão bem maior. As torres reluziam
ao Sol, e produziam nítidas sombras na superfície lunar.
O segundo conjunto de fotos mostrava, conforme Donatti explicou, a cratera
Kepler. Nas proximidades desta, silhuetas nítidas que também produziam
sombras, e que causaram profunda impressão no Almirante Coimbra:
- Meu Deus... são pirâmides!? Na superfície da Lua? Se parecem com os
monumentos de Gizé, no Egito!
O Almirante acompanhara o falecido Imperador Pedro II em várias de suas
viagens, inclusive na visita ao país das pirâmides, no norte da África.
Todos estavam mudos de espanto, e Donatti, com um sorriso nos lábios,
concluiu:
- Uma única conclusão, no tocante aos objetivos de nossa missão, pode advir
das provas que aqui apresentamos as senhoras e senhores. É impossível que os
argentinos tenham construído esses portentos em nosso satélite natural.
Absolutamente impossível.
- Mas então... por quem? – perguntou a capitã Celeste estupefata.
- Quem pode saber, minha cara capitã – devolveu Donatti. – Estamos em uma
época maravilhosa, de deslumbres científicos formidáveis, e notáveis
conquistas em todos os campos do saber. Ao que consta, em suas primeiras
experiências com o telégrafo sem fio, o próprio Marconi em pessoa jura haver
captado transmissões em línguas desconhecidas, e vindas de aparentemente
lugar algum. Nós astrônomos estamos convencidos de que o vasto Universo
acima de nós é muito mais amplo e misterioso do que qualquer um de nós pode
imaginar. Então, se nós estamos aqui na Terra, quem sabe em outros
planetas...
- Pessoas de outros planetas, está dizendo? – perguntou a Coronel Suzana do
Rosário. – Isso é loucura!
- Será mesmo? – questionou Rogério. – Apresentamos aqui provas, cara
Coronel, evidências irrefutáveis de que existe algum tipo de construção na
Lua. Veja, tais estruturas são gigantescas! Nem com os recursos das nações
mais ricas e avançadas tecnologicamente de nosso mundo reunidos, poderíamos
empreender algo assim! Ainda não!
- Certamente será impossível por muitos anos ainda – concordou o Coronel
Gonçalves.
As conversas seguiam tensas, e Donatti se preparava para exibir outras
imagens, quando um oficial subalterno veio chamar o comandante do dirigível.
Gonçalves voltou dali a poucos minutos, com notícias devastadoras:
- Lamento informar que teremos que interromper a missão e voltar...

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 10h51
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Steampunk, AURORA

Continuação...

Simplesmente, mesmo os cálculos tendo sido realizados no Centro de
Processamento Matemático Autônomo da Base de Peruíbe, que contava inclusive
com um tabulador elétrico concebido pelo americano Herman Hollerith, que
concebera um engenho similar, mas muito menor, a fim de obter os resultados
do censo norte-americano de 1890 em um terço do tempo normalmente utilizado,
não foram precisos o suficiente. O ar comprimido havia se exaurido com muito
maior rapidez do que supunham, e a autonomia de uma semana revelou-se bem
menor.
- Contra os duros fatos, Coronel – comentou o Almirante Coimbra – não há o
que possamos fazer. Por favor, comece os preparativos para a descida.
- Sim senhor!
Gonçalves tomou todas as providências. A energia de que dispunham não era
suficiente sequer para bombear o escasso ar que havia lá fora para os
compartimentos inferiores dos envoltórios, com o que o dirigível se tornava
mais pesado e descia. Foi necessário expelir aos poucos o hidrogênio dos
bolsões internos principais.

Correndo para o observatório, Rogério tinha a intenção de auxiliar nos
trabalhos de organização das informações obtidas. Saindo por uma das
escotilhas, deparou-se com Maria, que vinha em sentido contrário.
- Parece que nosso tour terminou.
Ela parecia ter o dom de surpreendê-lo. Daminelli não conseguiu decifrar sua
expressão, quando a moça o agarrou e deu-lhe um longo beijo. Depois, sem
dizer nada, prosseguiu em seu caminho.
O astrônomo a viu desaparecer na curva do corredor e depois, ainda tomado
pela surpresa, retomou seu caminho.

