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ESCRITOR COM "R"


ZÉ DA PINGA

Lá pelos idos de 2002, escrevendo e batalhando para começar a ser conhecido
como escritor e finalmente fazer por merecer uma oportunidade, tive essa
idéia para um conto, uma cidadezinha no interior, uma onda de avistamentos
de ovnis, um mendigo para o qual ninguém dava nada... acabei escrevendo tudo
em apenas 3 dias.
O resultado foi Zé da Pinga, ainda hoje um dos meus escritos preferidos. A
essa altura, mostrei o conto pros amigos da revista Scifi News, onde já
escrevia a coluna Espaço Ovni, e eles adoraram.



O resultado saiu nessa edição de dezembro de 2002, número 62, e basta ver a
capa para chegar a conclusão de que foi uma edição muito especial.
Depois, decidi fazer algumas mudanças no conto, para quem sabe publicá-lo e
outro lugar, coisa bem pouca. E escrevi outras histórias, que serviram para
encaixar esses personagens no mesmo universo que começa com meu livro, De
Roswell a Varginha.

Espaço marchand, os links para compra do livro estão aí ao lado, então façam
o favor de colaborar, hein?

Até escrevi um conto, ainda inédito, em que os personagens de Zé da Pinga
conhecem Roberto, personagem de DRAV. Eles estiveram juntos ainda em Irmãos,
conto que publiquei neste blog, e que pode ser lido se consultarem os links
aí ao lado.
Então, deixo vocês com Zé da Pinga, um conto legitimamente brasileiro de
nossa boa e velha Ficção Científica, espero que gostem!

