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Novo conto e outras novidades

Olá, pessoas!
Foram semanas movimentadas as últimas, o III Fórum Mundial de Ufologia, muita coisa acontecendo. Finalmente tive um tempo para respirar e atualizar o blog.

Viram a Ufo 155? Essa capa traz magníficas recordações, esse lance de arquivos secretos... não é mesmo, excers?

Aguardem a 156, já vi a capa, ficou sensacional, e tem nossa cobertura do Fórum lá em Curitiba. Por sinal, nos links de alguns posts abaixo podem conferir relatos iniciais de como foi esse grande evento.

Mais novidades, se repararem na coleção de links aí ao lado, abaixo do histórico, tem um com o título O Escritor Proibido. É meu novo blog, com contos eróticos, ensaios com garotas maravilhosas e coisas afins. Naturalmente o próprio nome indica que é proibido para menores, então não reclamem depois, entendido? Espero que gostem, visitem e comentem!

E conto novo! Se prestarem atenção verão gente já conhecida, tanto do conto Zé da Pinga, postado aqui anteriormente, quanto de meu livro De Roswell a Varginha. Por sinal, vejam também nos links ao lado onde adquiri-lo, garanto que não se arrependerão, e sequências bem quentes estão na fila!

O CASO SANTA CRUZ DO CACHIMBO

Passava da meia noite, e Armino e Celestino vinham caminhando pela trilha, depois de mais um longo dia. Como centenas de outras pessoas, haviam sido contratadas pela Madeireira Quintino para trabalhar no que estava sendo chamado de “projeto de reflorestamento”.
A imprensa e organizações ecológicas vinham nos últimos dias denunciando que o tal projeto envolvia apenas a retirada de madeiras nobres como mogno e carvalho da região, sem qualquer controle. Os dois trabalhadores, humildes e pouco letrados como a absoluta maioria dos moradores da remota cidadezinha no meio da selva, pouco entendiam de toda aquela polêmica. O que importava era que, depois de um bom tempo, dinheiro estava movimentando a economia de Santa Cruz do Cachimbo.
Os dois vinham caminhando pela trilha escura, auxiliados pelo luar e por um velho lampião a carvão, quando subitamente sentiram um arrepio.
Histórias vinham sendo contadas nos últimos dias, e eles atribuíam as mesmas as velhas lendas do lugar. Alguns diziam que o boitatá estava assediando as redondezas, muitas vezes acompanhado pelo curupira. Um conhecido deles, Neto, havia tido um colapso nervoso, aparentemente após um arrepiante encontro com uma dessas entidades.
Armino, que segurava o pequeno lampião, voltou a luz para todos os lados, mas não viu nada. Celestino agarrou seu facão, pronto para tudo.
Mas ele não estava pronto para aquela figura magra e baixa, subitamente iluminada pela luz do lampião. De relance, perceberam o reflexo dos olhos vermelhos.
Os únicos sons foram os gritos dos homens, o lampião largado de quebrando no chão, e os passos dos homens, que corriam desesperados afastando-se.
O curupira fizera duas novas vítimas.
Célia, Marcelo e Renato eram ufólogos de um grupo de Campinas, que haviam conseguido certo reconhecimento quando publicaram na revista Ovni, ainda no começo de 2000, o relato de um caso que pesquisaram no interior paulista. Haviam chegado ainda naquela manhã a Santa Cruz do Cachimbo, atraídos pelos estranhos fenômenos que assolavam a cidade, e especialmente a Madeireira Quintino, havia algumas semanas.
- Então, foi um longo caminho desde que investigaram o tal mendigo lá em São Paulo, como era o nome mesmo? Zé da Pinga, né?
Euclides Mourato, o único ufólogo da cidade e seu contato, fazia troça, mas ao mesmo tempo respeitava o trabalho deles. Estava particularmente impressionado com o material que haviam trazido, especialmente o laptop com conexão por satélite de Renato:
- Isso vai deixar o povo daqui maluco, meu amigo.
- Auxilia muito nas pesquisas, Euclides, respondeu o jovem ufólogo. Montei com a ajuda de uns colegas de São Paulo, capital.