A Coronel Rosário apressou-se para dentro da pequena sala do telégrafo sem
fio, quando recebeu o recado de que a resposta a sua mensagem de menos de
uma hora antes havia chegado. Leu a curta nota, com ar cada vez mais
preocupado. Depois a rasgou em pequenos pedaços e guardou no bolso.
- Tudo bem, Coronel? – perguntou o sargento que cuidava do equipamento.
- Claro que sim, sargento – respondeu ela, com expressão decidida. – Quando
chegam ordens, devemos cumpri-las, certo?
- É para isso que servimos ao Imperador, Coronel.
- Exatamente...
Ela rapidamente puxou o punhal que sempre trazia no lado esquerdo do
quadril, com o qual cortou a garganta do sargento. O jovem caiu sobre o
equipamento sem soltar qualquer grito. Rosário apanhou um papel de dentro da
farda, abriu-o e conferiu o esquema que ali havia com a aparelhagem diante
de si. Puxou alguns fios, trocando as conexões, e depois afastou-se
depressa.
Poucos minutos depois, perigosas fagulhas começaram a saltar do equipamento
em curto-circuito.

Aurora já estava a sete mil metros de altitude, atingindo as primeiras
nuvens. Foi dada a ordem de acender as caldeiras principais, e restaurar a
energia com os dois conjuntos de turbinas a vapor. Na caldeira do envoltório
traseiro, um jovem tenente aproximou-se de uma das tampas posteriores com um
pequeno recipiente nas mãos.
Embora vestisse a farda da Marinha Aérea, sua lealdade residia com o
Exército. Fora precisamente instruído a realizar aquela ação, e uma medalha
lhe fora prometida. Ele abriu uma pequena portinhola, e sentiu o calor
escaldante vindo do interior da caldeira, recebendo quantidades cada vez
maiores de óleo combustível que começava a queimar. O tenente jogou ali o
recipiente, confiante em ter cumprido sua missão.
Mas ele nunca receberia uma medalha por seu feito, pois instantes depois de
fechar a portinhola, uma devastadora explosão o aniquilou, bem como todos
que estavam na traseira do envoltório posterior.

- O que foi isso?
O Professor Donatti fizera a pergunta, quando ele, Rogério, Coimbra e
Gonçalves estavam na sala de comando principal, no envoltório dianteiro,
quando a explosão se fez ouvir. Tendo já atingido menos de três mil metros
de altitude, já podiam abrir as janelas externas.
Alfonso foi o primeiro a colocar a cabeça pra fora, e viu grandes pedaços em
chamas caírem da parte de trás da nave. Os demais logo constataram a
tragédia, e notícias devastadoras chegavam, trazidas pelos soldados.
Rapidamente Gonçalves os colocou a par de tudo, após falar com os
subordinados:
- A caldeira traseira explodiu por algum motivo que ainda não sabemos. O
pessoal expeliu o restante de hidrogênio dos compartimentos da metade
posterior daquele envoltório, mas o fogo se alastra. E a sala de telegrafia,
neste envoltório, igualmente está em chamas.
As reservas de água estavam reduzidas, e usaram o que restava para tentar
combater o incêndio, mas com poucos resultados. Gonçalves finalmente deu a
ordem de evacuar a seção traseira do Aurora:
- Iremos nos separar, é a única forma.
Todos olharam ao redor, e Donatti e Alfonso não estavam.
- Onde estão aqueles dois? – perguntou Coimbra.
- Devem ter ido ao telescópio, Almirante – respondeu Rogério. – ainda
restaram lá muitas chapas que batemos na noite passada.
- Tolo! Não há como separarmos a parte traseira, sem abandonarmos também o
telescópio. Vai despencar e morrer!
- Dê-me alguns minutos, Almirante, e os trago de volta!