Zé da Pinga

            - É verdade, seu moço. A luz veio de lá do morro, “alumiando”
tudo por estas bandas!
            - E “tumém” ali no fundo, na chácara de “seo” Armando, onde
dizem que o “bicho” pousou.
            O casal, simplório mas muito solícito, explicava tudo o que
haviam testemunhado três noites antes. Célia perguntou:
            - E os senhores têm visto essas luzes há quanto tempo?
            O homem coçou os ralos pêlos que cobriam seu queixo, e por fim
disse:
            - “Óia”, dona, pelo que a gente se “alembra”, faz bem uns dez
dias...
            Célia trocou olhares com Marcos. Renato digitava o relato do
casal com uma rapidez fenomenal no laptop, enquanto os irmãos Kássia e
Leonardo andavam pelos arredores buscando mais evidências.
            Salto do Avanhandava, pequena cidade do interior paulista a
cerca de cinquenta quilômetros de Campinas, estava a poucos dias de
comemorar os vinte anos de sua emancipação e transformação em município.
Contudo, para alguns de seus pouco mais de seis mil habitantes, não era
aquele o assunto principal naqueles dias, mas sim a grande quantidade de
visões de estranhas luzes durante as noites. Na verdade, toda a região era
assolada, há semanas, por uma onda de aparições de ovnis, mas, conforme o
testemunho que acabavam de tomar de seu Waldir e de dona Iracema, sua
esposa, há dez dias os fenômenos se concentravam nas menores cidades daquela
região, em especial sobre Salto do Avanhandava.
            - O que os senhores acham que é isso?
            Seu Waldir perguntou com legítimo interesse, mostrando uma
curiosidade típica da região para tudo que era novidade. Renato, no
entusiasmo de seus 23 anos, respondeu:
            - É uma onda ufológica como há tempos não víamos, seu Waldir!
Praticamente desde o Caso Varginha não temos nada assim! Pelo visto, os
“extras” estão se animando de novo!
            - O padre Reginaldo diz que é tudo coisa do capeta, disse
Iracema.
            Sem que ninguém pudesse impedir, Renato continuou:
            - Que nada, dona Iracema! Acreditamos que eles vêm de outros
planetas, outros sistemas solares! Não tem nada do diabo nisso. Até mesmo o
papa disse recentemente...
            - Renato, menos, menos, cortou Marcos, o líder do grupo. Não
queremos tomar mais o tempo dos senhores, não é mesmo? Agradecemos pela
ajuda.
            O jovem guardou o laptop a contragosto, e com os demais
cumprimentou o pequeno grupo de moradores do Baixo Morro, bairro da
periferia da cidade. Estavam entrando na perua, quando Waldir pareceu
lembrar-se:
            - Ah, nós esquecemos de avisar, o pessoal aqui do bairro tá
dizendo que um bêbado, que todo mundo chama de Zé da Pinga, tá sumido há uns
dois dias.
            Eles voltaram a se interessar, pedindo mais detalhes. Ouviram
que aquele homem costumava vagar pelo bairro mendigando, e era muito
conhecido nos dois ou três bares das redondezas. Apesar de gostar de ficar
de pileque, não incomodava ninguém, a não ser quando ficava mais animado,
segundo diziam, e saía dizendo que “eles” chegariam em breve.
            - Quem são “eles”, seu Waldir?
            A pergunta de Marcos foi respondida com um erguer de ombros.
Ninguém sabia mais nada sobre o Zé. Ele aparecera na região há uns quinze
anos, e corriam boatos que tinha sido militar ou coisa parecida na época da
ditadura.
            - Uns e outros ainda falam que ele “teve” envolvido com alguma
coisa séria do governo, disse dona Iracema. Mas nós não “crerdita” muito,
não, esse povo gosta de contar história.
            Agradeceram, e com todos a bordo da perua se encaminharam para o
endereço de mais uma testemunha, logo na outra rua do mesmo bairro seguindo
as indicações de seu Waldir. As ruas de terra batida dificultavam um pouco a
marcha do veículo, e eles também haviam ouvido muitas reclamações sobre como
o prefeito Eduardo não fazia nada para melhorar as condições de vida daquela
parte pobre da cidade. Realmente, quando chegaram ali, precisaram pedir
autorização para investigar o caso, e os funcionários e o próprio prefeito
não foram muito prestativos. A única exceção fora o chefe da polícia local,
capitão Flávio, que parecia ser a única autoridade na cidade realmente
interessada em encontrar uma explicação para os acontecimentos.
            Passaram mais meia hora entrevistando pessoas no novo endereço,
e todos os relatos coincidiam. Algo de muito estranho estava acontecendo, o
que era ainda mais respaldado por algumas marcas no solo e folhas queimadas
de árvores, que encontraram quando foram investigar a chácara de seu
Armando. Este, um pequeno produtor rural, também mostrou-se muito simpático,
dando os endereços de diversas outras testemunhas.
            Estavam nisso, quando viram uma pessoa chegar correndo pela rua,
e reconheceram seu Waldir. O homem, esbaforido, disse quase gritando:
            - É o Zé da Pinga! Ele apareceu!
            Mais tarde, estavam no hospital da cidade, pequeno mas
felizmente com capacidade de fazer um atendimento de boa qualidade. Zé havia
aparecido com as roupas ainda mais esfarrapadas que de costume, e com um
profundo ferimento na cabeça. Disse que havia caído depois que a “casa
redonda” levantara vôo...
            - Será que o senhor poderia repetir para nós o que se passou,
perguntou Célia com todo carinho.
            O médico que dava alguns pontos no corte balançou a cabeça em
sinal de desaprovação, mas permaneceu calado. O homem voltou a contar sua
estranha história. Disse que um grupo de “sacis” chegaram dentro de uma luz,
e o convidaram para visitar sua casa.