Marcelo, o líder do grupo de Campinas, não gostava muito de conversa fiada, e logo pedia mais detalhes:
- Então, Euclides, você acha que o que está assustando os trabalhadores são ocorrências ufológicas?
Euclides fumava, e soltou algumas baforadas de um cigarro de palha, antes de responder:
- Sim, como sabem, vários pesquisadores dizem que certas lendas do folclore tem origem nos extraterrestres, não é? Acho que é o que está acontecendo aqui. Primeiro as testemunhas descreviam pequenas bolas de luz voando pela região, que afetavam motores e equipamento elétrico.
- O boitatá, disse Célia, segundo a interpretação popular desse fenômeno.
- É isso aí. Depois começaram as visões do Curupira...
Euclides mostrou um desenho que havia feito, de acordo com a descrição das testemunhas, acrescentando:
- Aprendi a desenhar justamente para poder representar melhor o que testemunhas descrevem. Aqui a nossa região é rica em avistamentos.
Os três observaram o desenho. Uma criatura escura, magra e de cabeça grande, com imensos olhos vermelhos. Renato disse o óbvio:
- Parece com as criaturas do Caso Varginha!
Euclides ia responder, mas pareceu lembrar-se de algo, ligou o rádio na estante atrás de si, e pediu que todos escutassem.
O anúncio inicial foi do bloco de notícias, mas as mesmas mais pareciam um filme de terror:
- Nesta última madrugada, caros ouvintes, mais dois cidadãos de Santa Cruz foram aterrorizados, enquanto voltavam do serviço na Madeireira Quintino.
- As duas testemunhas foram atacadas por uma estranha criatura, que identificaram como o misterioso curupira. Isso mesmo, caros ouvintes! As forças da natureza, irritadas e ultrajadas pela contínua agressão desses devastadores da Madeireira Quintino, estão começando a vingar-se da estupidez humana!
Enquanto o locutor prosseguia com o clima de fim de mundo, Marcelo virou-se para Euclides e perguntou:
- Quem é esse maluco?
- É um tal de Bernardo Pontes, chegou faz uns dois anos e colocou muito dinheiro na Rádio Cruz, a única aqui da região. Depois de se desentender com o antigo dono, comprou a rádio, e agora faz essa pregação ecológica.
- Mais parece eco-xiita, disse Renato.
- Pela primeira vez, concordamos, brincou Célia. Isso não é jeito de tratar desse caso. Nem sabemos com o quê estamos lidando.
Euclides concordou, e contou um pouco da história do lugar. Com pouco mais de cinco mil habitantes, Santa Cruz do Cachimbo era uma vila que ganhou status de cidade em 1998. Poucas ruas eram asfaltadas, e a cidade dependia quase em sua totalidade do que chegava em caminhões pelas precárias estradas da região, além de ocasionalmente pelo pequeno aeroporto, com pista de terra, que distava menos de dois quilômetros do centro da cidade.
Bernardo havia ficado conhecido pela pregação ecológica, dizendo-se ligado a ONGs e até ao Greenpeace, e até argumentando que a natureza da região estava sendo cada vez mais agredida. As vezes, dizia que deveriam abandonar, pura e simplesmente, a localidade.
Um barulho de avião ecoou pela cidade e os interrompeu, e olhando pela janela eles viram um grupo de quatro aeronaves passar a distância. Renato comentou:
- São os Super Tucano, de treinamento e ataque da FAB. Deve ser comum aqui, afinal não estamos longe da Base da Força Aérea do Cachimbo.
Euclides concordou, e Renato acrescentou:
- Além do mais, correm informações que nessa base são realizadas experiências secretas, até mesmo com relação a ovnis...
- Renato, melhor nem começar, disse Marcelo. Acho que temos que começar a investigar mais a fundo esses fenômenos. Mas antes quero dar uma palavra com o tal Pontes. Parece muito bem informado.
Todos concordaram. Euclides disse que tinha coisas a fazer, mas que depois os encontraria na casa das primeiras testemunhas. Tudo combinado, seguiram seu rumo.