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 10h49
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Steampunk, AURORA

Continuação...

Depois de alguns instantes, Coimbra cobriu a mão metálica com uma luva, e
disse:
- Vou ajudar os homens da ciência... nós militares, sempre temos que salvar
sua pele, afinal!

Na parte inferior do compartimento do telescópio, o ruído das explosões na
parte traseira era ainda mais apavorante. Por cima, sem a sustentação
daquela parte, o Aurora começou a pender para trás.
Alfonso fez várias viagens pelo estreito túnel que conectava o compartimento
ao envoltório dianteiro, e conseguiu trazer a maioria das chapas. O
Professor Donatti ia recolhendo-as.
Depois de uma última olhada, entrou no estreito corredor, quando deu com o
Professor Donatti.
- Professor, o que houve?
Donatti não dizia nada. Subitamente, um disparo, e o Professor estremece por
um instante, para finalmente cair para frente, nos braços do fiel auxiliar.
- Professor! – grita Alfonso. Mas quando olha adiante, percebe que o fim
chegara também pra ele.
A Coronel Rosário fechou a porta, isolando-os da metade dianteira do Aurora,
e acionou um comando atrás de uma portinhola. Alfonso sentiu explosões muito
próximas, olhou para fora por uma pequena vigia redonda e viu as vigas se
partirem, ação provocada por dispositivos pirotécnicos dispostos para uso em
caso de separação da nave.
Instantes depois da última explosão, Alfonso sentiu o corredor ser virado,
apontando para cima. Ele e o corpo sem vida do Professor Donatti, o grande
gênio da astronomia e descobridor de inúmeros cometas e nebulosas, caíram no
vazio, junto ao Telescópio Pedro II e toda a parte traseira em chamas do
dirigível experimentar Aurora.
Mas antes de atingirem o oceano ao largo do litoral sul de São Paulo, uma
devastadora explosão os consumiu.