            - E eu fiquei espantado, dona, porque a casa dos “bichinhos” era
redonda! Tudo era redondo, e muito “alumiado”, mas eu não conseguia ver
nenhuma lâmpada...
            Ele contou que os “sacis” como os chamava, fizeram um tipo de
exame médico nele, em uma sala que foi descrita como semelhante a que se
encontrava naquele momento. Depois, eles teriam contado muitas histórias
para ele, e mostrado algumas imagens “numa espécie de televisão” segundo o
Zé.
            - E o que mostravam essas imagens, Zé, e o que eles contaram
para você?
            Ele olhou para Marcos, que do alto de seus quarenta anos e mais
de vinte dedicados a pesquisa ufológica era o líder do grupo, e respondeu:
            - Olha, “seo” Marcos, eles me mandaram dizer só que logo logo
eles e mais uma porção de outras “gentes” do lugar de onde eles vêm vão
chegar na Terra, porque “nóis” não “tamo” cuidando bem dela, e vão nos
ensinar muitas coisas.
            Os dois ufólogos se olharam, e até o médico havia parado para
acompanhar as palavras, que soavam fantásticas e até loucas demais, mas eram
ao mesmo tempo fascinantes. Zé ainda disse:
            - Eles me contaram mais uma porção de coisa, mas ainda não posso
“contá” elas “proceis”. Só quando eles me chamarem de novo.
            - E quando vai ser isso, Zé, perguntou Célia.
            Ele olhou para a moça, que tinha vinte e cinco anos, e
respondeu:
            - Logo, logo, dona...
            Deixaram-no descansando um pouco na enfermaria, e saíram. No
corredor, o prefeito e o capitão da polícia aguardavam.
            - Gostaria de mais uma vez pedir aos senhores que terminem logo
com isso! Não queremos que essas histórias se espalhem, e atrapalhem o
aniversário da cidade.
            Aquela parecia a única preocupação de Eduardo. Mostrava-se muito
ansioso. Marcos respondeu:
            - Temos algo estranho acontecendo, prefeito, e gostaríamos de
continuar investigando.
            - Vão dizer que acreditam nessa bobagem? Por favor, o homem é um
pobre-diabo, vive bêbado pelos cantos!
            - Mas ninguém o viu pelos últimos dois dias, prefeito, respondeu
Célia. Todas as pessoas que entrevistamos disseram que Zé nunca sumiu por
tanto tempo.
            Eduardo parecia muito contrariado. Ficou com a cara ainda mais
fechada quando Flávio disse que muitas pessoas estavam assustadas, e
portanto era sua obrigação tentar desvendar aquele mistério:
            - E, para isso, se pudermos contar com ajuda especializada
melhor, não concorda, prefeito?
            Ele não parecia nada feliz, resmungou algo incompreensível,
cumprimentou todos com um leve aceno de cabeça e retirou-se dali. Na saída,
quase trombou com dois repórteres do único jornal local, que também ajudavam
nas investigações. A moça, Maria, cumprimentou os presentes e o chefe de
polícia que também saiu, e dirigiu-se aos ufólogos:
            - É, vocês conseguiram incomodar o prefeito.
            - Maria, por que ele está assim, perguntou Marcos. Afinal, são
poucas pessoas que acreditam sequer que esses fenômenos estejam acontecendo.
            O outro repórter, Gustavo, chamou todos para um canto, e disse
que a festa significava muito para o prefeito. O mesmo era de uma família de
muita influência por toda a região, e se a mesma fosse um sucesso, poderia
ser usada como propaganda eleitoral:
            - Logo vai haver eleições, e Eduardo quer se candidatar a
deputado estadual. Além de tudo, correm boatos que muita coisa nessa festa
foi superfaturada. Não temos provas, mas empresas de familiares e amigos do
prefeito estão entre os fornecedores...
            Intrigas políticas, mais um complicador para uma situação já bem
complicada! Eles trocaram mais impressões sobre o que parecia estar
acontecendo, e já se dispunham a ir embora, quando o mesmo médico veio
correndo, com uma radiografia nas mãos. Sua expressão dava mostras de
profunda confusão.
            - Estava examinando novamente as radiografias que tiramos do Zé,
e acabei encontrando isso. Nunca vi nada igual!
            Apontou diretamente para um estranho objeto na chapa, logo acima
do osso da fronte do crânio do Zé. Todos puderam ver um estranho objeto
alongado, de formato cilíndrico, alojado do lado oposto ao ferimento que
acabara de ser tratado. Não havia qualquer sinal de um orifício de entrada.
Os repórteres ficaram boquiabertos, enquanto os ufólogos se entreolharam
pela enésima vez. O caso ficava mais interessante a cada nova pista
encontrada.
            Enquanto os outros ficavam no hospital, Renato, Kássia e
Leonardo resolveram ir assistir a uma das missas de padre Reginaldo. Mal
entraram na pequena igreja e sentaram-se em três lugares vazios, e as
cabeças que haviam se virado para trás para observá-los já se voltavam para
frente, e um “zunzunzum” de conversas paralelas começou a ser ouvido. O
padre interrompeu o sermão por alguns instantes com expressão contrariada, e
logo voltou a falar, com muito mais veemência que antes:
            - E finalmente, aqueles entre vocês com idéias imorais, que se
questionam sobre a Criação do Senhor, e até almejam acrescentar “coisas” a
Sua Divina Obra, estejam avisados: nas Sagradas Escrituras está, há muito
tempo, o relato do que irá acontecer ao Final dos Tempos! Está escrito que
nos céus aparecerão prodígios, mas que são na verdade maquinações do Mal
para dominar os fracos de espírito, para cobrir e denegrir a obra de Deus na
Terra! Aqueles dentre vocês que derem ouvidos aos que espalham essas
histórias de falsos prodígios padecerão na danação eterna, assim está
escrito!