Na Rádio Cruz, Bernardo e os poucos funcionários, todos fiéis a seu ponto de vista, ficaram satisfeitos em ver ufólogos na cidade, o que surpreendeu o trio. Feitas as apresentações e depois de conversas sobre amenidades, em que Pontes disse ser também do interior de São Paulo, o dono da rádio perguntou:
- Então, estão aqui para investigar essas ocorrências?
Os três se entreolharam, e Marcelo respondeu:
- Faz algum tempo que mantemos contato com o Euclides, e diante do que ele tem nos descrito em seus emails, decidimos vir investigar. Parece tudo muito estranho.
- Com certeza, disse Pontes. Acham mesmo que tudo isso tem a ver com discos voadores?
- Achamos possível, respondeu Renato. Afinal, muitas teorias assinalam que certos aspectos do folclore podem ter origem no fenômeno ufológico.
- Tal como o curupira ou o boitatá, que o povo daqui anda descrevendo?
- Na verdade, interrompeu Marcelo, estamos interessados em discutir como obtém suas informações, e a forma como tem explorado o caso. Acabamos de ouvir pela rádio sua descrição dos eventos da madrugada passada.
Bernardo se levantou, e parecendo empolgado disse:
- Muito legal, hein? Olha, francamente não me importa nem um pouco uma explicação para esses tais fenômenos. Na verdade, minha opinião é que não passa de histeria. Sabe como é, o povo aqui é ignorante, preconceituoso...
Depois de uma pausa, onde claramente o radialista nem se importou com a cara de espanto dos visitantes, prosseguiu:
- Tudo que me interessa é que, quanto mais medo a população da cidade tiver, mais prejuízo aqueles malditos da Quintino terão.
- Quer dizer que seu objetivo, perguntou Célia, é expulsar a madeireira daqui?
- Mas pensei que isso estivesse claro! Lógico! Nos últimos cinco meses, esses cretinos já derrubaram pelo menos dois alqueires de floresta nativa. Isso é um crime, ainda mais que eles não têm qualquer licença ambiental. Já denunciamos ao Ibama, ajudamos de todas as formas os fiscais que vieram aqui faz dois meses, mas esses palermas só aplicam multas irrisórias, e tudo fica por isso mesmo!
Marcelo não era de se perturbar por pouco, mas o fanatismo de Pontes já começava a incomodá-lo. Viu que era exatamente o tipo que Renato descrevera antes, e ficou torcendo para que o jovem colega se contivesse. Perguntou:
- Mas a madeireira não está empregando pessoas da cidade, e movimentando a economia local?
- Ele quase se arrependeu de ter feito a pergunta. Pontes ficou com os olhos vidrados e arregalados, e quase babando de indignação vociferou:
- Oras, mas é claro que o prefeito e até o padre são totalmente favoráveis a esses calhordas! Tudo pela economia, empregos, “o progresso chegando a Santa Cruz” como aquele imbecil do prefeito Fortunato discursou recentemente. Mas e a natureza, como fica? Não temos o direito de destruir a floresta, o maior patrimônio do Brasil!

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 12h12
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Novo conto e outras novidades

Continuação...

Bernardo começou um discurso indignado contra as grandes corporações, mas Marcelo não se impressionou. Levantando-se e olhando o relógio, interrompeu-o e disse:
- Lamento, caro Pontes. Nosso tempo aqui é curto, e temos muito a fazer. Quem sabe possamos conversar outra hora?
Pontes obviamente não ficou nada contente com a interrupção, mas se conteve enquanto cumprimentava secamente o grupo. Depois que saíram, voltou-se para seu repórter e fotógrafo, dizendo que seguisse os três.
Quando chegaram ao lugar combinado, os paulistas se surpreenderam com a multidão. Encontraram Euclides só depois de abrir caminho entre muitas pessoas. O ufólogo local falava com uma senhora:
- Mas dona Gertrudes, isso não é motivo para...
A senhora saía e voltava a entrar na modesta casa, carregando peças de mobiliário, eletrodomésticos e roupas, auxiliada pelo marido e pelos seis filhos. A mudança era colocada em um pequeno caminhão velho e com muitas partes enferrujadas. A dado momento, a mulher virou-se para Euclides e disse:
- Olha, seu Euclides, primeiro meu marido e meu mais velho viram o boitatá lá na madeireira, e ontem a noite o curupira veio assombrar a gente! Nunca vou esquecer aqueles “oio” vermelho, da cor do fogo! Boa coisa não é, essa cidade está amaldiçoada, e nós “vamu” embora daqui!