Rogério chegou bem a tempo de testemunhar o horrendo ato de Rosário, e
tentou lugar com ela. A militar o dominou rapidamente, empurrou-o contra a
parede, e com o punhal atravessou seu ombro, deixando-o espetado contra a
parede.
O astrônomo gritava de dor, ao mesmo tempo se surpreendendo com a chegada de
Coimbra. Pelas janelas ele testemunhou a terrível explosão de metade do
Aurora, e gritou:
- Rosário, maldita, o que fez!?
O Almirante Coimbra brandiu seu sabre, e disse:
- Está louca? Você matou o Professor Donatti e todos que ainda estavam lá!
- Ordens, Almirante – disse a Coronel segura de si. – Temos um inimigo se
fortalecendo próximo a nossas fronteiras, e precisamos de uma motivação
plausível para lidar adequadamente com ele.
Ela apontou para fora, e o Almirante viu, pela janela, a chegada de um
dirigível bem menor pintado nas cores argentinas. A Coronel disse:
- Naturalmente está vindo para nos resgatar, e irá desaparecer tão rápido
quanto chegou. O plano sempre foi forjar um ataque ao Aurora. E que será
visto por um número adequado de testemunhas...
A guerra contra a Argentina. Era isso que um círculo cada vez maior de
militares e o novo Imperador queriam. Rosário ainda acrescentou:
- Sabe, tão bem quanto eu, Almirante, que guerra quer dizer progresso
tecnológico...
Coimbra brandiu seu sabre, mas a oficial era mais ágil, e já tinha seu
revólver na mão. Um tiro ressoou dolorosamente pela pequena câmara, e o
Almirante tombou atingido no peito.
Rosário apanhou a bolsa onde as principais fotografias estavam. Alguns
caixotes contendo as outras chapas estavam espalhados por ali. Novas
explosões sacudiram o que restava da nave, testemunhas de que o combate ao
fogo não estava sendo bem sucedido. A Coronel não prestou atenção a eles,
voltou-se para Rogério e disse:
- Até logo, senhor Daminelli, foi um praz...
Interrompeu-se em meio a frase, quando a ponta do sabre de Coimbra saiu pelo
seu ventre. O Almirante tombou morto em seguida a seu último ato.
Rosário começou a tossir sangue, largou a bolsa e caiu de joelhos. Rogério
não conseguiu disfarçar o sentimento de justiça e vingança que passou a
sentir, que auxiliavam a aliviar a terrível dor que sentia no ombro. Entre
um grito e outro, tentava se desvencilhar, quando ouviu passos.
- Aqui! – gritou ele entre um pico de dor e outro – Me ajude, por favor!
Para sua surpresa, Maria Celeste surgiu na porta. Rosário estendeu a mão a
ela, segurando a lâmina do sabre com a outra, e disse:
- Capitã... Maria... me ajude... por favor...
Maria aproximou-se de Rosário, e um estranho sorriso despontou em seus
lábios. Com uma maldade e satisfação que deu calafrios em Rogério, ela
disse:
- E você, sua negra arrogante, achou mesmo que era a principal cabeça neste
plano, não é mesmo?
A expressão de espanto de Rosário só não era maior que sua mostra de dor, e
Maria completou:
- O pior de tudo isso, foi fingir que era sua subordinada... É
impressionante, realmente acreditava que havia sido recebida junto a elite!
Espero que morra bem devagar...
Rosário tombou de lado, e seu corpo ficou inerte, os olhos arregalados
fitando o vazio. Maria aproximou-se de Rogério, depositou um apaixonado
beijo em seus lábios, e disse:
- Meu amado... é uma pena acabar assim...
- Por que? – perguntou Rogério sem entender.
- Porque é o que fazemos! É o que eu faço, meu querido. O que é necessário
para servir o Imperador.
- Aquilo lá no domo também foi para servir?
Ela sorriu, aproximou-se e acariciou seu rosto. Deu-lhe mais um beijo
apaixonado, explorando a boca de Rogério com a língua, antes de se afastar
e, com o mesmo sorriso triste, responder:
- Não, meu amado. Aquilo foi porque eu te amo e te quero. E agora, preciso
deixá-lo ir. Não se entristeça, você e o Professor Donatti serão heróis do
Império.
Ela apanhou a bolsa, lançou-lhe um último olhar e saiu andando. Rogério fez
novas tentativas de se livrar do punhal, sempre entremeadas de gritos de dor
lancinante, e quando achou que já não lhe restava mais forças, conseguiu se
libertar.
Correu tropeçando pelos compartimentos, e por uma vigia aberta viu Maria
atravessando uma corda jogada do outro dirigível, e sendo acolhida a bordo.
A seguir, a outra nave exibiu dois pequenos canhões, com os quais disparou
no Aurora antes de virar e se afastar.
Rogério sentiu os impactos, e o dirigível adernar consideravelmente.
Cambaleou até a sala de comando, que estava tomada pelo caos. A altitude
diminuía consideravelmente, pois quase todo o hidrogênio havia sido expulso,
numa tentativa de controlar o incêndio.
Gonçalves se virou para ele, o rosto coberto de fuligem negra, e perguntou
diante de suas roupas manchadas de sangue:
- O que houve?
Rogério hesitou, e por fim explicou tudo. Gonçalves era um tipo extremamente
controlado, e disse simplesmente:
- Mais tarde deverá apresentar esses fatos as autoridades, meu amigo! Temos
que tirá-lo em segurança daqui. Sargento!
Um dos auxiliares veio, e Gonçalves deu ordem de o jovem levar Rogério em
segurança para o chão com um dos planadores de bordo. Eram estruturas em
forma de asas de pássaro, construídas com telas e bambus, e que esperavam
fossem úteis para escapar de emergências a bordo de dirigíveis.
Mas não houve tempo. Assim que Rogério abriu a boca para dizer que havia
esquecido as caixas com as chapas fotográficas, uma explosão maior dividiu o
Aurora em dois.
O que fora o orgulho da Marinha Aérea, símbolo da capacidade tecnológica das
forças imperiais brasileiras, caiu em chamas no mar, cerca de quatro
quilômetros além da Base de Peruíbe.