Continua abaixo



Escrito por Escritor às 13h52
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ZÉ DA PINGA

Continuação

            Longe de se intimidarem com as ameaçadoras palavras do padre,
aquilo divertiu os ufólogos. Renato, que gravava tudo com sua câmera
digital, mal conseguia evitar de dar gargalhadas. Os outros insistiam aos
cochichos para que se contivesse. Finalmente, depois da comunhão e dos ritos
finais, a igreja ficou vazia, e os três foram falar com padre Reginaldo.
            - O que querem aqui? Esta é a Casa de Deus!
            Leonardo, o mais diplomático dos três, pediu desculpas, mas
assegurou que não estavam ali para incomodar ninguém:
            - Desculpe, padre, não é nossa intenção trazer algo negativo
para ninguém nesta cidade. Queremos apenas juntar provas, entender os fatos
desses acontecimentos...
            - Não há nada para entender, cortou o padre rispidamente. O
diabo pode se manifestar de muitas formas, como deveriam saber se estudaram
a Bíblia Sagrada.
            Kássia, que trazia um crucifixo pendurado em uma correntinha,
perguntou:
            - Mas padre, a mesma Bíblia não nos ensina as palavras de Jesus,
que não devemos julgar para não sermos julgados, e devemos amar o próximo
como Ele nos amou?
            O padre resmungou qualquer coisa, e ela ainda disse:
            - Pelo que sei, a Bíblia não cita nada sobre os dinossauros, mas
já encontramos seus ossos e outros vestígios, e portanto sabemos que os
mesmos existiram. O senhor nega isso?
            - E acho que se lembra há alguns anos, quando a NASA, a agência
espacial americana, anunciou a descoberta de bactérias fossilizadas em um
meteorito marciano, acrescentou Renato com todo entusiasmo. Vai negar isso
também, padre? Os extraterrestres não existem só porque a Bíblia não os cita
nominalmente?
            Renato já ia falar dos sumérios, que nos legaram um relato do
Dilúvio milhares de anos mais antigo que o das Escrituras, quando Kássia
gentilmente o cutucou. Leonardo prosseguiu:
            - Desculpe nosso amigo, padre. Aliás, nem é nosso trabalho
convencer o senhor, nem qualquer pessoa, de nosso ponto de vista. Queremos
apenas analisar os fatos. E ouvir todas as opiniões, foi para isso que
viemos ouvir o que tem a dizer.
            - Já sabem o que penso de tudo isso. Agora vão!
            Com isso, estava encerrada mais aquela entrevista. O padre ainda
lançou um olhar mal humorado para Kássia, que usava calças compridas, e
retirou-se. Já haviam reparado que apenas as mulheres mais jovens da cidade
vestiam-se daquela forma, e sabiam que uma razão para aquilo era exatamente
os sermões de padre Reginaldo, que não admitia “pouca-vergonha” por parte de
nenhum de seus fiéis, nem desvios do que chamava de caminho da virtude.
Depois de enfrentarem outros olhares hostis e ameaçadores por parte de
beatas e outros devotos que os esperavam fora da igreja, entraram na perua e
foram ao encontro dos amigos.
            Estavam no começo da noite no pequeno hotel da cidade
conversando e verificando os dados que haviam coletado:
            - Esta cidade parece parada no tempo, reclamou Renato.
            - Nosso amigo é sempre muito radical, mas agora estou com ele,
disse Kássia. Imagine, as mulheres e senhoras ficam me encarando e olhando
feio só por causa de como me visto! Sentiu isso também, Célia?
            - Acho que é isso que faz uma viagem dessas valer a pena,
respondeu ela. Conhecer outras pessoas, outros lugares. O Brasil é tão
grande, e é difícil imaginar que em nosso próprio país ainda exista gente
que vive assim, não é?
            Marcos, estava no quarto comunicando-se com colegas por e-mail.
Haviam levado o Zé do hospital para um lugar que o mesmo chamava de casa, um
barraco nos fundos da casa de um vizinho do seu Waldir. Lá, tiveram a chance
de examinar o único documento que ele possuía, uma identidade já muito
desgastada pelo tempo. Era isso que Marcos usava em sua pesquisa.
Subitamente, desceu as escadas correndo, e veio a seu encontro. Disse, quase
sem fôlego:
            - Vocês não vão acreditar no que encontrei sobre nosso amigo Zé