Nesse momento, chegaram em um carro oficial o prefeito, Astrogildo Nonato, e o padre Bartolomeu Ramos. Ambos desceram e conversaram longamente com dona Gertrudes, mas a dona de casa estava irredutível. Marcelo já havia reparado na expressão de medo nos filhos da mulher, e por precaução alertou Renato para que não saísse fazendo perguntas.
O prefeito elevou a voz, para falar as dezenas de curiosos reunidos no local, dizendo:
- Minha gente, bom povo de Santa Cruz do Cachimbo. Posso garantir que nada de estranho está acontecendo. Tudo continua em paz em nossa amada cidade, e se algo fora do normal está ocorrendo, é a intromissão de elementos de fora, como aquele radialista dos infernos!
Diante dos aplausos de alguns que haviam chegado há pouco, e a indiferença da maioria, Nonato continuou:
- Irei hoje mesmo entrar em contato com o governador de nosso estado e se não der certo com o próprio ministro das comunicações! Quero esse tal de Pontes bem longe daqui!
O pequeno grupo de puxa-sacos, obviamente trazido até ali para puxar os aplausos, novamente fez barulho. Mas dona Gertrudes não quis mais conversa. Toda a família embarcou no pequeno caminhão, que logo sumia pela estrada poeirenta.
Os ufólogos não tiveram muito a fazer. Entrevistaram aqui e ali algumas pessoas, que em sua maioria demonstravam medo. Mas algumas de fato confirmavam as estranhas visões, que andavam aterrorizando a pequena cidade. E todos acompanhavam as manifestações de Bernardo Pontes.
- Pelo visto, esse cara tem muitos fãs na cidade.
Renato disse isso, enquanto olhava ao redor antes de abrir um pequeno portão, no muro baixo dos fundos da casa de dona Gertrudes. Célia disse:
- Você é maluco, o que pensa que está fazendo?
Antes que pudessem impedi-lo, já estava dentro do terreno, e logo os chamava:
- Ah, gente, acho melhor virem aqui...
Todos viram afinal asa pegadas do que quer que tenha assustado a família que acabara de fugir da cidade. Pegadas grandes, de um pé que possuía apenas dois dedos grossos.
No final da tarde, Euclides sugeriu que fossem a igreja da cidade para conferir o clima da missa:
- Pode ser que encontremos mais testemunhas, sei que a maioria do povo tem ido mais a igreja.
Quase se arrependeram quando viram que a mesma estava abarrotada. Para a multidão, o padre Ramos vociferava o sermão:
- E alguns ficam dizendo que o curupira isso, o boitatá aquilo... Outros afirmam que é errado apoiarmos o desenvolvimento de nosso município, que tem trazido trabalho para tantos de nossos cidadãos. Mas essas são pessoas de pouca fé, meus amigos!
Ele fez um intervalo e prosseguiu:
- São descrentes, que renegam as palavras do Senhor, quando disse: “crescei e multiplicai-vos, e dominai a Terra”! Ninguém está aqui apoiando a destruição da natureza, até mesmo porque seria destruir a própria Criação! Mas os métodos de insuflar o medo na população, ou apelar para crendices que nada têm de cristãs... Minha gente, cuidado! O caminho para o próprio inferno está cheio de palavras sedutoras!
Ramos não disfarçou nem um pouco ao voltar um olhar duro para os ufólogos. Euclides já havia comentado que andara tendo uns pegas com o homem nos últimos tempos. Acabaram decidindo ir embora, desistindo de entrevistar as pessoas.
A casa de Euclides era pequena, mas suficiente para hospedar os três. Jantaram e ficaram discutindo os acontecimentos, quando a rádio novamente os interrompeu:
- E tivemos notícias, durante a fuga da família da conhecida quituteira dona Gertrudes, que o grupo de ufólogos vindos de São Paulo deu seu aval aos estranhos fenômenos que tem ocorrido por Santa Cruz. É passada a hora de esta cidade realmente discutir os efeitos nefastos da presença da Madeireira Quintino, que com seus métodos predatórios está destruindo a floresta!
