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Céu de Guerra: O Último Dia

Os personagens, conceitos e situações do conto a seguir baseiam-se em
obras de autoria de Renato A. Azevedo, registradas na Fundação Biblioteca
Nacional. É vedada a cópia ou reprodução por qualquer meio sem a prévia
autorização do autor. Contato pelo email escritorcomr@uol.com.br .

Era o dia 7 de maio de 1945, e o dia estava claro e ensolarado sobre a
Alemanha.
O major Ricardo Almeida comandava a patrulha de dois caças a jato Dumont
D-115, tendo no outro aparelho o apoio do americano tenente Stephen
Armstrong. Aqueles inovadores caças a jato de três motores eram a mais
recente criação da Aeronáutica Dumont, a sempre surpreendente empresa
brasileira que estava ajudando a fazer a diferença na guerra.
Todas as opiniões que Ricardo ouvira nos últimos dias, como comandante de
operações do Esquadrão Ouro, a mais avançada unidade de elite dos Aliados,
concordavam em serem aqueles os últimos dias da guerra. As imensas formações
de bombardeiros da Oitava Força Aérea do Exército americano estavam
reduzindo a pó as últimas instalações industriais da Alemanha nazista, e a
combalida Luftwaffe não era nem sombra da força que aterrorizou a Europa, no
começo da Segunda Guerra Mundial.
Ricardo voava distraído, enquanto cruzavam os céus a 5.000 m de altitude, a
uma velocidade de mais de 900 km/h. Impulsionado por três turbinas do
confiável modelo Mattarazzo J-3, o D-115 era um assombro para pilotar,
deliciando seus pilotos. Nem mesmo o inglês Gloster Meteor ou o americano
Republic XP-80 chegavam perto do caça brasileiro em performance. Claro que
Ricardo sentia saudades de seu Mustang P-51, cuja manobrabilidade era
incomparável. Mas o gênio técnico do Esquadrão Ouro, Matheus Kirk,
continuava buscando maneiras de melhorar o desempenho dos jatos, que traziam
no nariz e no leme traseiro o amarelo vibrante que identificava o Esquadrão
Ouro.
O brasileiro, que havia começado a combater na Europa durante a Batalha da
Inglaterra, pouco antes da formação do Esquadrão Ouro, lembrou-se da longa e
perigosa trajetória até então. Dos amigo que perdera, as duras missões de
escolta com os Mustang P-51, e até mesmo os assombrosos acontecimentos do
ano anterior. Acontecimentos que, se resolvidos de maneira diferente, teriam
mudado o curso da guerra, em um rumo nada favorável aos Aliados.
Mas não tinham certeza de que não haveriam outros homens malucos como o que
havia enfrentado, o cientista louco Doutor V. A Inteligência Aliada proibida
que se referissem a ele pelo nome, determinação com a qual Ricardo não
concordava, apesar de acatar. E concordava menos ainda com aquele mundo
cheio de segredos que estava surgindo com a aproximação do final do
conflito. Os americanos estavam imersos em sua Operação Clipe de Papel,
caçando os maiores cientistas e segredos dos alemães. Os soviéticos, cada
vez mais arredios, começaram sua própria caça aos segredos nazistas, e o
major brasileiro temia que um novo conflito estivesse nascendo aí.
Por cima, os boatos e rumores que circulavam davam espaço para as mais
malucas histórias. O grupamento especial baseado na Ilha da Ascenção, no
Atlântico, detectara sinais de intensa atividade submarina, e chegara mesmo
a afundar alguns submarinos alemães tentando fugir. Falava-se até que o Alto
Comando nazista tentava escapar, talvez pretendendo se refugiar na América
do Sul. E Ricardo temia que isso fosse verdade. Os acontecimentos de 1944
também afetaram profundamente o Brasil, e segundo Kirk comentava de seus
constantes contatos com o Professor, o grande sábio brasileiro estava muito
preocupado com alguns elementos, os quais nunca esconderam sua simpatia
pelos regimes fascistas que estavam desmoronando.
E ainda outros rumores, vindos do front russo, davam conta de que Hitler até
já estaria morto. O Alto Comando Aliado tentava desesperadamente conseguir a
confirmação dessa informação. Kirk, que atualmente vivia entre a Inglaterra
e os Estados Unidos, como contato de Churchill junto a um certo programa
americano chamado Projeto Manhattan, enviara um relatório afirmando que se
não terminassem com aquela guerra logo, os americanos o fariam, com uma nova
e terrível arma. Ricardo lembrou-se da carta pessoal que o amigo engenheiro
lhe enviara, afirmando que tinham mesmo que encerrar a guerra, do contrário
a tempestade de fogo que o Projeto Manhattan deflagraria seria terrível
demais para imaginar.
- Major, contato no radar.
As palavras de Armstrong ecoaram pelos fones de seu capacete, e Ricardo
acompanhou a leve curva para a esquerda de seu ala. Os dois jatos manobraram
para localizar visualmente dois pontos que surgiram nas telas. O D-115
estava revolucionando o conceito de guerra aérea, mesmo ainda sem ter
travado um combate real.
Em instantes, as silhuetas inconfundíveis de dois caças a jato Messerschmidt
Me-262 se tornaram bem distintas, logo abaixo deles, e os dois manobraram,
ainda curvando, a fim de entrar logo atrás dos alemães. Stephen comentou:
- Será que são do JV 44, Rick?
Depois de um bom tempo servindo juntos, era comum no Esquadrão Ouro os
membros se tratarem pelo primeiro nome, independente até da patente.
Ricardo, que também convivia com o fato de usarem a versão em inglês de seu