da Pinga!
            Rapidamente enfiou um disquete no laptop de Renato, e abriu o
documento. Todos puderam ver a cópia de uma identidade militar datada dos
anos setenta. Ali constava o nome verdadeiro de Zé da Pinga:
            - José Amaro de Freitas, chegou a patente de tenente na Força
Aérea, serviu a maior parte da carreira no Pará, e deu baixa em 1988. Esse
nome nos diz algo?
            Leonardo estava sem entender nada. Porém Renato, dono de uma
memória prodigiosa para fatos ufológicos, logo pareceu ter um tipo de
“iluminação”. Digitou mais rápido do que os colegas podiam ver algum comando
no teclado, e logo outro documento luziu na tela:
            - O na época sargento José Amaro de Freitas foi um dos
participantes de um projeto da Aeronáutica no sul do Pará que investigou
ovnis no final de 1977, e que ficou conhecido como Operação Prato!
            Todos conheciam o caso. O comandante da Operação dera uma
entrevista há poucos anos, detalhando tudo que havia acontecido na época.
Infelizmente, mais dados sobre a mesma nunca foram revelados, nem mesmo a
grande quantidade de filmes e fotos que os militares haviam obtido, e que
deviam continuar ocultos nos arquivos da Aeronáutica.
            - Meu Deus, estão achando que José veio para cá... para fugir de
algo com que tiveram contato naquela época?
            A pergunta de Célia tinha razão de ser. Entre os relatos que
haviam colhido, alguns diziam que Freitas, ou Zé da Pinga, chegara a ter
numa ocasião meia dúzia de seguidores, e iniciaram uma espécie de culto
extraterrestre. Logo, porém, todos sumiram menos Zé que, abandonado, passou
a beber e vagar pela periferia da cidade.
            - Gente, esse caso está ficando cada vez melhor!
            Por incrível que possa parecer foi Marcos, o mais ponderado do
grupo, que disse isso cheio de entusiasmo. Decidiram que deviam voltar a
encontrar Zé o mais depressa possível.
            No dia seguinte, forma procurar o Zé, mas não o encontraram em
casa nem em lugar nenhum. Seu Waldir não sabia o que fora feito dele, até
que uma outra vizinha disse que três jipes haviam chegado no meio da noite:
            - Saiu um monte de gente armada e com roupas do exército,
parece, e levaram o Zé. Pareciam muito bravos com ele...
            Procuraram pela cidade, e finalmente chegaram a delegacia. De
fato, três veículos com o tradicional verde, e com inscrições da força
aérea, estavam estacionados defronte a mesma. Dois soldados montavam guarda
na entrada, e não permitiram que entrassem.
            Suas reclamações e protestos deveriam ter sido ouvidos lá
dentro, pois logo o capitão Flávio saiu, acompanhado por um homem em
uniforme militar, que parecia oficial. Entretanto, tal como os soldados de
guarda, o mesmo não trazia qualquer insígnia ou identificação na roupa. Foi
Flávio que disse:
            - Lamento, mas tenho ordens de cooperar com o pessoal da FAB
nesse caso. Devo pedir que se retirem daqui.
            O outro não dizia nada, apenas os observava com um misto de
indiferença e aborrecimento. Marcos respondeu:
            - Capitão, o senhor é a única autoridade nesta cidade que
mostrou um pouco de ética e respeito, tanto por nós quanto pelas pessoas que
têm testemunhado esse fenômeno. Vai nos abandonar agora?
            Gritos, de repente, foram ouvidos vindos de dentro da delegacia.
Kássia e Renato, indignados, responderam quase gritando:
            - Estão batendo nele? Estão maltratando o Zé? Mas o que ele fez?
            - Vou ter que pedir novamente que saiam, por favor, do contrário
os prenderei por desacato.
            Flávio falou isso com firmeza, mas percebia-se em seu tom de voz
que no íntimo a situação lhe repugnava. Sem alternativa, o grupo entrou na
perua e afastou-se dali. Logo cruzaram com o carro do jornal que vinha em
sentido contrário, e os repórteres fizeram sinal que os seguissem. Chegando
a sede do mesmo, todos entraram, e Maria foi logo dizendo:
            - Aquele safado! Foi Eduardo quem chamou os militares! Parece
que tem algum conhecido ou parente oficial.