- Vou acabar com esse cara, disse Renato.
Marcelo ria, e com muito custo respondeu:
- Deixe para lá, amigo. Esse sujeito é um palhaço, só quer saber de audiência. Até parece que não conhece o tipo.
Acabaram indo dormir, deixando para a manhã seguinte a decisão de visitar ou não a madeireira.
Clarinha namorava Everton escondido, e costumava sair por volta da meia noite para visitar o amado em sua casa. Aquela madrugada de paixão havia sido ótima, como todas as outras, e o casal se despedia com beijos ardentes ainda na porta de Everton, quando ouviram um ruído.
Voltaram-se para todos os lados, e nada. Clarinha mostrava-se assustada com os últimos acontecimentos, e comentou que seu tio também havia tomado um susto quando luzes estranhas voaram em torno do trator que dirigia. Everton procurava encorajar a moça, quando o mesmo barulho voltou, agora bem mais perto.
Olharam para o lado, e dessa vez viram. E o que viram fez com que gritassem de forma estridente.
A rua inteira saiu ao mesmo tempo de casa, as pessoas de pijama assustadas e curiosas para saber o que era. Um e outro mais corajoso apanhou o revólver e dispôs-se a caçar o tal curupira. Clarinha, tremendo como se sentisse muito frio, aceitou um copo de água com açúcar da vizinha de Everton.
Era a mesma rua da casa de Euclides, e naturalmente os ufólogos correram para fora. Nesse momento, tiros foram ouvidos.
- Agora quero ver esse curupira dos infernos vir nos amolar de novo, gritou um espirituoso.
Mas outros gritos de pavor foram ouvidos, agora da mata ao lado, onde três homens entraram para caçar o “bicho estranho”. Alguns acenderam lanternas e lampiões, e logo os três foram encontrados, caídos e desmaiados com expressão de absoluto terror nos rostos.
Renato filmava e fotografava tudo, mas nem os ufólogos estavam prontos para o que veio a seguir.
Luzes, cinco ou seis, percorriam o espaço sobre os telhados da cidade, fazendo as pessoas correrem apavoradas. Os desmaiados que tentaram caçar o tal curupira foram largados onde estavam, e todos corriam para se proteger.
Até Euclides, Marcelo e Célia se abaixaram, mas sem deixar de observar os estranhos objetos. Ouvia-se os gritos de “boitatá” e “curupira” nos arredores. Renato, filmadora na mão, nem se importava com os rasantes dos objetos, parecendo fascinado com tudo aquilo.
Alguém ligou o rádio bem alto, e eles puderam ouvir:
- Atenção, caros ouvintes, esta é a Rádio Cruz, ao vivo para todo o sul do estado, transmitindo a invasão que está ocorrendo em Santa Cruz do Cachimbo. É incrível, senhoras e senhores! O povo apavorado diz que o boitatá e o curupira estão percorrendo a cidade, e perseguindo seus habitantes. Meu Deus! Uma luz impressionante, e muito veloz, acaba de passar pela janela de nosso estúdio, caros ouvintes!
Depois de uma pausa, a voz de Pontes voltou a ser ouvida:
- É uma invasão, caros ouvintes, disso não pode haver dúvida! As pessoas estão apavoradas, correndo e gritando pelas ruas, perseguidas pelos estranhos fenômenos. Isso só pode significar que algo ou alguém não está satisfeito, nada satisfeito, com a devastação ambiental promovida na área de nosso município. Não resta outra explicação! Nossa, novamente tivemos um objeto luminoso passando muito próximo da janela, senhoras e senhores! É hora de o bom povo de Santa Cruz do Cachimbo tomar seu destino em suas mãos, e decidir o que é melhor para a municipalidade. Deste repórter, já conhecem a opinião. A Madeireira Quintino tem que sair!
Enquanto tudo isso acontecia, a menos de dois quilômetros dali uma tensa reunião estava acontecendo em um trailer que funcionava como escritório da Madeireira Quintino.