Entre os poucos sobreviventes resgatados, estava o Coronel Gonçalves.
Bastante ferido, demorou meses para se recuperar. Quase nada havia restado
de sua antiga verve militar, e o pobre coitado claramente pareceu aos
especialistas em saúde perder as faculdades mentais. Foi internado em um
hospício de segurança máxima em Santos.
Na mesma semana em que a tragédia com o fabuloso dirigível experimental
Aurora fora anunciada pelos jornais, os primeiros dirigíveis de ataque
estratégico atacaram a Argentina. Os aeróstatos brasileiros sobrevoaram e
bombardearam Buenos Aires, fora do alcance das defesas portenhas. O
Imperador saudou os primeiros resultados como uma comprovação inequívoca da
capacidade científica e militar brasileira, e das novas tecnologias
desenvolvidas com o auxílio do Aurora.
- Perdemos, graças a infâmia de vizinhos traiçoeiros – disse o Imperador em
um discurso no Rio de Janeiro – o Aurora e as insubstituíveis vidas a bordo.
Mas esse sacrifício não foi em vão, pois foi com essa realização
inesquecível de nossos técnicos e cientistas que puderam ser criadas as
máquinas com que protegemos nossa grande nação. Esse legado, o dos heróis do
Aurora, viverá para sempre!
A Tenente-Coronel Maria Celeste era um dos oficiais de alto escalão que
acompanhavam o pronunciamento do Imperador.

Epílogo

Na quarta noite após a destruição do Aurora um barco de pesca a vapor
singrava o mar nas proximidades da Juréia, extremo sul do litoral paulista,
quando sua viagem foi interrompida por batidas no casco.
Os tripulantes foram ver, e viram muitos destroços na água. Procuraram
afastá-los com compridos arpões, quando alguns outros chamaram sua atenção.
- Veja, capitão, caixas! – apontou o imediato.
- Tem alguma coisa mais ali – disse um outro tripulante.
Deslocaram a embarcação para lá, e para sua surpresa, encontraram um homem
ferido agarrado a uma das caixas.
Puxaram o desconhecido a bordo. Estava muito pálido e magro, e logo o
secaram, tiraram suas roupas rasgadas e o cobriram em uma cama, além de
cuidar dos ferimentos. Enquanto isso, o capitão e o imediato examinavam ali
ao lado o conteúdo das caixas.
- São fotos, capitão, e parecem da Lua.
- Sim, fotos da Lua. Estranho, como vieram parar no mar? Onde foram tiradas,
sabe de algum telescópio capaz disso no litoral?
O imediato fez que não, e nesse momento ouviram agitação as suas costas. Os
homens seguravam o náufrago, que se agitava e tentava lutar com eles.
O capitão se aproximou, e disse que estava tudo bem, que eles o haviam
resgatado. O rapaz acalmou-se aos poucos, aceitou o copo de água que lhe
ofereceram, e o capitão ainda mandou preparar comida. Finalmente, o rapaz
disse com voz fraca:
- Senhor..., meu nome é Rogério Daminelli..., e preciso chegar a terra o
quanto antes...

E então, gostaram desta viagem ao finalzinho do século dezenove?
Outro link ao lado para o qual os convido é meu outro blog, Escritor
Proibido, onde está publicado um conto muito quente de minha amiga Roberta
Nunes!
E claro, meu livro, De Roswell a Varginha, não é steampunk!



Poderia ser alienpunk? Ufopunk?

Queria agradecer também ao Carlos pelo comentário:

http://radartrash.blogspot.com/2009/08/de-roswell-varginha.html

Bom, confiram e comprem nos links aí ao lado, da Tarja Livros, da Livraria
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combinarmos uma seção de autógrafos, fiquem a vontade. Até a próxima!

Contato: escritorcomr@uol.com.br .



Escrito por Escritor às 10h48
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