            Gustavo ainda acrescentou:
            - Quando descobrimos que prenderam o Zé, já era tarde demais. Dá
uma raiva não poder fazer nada!
            Eles pareciam hesitar em dizer algo que estavam guardando.
Finalmente, Maria acrescentou:
            - De manhã, logo depois de voltarmos da delegacia onde também
não nos deixaram entrar, havia um envelope enfiado por baixo da porta. Vejam
só...
            Dentro do envelope, havia uma série de documentos, listas de
compras, valores e números de telefone, tudo com carimbo da prefeitura.
Todos puderam ver que aquilo era a prova que o prefeito havia beneficiado
empresas de amigos e parentes na preparação da festa de emancipação da
cidade, e em obras superfaturadas feitas para a ocasião. O anônimo autor da
denúncia havia trabalhado direito.
            - Quase direito demais, será que ele mesmo teria participado da
negociata, perguntou Gustavo.
            - O que vão fazer com isso, disse Leonardo.
            Marcos teve uma idéia. Conhecia muita gente da imprensa em
Campinas e cidades vizinhas. Logo cópias dos documentos eram enviadas via
faz e e-mail para as redações de diversos jornais da região. O explosivo
material seria publicado no dia seguinte.
            - Com isso, pegamos o prefeito, disse Renato. Mas o que podemos
fazer pelo Zé?
            Maria disse que só havia uma pessoa a quem recorrer:
            - Padre Reginaldo. Esperem, eu sei que ele não é muito de ficar
do nosso lado, mas também sei que quando o próprio prefeito e alguns
vereadores foram colhidos por denúncias que nosso jornal fez, ele ficou do
nosso lado. Deve ser a pessoa mais respeitada da cidade, até o prefeito não
se atreve a ignorá-lo!
            Claro que Reginaldo não concordou com eles a princípio. Relutou
muito em usar sua influência para ajudar o Zé, e ponderou, com o que a
maioria do grupo concordou, que os militares dificilmente o ouviriam.
            Finalmente o convenceram, e o padre disse que mais tarde, quando
fechasse a igreja, iria a delegacia e tentaria fazer algo. Todos ficaram na
expectativa, e duplas foram escaladas para alternadamente vigiar a casa onde
a mesma funcionava, a fim de evitar que os militares fugissem com o Zé.
            Renato e Célia faziam sua ronda cuidadosa por volta das nove da
noite. As ruas, como era habitual, estavam quase vazias, rotina de cidade
pequena. Caminhavam nas proximidades da delegacia, quando a moça apontou
para o céu:
            - Olha! Tem um ponto de luz lá no alto que está se movendo!
            Renato percebeu, e apontou a câmera. O ponto de luz foi
crescendo, até que deixaram de vê-lo depois de mergulhar atrás da delegacia.
O lado da rua em que a mesma se encontrava era formado por uma série de
terrenos baldios, e contornava um morro. Era por trás do mesmo que a
estranha luz tinha sumido.
            Resolveram se separar e ir investigar. Renato seguiu pela outra
travessa que também contornava o morro, enquanto Célia voltava pela direção
em que tinham vindo. Por isso, nenhum dos dois percebeu padre Reginaldo
caminhando na direção da delegacia.
            O padre vinha apoiando-se em seu inseparável guarda-chuva,
maldizendo-se por haver concordado com os repórteres e ufólogos. Afinal, os
mesmos pareciam sempre estar correndo atrás de confusão. Mas, apesar disso,
não concordava em absoluto que alguém fosse preso de forma arbitrária, mesmo
que fosse um mendigo como o Zé da Pinga. Resolveu que seria muito duro com
Flávio e os militares. Estava quase chegando, quando percebeu um foco de luz
intenso vindo de dentro da delegacia.
            Aquilo definitivamente era fora do normal, e o padre ficou
alerta, aproximando-se devagar. Estava a ponto de ficar adiante da porta,
quando viu uma sombra que parecia sair da mesma:
            - Alô, disse suando frio. Quem está aí?
            Nenhuma resposta. Resolutamente, depois de segurar a grande cruz
que trazia ao peito, avançou mais três passos e ficou diante da porta.
Arregalou os olhos e ficou boquiaberto com o que viu, certificando-se em
décimos de segundo que levaria aquela imagem consigo para o túmulo.