Sebastião Torres, o gerente e principal responsável pela empresa, gritava com os funcionários. Não aguentava mais as constantes acusações do tal radialista, toda aquela confusão gerando uma tremenda boataria e empregados que se demitiam, mais as sucessivas visitas dos ficais do Ibama.
- Já não temos como ficar molhando a mão de cada fiscal que aparece!
O sujeito estava possesso. Os funcionários não sabiam o que responder. Evidentemente, o principal problema eram aquelas luzes que ninguém sabia de onde vinham, e o tal curupira. Um dos subordinados ainda chegou a tomar coragem e começar a descrever a aparição de que fora testemunha, apenas para Torres voltar a vociferar:
- Essa bobagem não existe! Cale a boca, ou demito você agora!
Nesse momento, o gerador que alimentava as instalações tossiu e parou, deixando tudo no escuro. Alguém ligou uma lanterna e correu para fora, voltando logo e dizendo que as baterias também não funcionavam.
Logo gritos começavam a ser ouvidos, fazendo todos saírem.
Ali estavam as luzes! Davam rasantes e lançavam fachos luminosos parecidos com laser. Torres e alguns outros estavam armados, e começaram a atirar. O gerente, fora de si, berrou:
- Vamos agora mesmo acabar com o safado que está aprontando essa prá cima da gente!
Saiu correndo sozinho, enquanto os demais, temerosos, só pensavam em se proteger daquelas coisas estranhas. Um subgerente afinal determinou que formassem duplas ou trios, e saíssem para investigar. Os tiros de Sebastião ecoavam pela escuridão.
Torres estava fulo, e disparou várias vezes contra as luzes. Mantinha a lanterna paralela a arma, usando as duas mãos como já vira em tantos filmes. Só pensava em apanhar o cretino que estava por trás daquela farsa.
Aproximou-se da caverna que haviam descoberto logo no início das operações. Por mais que não acreditasse naquelas histórias e crendices, aquilo realmente o punha para pensar as vezes. E ficou surpreso afinal, quando algumas das luzes mergulharam ali.
- Agora te pego, bastardo!
Pensou isso e aproximou-se, arma preparada para atirar, iluminando os arredores com a lanterna.

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 12h08
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Novo conto e outras novidades

Continuação...

Súbito, viu. As aparições de que o povo falava, ele soube imediatamente. E soube porque sentiu o mesmo pavor indescritível.
Não gritou nem emitiu qualquer som. Apenas ficou de olhos arregalados diante deles. E depois não sentiu mais nada.
Euclides, em um intervalo das surpreendentes aparições, foi conversar com Clarinha. A moça, ainda que muito abalada, descreveu o que vira, o mesmo ser que ele já descrevera aos colegas.
Marcelo e Célia aproximaram-se fazendo mais perguntas. O filho da vizinha, que também trabalhava na madeireira, disse que na noite anterior luzes muito parecidas haviam surgido no começo da noite, apavorando a todos.
- Eu é que não volto mais lá, disse o rapaz. Por mim a gente vai embora dessa cidade também, como a dona Gertrudes!
Everton acabou trazendo sozinho os três homens que haviam sido largados na beira da mata, quando os que os carregaram até ali fugiram apavorados. Um por vez o rapaz trouxe-os até a calçada, onde outros presentes os ajudavam. As luzes voltaram, agora sem dar rasantes, mas mesmo assim assustando a todos. Renato filmava e fotografava sem parar.
Havia um ponto de ônibus logo adiante, e chegou um coletivo de onde desembarcaram muitas pessoas. Duas luzes surgiram e deram novo rasante, fazendo vários dos recém chegados gritarem e correrem. Um rapaz se aproximou, mochila as costas, e diante do olhar espantado da vizinha perguntou:
- Mas o que raio que é isso?
Clarinha, mesmo abalada, quase conseguia acordar um dos homens, auxiliada pela vizinha, ergueu os olhos e viu.
Era Everton que acabara de chegar. Estranhando sua cara de espanto, ele disse:
- O que foi, meu bem? Precisei ir a Registro do Norte acertar umas coisas. Desculpe não avisar!