Continua abaixo



Escrito por Escritor às 13h48
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ZÉ DA PINGA

Continuação

            Flávio, seus auxiliares e os militares estavam caídos ao chão,
parecendo mortos. No centro da sala, havia algo, ou alguém... padre
Reginaldo não sabia descrevê-lo. Aquilo deveria ter um metro e vinte de
altura, uma cabeça grande em relação ao corpo, e o que pareciam dois grandes
olhos negros. Foi tudo que o padre conseguiu distinguir diante da forte
luminosidade que inundava o ambiente.
            Ficou ali, paralisado, sem conseguir esboçar qualquer reação. O
ser virou-se para ele, e a seguir para outra porta, de onde saiu,
cambaleando, o Zé da Pinga. O mesmo passou pelo padre depois de lançar-lhe
um rápido olhar, seu rosto muito machucado pelas agressões de que havia sido
vítima. Cruzou o umbral da porta e afastou-se pela rua.
            Renato e Célia vieram correndo, um de cada lado, depois de
avistarem um brilho estranho sobre a delegacia. Renato sentiu um calafrio ao
ver um vulto cambaleando pela rua, e arrepiou-se novamente ao reconhecer o
Zé, todo machucado e sangrando. Perguntou-lhe como havia saído, sem obter
resposta. Quando ouviu o grito de Célia, pediu que ele ficasse ali, e correu
os pouco mais de cinquenta metros de volta a delegacia.
            Célia estava ajudando padre Reginaldo, que estava caído, apoiado
na parede da casa. O homem parecia abobado, não falava coisa com coisa. Lá
dentro, os militares continuavam caídos, mas Flávio já tentava se levantar,
enquanto perguntava, gaguejando:
            - O..., o q-que... acont... aconteceu?
            Logo Marcos chegava com Kássia para render os companheiros, e
ambos se mostravam espantados com o que havia acontecido. Finalmente, o
padre disse:
            - Eu vi... eu vi...
            - O que o senhor viu, padre?
            Renato repetiu a pergunta em tom febril, mas Reginaldo só falava
isso. Finalmente, o jovem ufólogo lembrou-se do Zé, levantou-se e olhou na
direção em que o havia deixado, mas:
            - Cadê ele? Cadê o Zé? Eu o deixei bem ali! Estava todo
machucado, esses canalhas devem tê-lo espancado horas a fio!
            Resolveram sair para procurá-lo. Marcos levou Flávio e Kássia no
carro, enquanto o resto seguiu a pé. Mais de meia hora depois, este último
grupo encontrou o mendigo caminhando a esmo, perto de um bosque. Célia
gritou:
            - Zé, espere! Queremos ajudá-lo!
            Ele se voltou, e todos se arrepiaram novamente ao ver seus
ferimentos. Apesar de ainda estarem amparando o padre, apressaram o passo.
Zé estava a ponto de entrar no bosque, quando avistaram os faróis do carro
se aproximando. Renato gritou novamente:
            - Zé, espere, podemos ajudar, vamos proteger você!
            Nisso todos ficaram ofuscados por um brilho intenso que
subitamente saiu do bosque. Renato virou-se assustado, enquanto que,
protegendo os olhos, Célia e padre Reginaldo viram um cone de luz cair sobre
Zé. Ele olhou novamente para o grupo, e todos se espantaram, pois seu rosto
estava limpo, sem um arranhão!
            - Como, como é possível?
            Padre Reginaldo olhava sem acreditar. Renato, recuperado do
clarão, apontou a filmadora. O cone de luz que envolvia o Zé desapareceu, e
ele mergulhou no bosque. Marcos passou a toda por eles, tentando alcançar o
mendigo. Subitamente, as luzes do carro se apagaram, e o motor do mesmo
deixou de funcionar. Parou bem antes de chegar ao bosque.
            Célia e Renato deixaram padre Reginaldo, que fora acometido por
uma crise de tremedeira, e saíram correndo. Os ocupantes do carro também
abriram as portas e tentaram alcançar o bosque, mas um novo clarão,
emergindo por entre as árvores, fez com que todos parassem.
            Um objeto, de mais de dez metros de diâmetro e intensamente
iluminado, começou a se elevar. Aquela única massa luminosa subiu
rapidamente até ficar com um tamanho semelhante a lua cheia, quando disparou
para o céu com uma velocidade extraordinária. Tornou-se um pontinho de luz,
e desapareceu em instantes sem deixar vestígios.
            Voltaram na manhã seguinte bem cedo. Todos ficaram estarrecidos,
mesmo padre Reginaldo, ao encontrar um grande círculo de grama revirada e em
alguns pontos queimada, na clareira bem no centro do bosque. O círculo tinha
um diâmetro de pouco mais de dez metros. Dentro do mesmo, quatro impressões