Clarinha não falava, parecia mal respirar. Everton estava a seu lado, na porta da casa, enquanto um segundo Everton encarava o grupo, próximo a mata.
Segundos de estupefação se passaram. Renato ainda apontou a câmera e bateu duas fotos, conseguindo captar os dois homens idênticos. Nisso, os olhos do que estava próximo a mata brilharam com tonalidade vermelha, e ele penetrou entre as árvores.
Euclides e Renato, sem pensar duas vezes, correram em seu encalço, enquanto Clarinha desmaiava, e outras pessoas berravam.
As luzes voltaram, novamente voando quase a altura da cabeça das pessoas. Muitos correram aterrorizados, outros se jogavam ao chão. Todas as luzes voaram para a mata, desaparecendo em um clarão mais forte, que vazou por entre a folhagem.
Célia e Marcelo acompanharam tudo, e depois tentaram ajudar as pessoas. A tensão que sentiam ao pensar nos companheiros era insuportável, mas poucos minutos depois Euclides e Renato apareceram. O jovem ufólogo disse, em tom deslumbrado:
- Meu, que viagem! Espero que a câmera tenha conseguido registrar!
Ninguém mais conseguiu dormir aquela noite. Renato passara a câmera fotográfica para Euclides, que tirou fotos de algo muito luminoso entre a vegetação. A filmadora, por outro lado, registrara a junção de todos os objetos em uma única luz, rente a uma clareira que existia algumas dezenas de metros mata adentro. Em meio a elas, podia se ver um vulto, que parecia mudar de forma antes de a luz simplesmente se apagar, e mais nada poder ser visto.
- Vou ver se consigo mandar para o pessoal de São Paulo!
Renato estava entusiasmado. No beiral da janela assentou a pequena antena via satélite, e logo conseguia uma conexão. A imagem na tela do laptop tremeluziu, e logo surgia a imagem de Franco, um dos amigos de São Paulo, que fazia parte do grupo que alguns poucos conheciam como Faroleiros.
- E aí, Franco, ninguém aí dorme, não?
- Estou adiantando a próxima edição do jornal, amigo. Mas me diga, o que quer a esta hora? Pensei que estavam na região norte.
- Estamos na região norte, meu! Olha, estou mandando uma filmagem e várias fotos, se puderem analisar, ficarei muito feliz.
Franco disse que sim, e logo os arquivos eram enviados. Combinaram de se falar quando regressassem a Campinas.
A notícia da morte do gerente da madeireira chegou logo que amanheceu. O posto de saúde da cidade estava longe de ser bem equipado, mas o médico de plantão atestou que Sebastião Torres morrera de ataque do coração. A cidade ficou dias comentando o que poderia ter causado o pavor em sua expressão.
Euclides, Marcelo, Célia e Roberto visitaram o pátio da Madeireira Quintino, em meio a total desmontagem do local. A dona da empresa, uma empresária de Belém, estava sendo investigada pela Polícia Federal por uma série de irregularidades. Os agentes do Ibama regressaram, e lacraram tudo que os funcionários deixaram para trás na fuga precipitada.
Os ufólogos ainda conseguiram conversar com alguns deles, que confirmaram que os mesmos fenômenos que assolaram a cidade também haviam ocorrido na madeireira. Com o agravante da falta de luz, mas antes de ser lacrado pelo Ibama, o gerador voltou a funcionar normalmente.
Ninguém da empresa se importou com o corpo de Torres. Dias se passariam antes que parentes providenciassem a retirada do mesmo, levado para outra cidade por um pequeno avião alugado.
Por mais três dias os paulistas seguiram buscando evidências e testemunhas, tendo algum sucesso na empreitada. Mas isso não acrescentou muito a investigação, permanecendo inexplicáveis os acontecimentos na região. A Renato surpreendia o desinteresse dos militares, e ele até conversou pela Internet com Franco a respeito, sem chegarem a qualquer conclusão.
Também visitaram a tal caverna, que realmente era impressionante. Uma pequena entrada dava para um túnel que descia vertiginosamente, acabando em um “salão de cristal”, apelido que já circulava pela descrição dos poucos que haviam descido até lá. O Ibama fez uma apressada análise do local, e os agentes disseram que enviariam espeleólogos o quanto antes para estudar a caverna.