redondas, obviamente resultantes de um grande peso. A terra dentro das
mesmas estava bem compactada, confirmando aquela observação. Leonardo
apressou-se a recolher amostras de toda a área, ajudado pela irmã, Kássia.
            Os moradores das redondezas foram unânimes em confirmar as
observações do grupo. Estavam todos muito assustados, e recorriam ao
folclore ou a crenças religiosas para explicar o que ocorrera.
            Os militares, depois de aparecerem no local pela manhã e
rapidamente darem uma olhada fugaz em tudo, foram embora. Suas identidades e
a unidade a que pertenciam não puderam ser determinadas.
            Subindo nas árvores que rodeavam a clareira, encontraram
diversas folhas queimadas, e também recolheram amostras para análise. O
contador geiger que trouxeram, contudo, não acusou presença de
radioatividade.
            Padre Reginaldo, depois de passar boa parte da noite trocando
idéias com Renato, e diante das evidências, fez um sermão muito diferente
naquela manhã. Disse que a obra de Deus não pode ser nunca diminuída por
nossas limitadas percepções, e que, segundo a velha sabedoria popular, “há
muito mais coisas no céu e na terra do que sonha nossa vã filosofia”.
            Todo o grupo de ufólogos fez questão de assistir a missa, e
retribuíram com alegria o sorriso de padre Reginaldo. Haviam conquistado um
importante aliado, o que já compensava a viagem e toda aquela confusão.
            Os jornais de toda a região publicaram a documentação,
comprovando as falcatruas do prefeito Eduardo. Dias depois, souberam que a
câmara de vereadores, em tempo recorde, o havia afastado, e um processo
criminal para que devolvesse os recursos de que havia indevidamente se
apropriado fora instalado na comarca municipal.
             A identidade da pessoa que enviou a documentação não foi
conhecida por algum tempo. Semanas depois, Maria lhes enviara uma edição do
jornal, em que Flávio explicava as razões de seu pedido de demissão. Segundo
o ex-chefe de polícia, “tinha que acertar contas com o passado, pagar por
coisas das quais sabia, mas que não fiz nada para impedir”. Foi convocado
como a principal testemunha de acusação contra o prefeito, mas a oposição já
reclama da demora no processo, e não concorda que o mesmo seja conduzido por
um juiz que é primo do ex-prefeito.
            Apesar de terem prolongado sua permanência em Salto do
Avanhandava por mais dois dias, e buscado em todos os lugares possíveis, não
havia sido encontrado qualquer sinal do Zé da Pinga, ou José Amaro de
Freitas, antigo tenente da FAB, e que quando era sargento, por volta de
1977, teve contato com “algo” inexplicável no sul do Pará. Nunca mais
ninguém da cidade viu ou ouviu falar nele, e muitos são os que agora sentem
muitas saudades desse personagem. Outros, ao contrário, o consideram apenas
uma lenda, “o mendigo que foi raptado por um disco voador”. A opinião de
Renato, contudo, que escreveu o artigo que foi um dos destaques de capa da
principal publicação brasileira do gênero dois meses depois, era bem
diferente. O texto terminava assim:
            “Apesar deste caso continuar sob investigação, não sabemos se
algum dia realmente teremos alguma notícia de Freitas, ou como era
conhecido, Zé da Pinga. Ele teve contato com  algo muito além de nossas
pobres concepções, na Amazônia do final dos anos setenta. Talvez não
estivesse preparado para tanto, pois os relatórios a que tivemos acesso dão
conta que ele simplesmente sumiu logo após a Operação Prato ser desativada.
Apesar de procurado, só foi encontrado pelos militares, aparentemente,
quando da ocorrência dos fatos descritos neste artigo. Seu paradeiro
permanece ignorado.
            Quanto ao que dizia, sobre a chegada “deles”, só o que nos resta
é aguardar...
            Contudo, e se os leitores me permitem especular um pouco, talvez
aqueles que o contataram em 1977 perceberam seu erro, perceberam o que o
contato fez com o Zé, e finalmente vieram procurá-lo. Acreditamos que, vendo
a forma como ele foi tratado por seus semelhantes, tenham concluído que
levá-lo com eles fosse a melhor alternativa. Assim, é possível que Zé da
Pinga seja, afinal, o primeiro embaixador da Terra em algum mundo distante.
Fazemos votos, então, que fale de nós, de seu mundo, com a mesma tolerância,
respeito e benevolência que muitos lhe negaram”.

Contato: escritorcomr@uol.com.br .



Escrito por Escritor às 13h46
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