Até o dia em que finalmente se despediram do amigo Euclides para retornar a São Paulo, não tiveram mais notícia de qualquer fenômeno estranho. Pelo rádio, Bernardo Pontes proclamava sem parar sua vitória.
- E então, o que acha que aconteceu, Marcelo, perguntou Renato.
- Acho que estamos diante de outro caso bem típico, como os que a revista Ovni publica sempre.
O chefe do grupo não parecia muito animado. Diante da profusão de fenômenos estranhos, sendo que até chegaram a ficar frente a frente com..., alguém muito estranho, esperava que tivessem conseguido mais provas. Célia comentou:
- Mais um caso bem pesquisado, Marcelo, isso você não pode negar! Reunimos todas as evidências que pudemos recolher, e tenho certeza que poderemos escrever muito a respeito.
- Eu estou nisso para descobrir a verdade, Célia, respondeu Marcelo. E não descobrimos nada.
- Mas fomos testemunhas de coisas incríveis, amigo.
Renato parecia satisfeito, e não cansava de rever as fotos e depoimentos no laptop, enquanto seguiam a bordo do pequeno avião para Belém, e dali, para o sudeste.
Naquela noite, Bernardo Pontes deixou um subordinado cuidando da programação, e fez questão dele mesmo ir investigar. Desceu do carro e contemplou satisfeito o pátio totalmente deserto onde funcionava a madeireira.
Ele conseguira expulsar aqueles terroristas!
Agora, iria terminar seu trabalho. Iria humilhar os tais ufólogos que o desprezaram, revelando a verdade sobre os tais fenômenos.
- O povo jeca dessa cidade acredita em cada coisa! Deve ter sido algum funcionário descontente que aprontou essa peça, e todos caíram.
Nem mesmo ele próprio acreditava muito em sua teoria, enquanto caminhava decidido na direção da entrada da caverna. Vira as luzes, que passaram rente a janela do estúdio. Por mais que pesquisasse na Internet, não conseguira descobrir uma forma de reproduzir aquele efeito. O que não significava que fosse impossível. Mandou centenas de emails nos últimos dias para especialistas, e tinha certeza que logo teria respostas.
Entrou na caverna, certo de que conseguiria desvendar aquele enigma. Lamentou que nenhum repórter da Gazeta do Cachimbo, o único jornal da cidade, não quiseram acompanhá-lo. O azar era deles!
Desviou o facho da lanterna, e surpreendeu-se pelo fato de que de lá embaixo, onde deveria ser o tal salão de cristal, vinha uma tênue luminosidade. Avançou cuidadosamente.
Chegando no salão, ficou maravilhado. O local todo parecia mergulhado em uma luz suave, branco-azulada. Não se conteve:
- É maravilhoso!
Vira as fotos publicadas no jornal, enquanto batia as próprias com sua câmera, e aproximou-se de um grande cristal, de quase dois metros de altura. Ao lado e um pouco atrás dele, havia uma abertura.
Pontes tinha certeza que aquilo não aparecia nas fotos. Aproximou-se, e viu que parecia uma porta aberta. Lá dentro reinava a escuridão, mas depois de alguns segundos, percebeu um débil ponto de luz ao longe.
Certo de que em breve estaria de volta a rádio, anunciando um grande furo, saiu andando. Um chiado ou zumbido começou a encher seus ouvidos, e ele ficou ainda mais curioso.
Finalmente, entrou na luminosidade que via a distância. Foi estranho, pois teve a impressão que a luz chegou de uma vez até ele, e não o contrário.
Nesse instante, os viu.
Soube imediatamente o que o falecido gerente da madeireira vira antes de morrer. Mas não era tudo. Clarinha estava com eles, parecendo totalmente a vontade. Pontes foi tomado pelo pavor quando ela o encarou.
Se houvesse alguém parado na entrada da caverna, conseguiria ouvir um resquício de seus gritos de terror. Mas logo os mesmos silenciaram, e a noite escura permaneceu tomada pelos sons e mistérios da floresta.

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Escrito por Escritor às 12h07
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