nome, respondeu:
- Mas parece que o JV 44 se rendeu há poucos dias em Salzburgo, Stephen.
Acho incrível que os nazis ainda tenham jatos operando... A menos que...
Outros boatos davam conta de que um novo grupo havia sido formado, nos
moldes do velho Jagdverband 44, que fora comandado pelo lendário Adolf
Galland, um dos melhores ases alemães e que formou a unidade com os mais
hábeis remanescentes da Luftwaffe em fevereiro de 1945. A unidade teve curta
duração, mas abateu uma grande quantidade de aviões aliados. Os rumores
diziam que esse novo grupo, formado a sua imagem e semelhança, se intitulava
os Tigres do Reich.
- Veja, são eles mesmos, gritou Armstrong. Veja os detalhes na pintura,
lembrando tigres! E olhe o líder...
- O nariz pintado de vermelho, Stephen, respondeu Ricardo. É o Whernstrong!
Até então, pouco se sabia sobre o Kommando Whernstrong, essa nova unidade
apelidada de Tigres do Reich, apenas o nome de seu líder. Helmutt
Whernstrong fizera parte tanto do JV 44 de Galland quanto do Kommando
Nowotny, outra famosa unidade de Me-262. Fanaticamente nazista, era um dos
maiores ases alemães, com 218 vitórias, e admirador confesso de Manfred Von
Richtoffen, o Barão Vermelho da Primeira Guerra Mundial, daí a pintura
vermelha no nariz de sua aeronave, que usava desde o começo da guerra. E
outra coisa que Ricardo sabia, fora Whernstrong que abatera Vincent Spencer,
um de seus melhores amigos na guerra, ainda na Batalha da Inglaterra.
Os D-115 continuaram sua longa curva descendente, mas os dois alemães
perceberam os inimigos e viraram para o outro lado. Certamente já conheciam
as façanhas do Esquadrão Ouro, e um combatente do mesmo era sempre uma presa
especial para um piloto alemão. Começou um mortífero jogo de gato e rato,
pelas informações que dispunham o primeiro combate aéreo totalmente a jato
da História.
Os quatro aviões faziam um longo círculo no céu, e os Me-262 se esforçavam
para manter sua trajetória o mais fechada possível. Mas o D-115 era mais
ágil, tendo como vantagem decisiva o formato canard, com pequenas asas
postadas ao lado do longo nariz, e as asas curtas com bordo de ataque
enflechado, e bordo de fuga quase reto. A força G foi aumentando, e Ricardo
ouviu os sons do mecanismo pneumático injetando ar em seu macacão de vôo.
Aquilo era uma novidade, o traje anti-G, que com aquele sistema comprimia as
pernas e o ventre dos pilotos, impedindo que o sangue descesse da cabeça em
manobras acentuadas e ocasionasse problemas fisiológicos e até perda de
consciência. Ricardo e Stephen colocaram força em seus manches, e foram
fechando mais e mais sua curva, e estavam a ponto de ter os Messerschmidt
nas miras, quando algo incrível aconteceu.
Dos bocais de exaustão das turbinas dos alemães longas flamas saíram, e os
jatos deram um salto e uma virada súbita a direita. Os dois aliados reagiram
quase instantaneamente, mas os alemães conseguiram mergulhar e ganhar
velocidade, ao mesmo tempo em que se separavam.
- Rick, eles têm pós-combustão!
- Estou vendo, Stephen. Estão se separando, vamos atrás do líder!
“- Que diabos!”, pensou Ricardo. “- Será possível que ainda existe algum
cientista maluco, quem sabe até discípulo do Dr. V, inventando coisas para
os nazistas?”.
Entretanto, ele não tinha tempo de pensar a respeito. Uma luta de vida e
morte estava se desenrolando.
Os dois foram atrás de Whernstrong, acreditando que o ala alemão havia feito
uma manobra errada, e decidira se afastar. Mas, surpreendentemente, balas
traçantes passaram ao redor deles, e Ricardo e Stephen precisaram manobrar
de forma caótica para escapar.
O brasileiro olhou ao redor e subiu, tentando  obter uma melhor visão da
luta. Nisso, reparou em um brilho estranho em meio ao azul do céu, bem ao
longe, e numa interferência em seu radar. Aquilo era similar ao que ocorrera
antes com ele, havia menos de um mês em outro vôo com o D-115, mas Ricardo
não tinha tempo de investigar, pois ouviu pelo rádio:
- Rick, estão me perseguindo, preciso de ajuda!
A transmissão igualmente estava cheia de estática, mas ainda compreensível.
Ignorando aquilo, ele acelerou ao máximo seus três motores, e finalmente
localizou Armstrong, perseguido pelos dois Messerschmidt. Ricardo inverteu o
avião e mergulhou, em uma longa curva descendente que o levaria em uma
trajetória de encontro a eles, em direção contrária.
Ricardo sentiu a pressão, mas conseguiu ver que o indicador de velocidade já
superava os 1.000 km/h. Percebeu que chegou a sorrir, quando se lembrou que
aquela nem de longe era a maior velocidade que já havia experimentado.
Afastou as lembranças enquanto dizia pelo rádio:
- Stephen, quando eu disser, vire com tudo para a direita e para baixo.
- Rick, você está louco? Está vindo direto contra nós! Quer...
- Quer fazer o que mando?
- Sim, major...

Continua abaixo...



Escrito por Escritor às 17h02
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Céu de Guerra: O Último Dia

Continuação...

Seu ala vinha literalmente dançando no ar, tentando escapar dos projéteis de
30 mm dos quatro canhões dos Me-262. Ricardo acelerou as três J-3 ao máximo,
e sentiu seu D-115 balançar pelo esforço, ao mesmo tempo que sua visão
começava a ficar turva. A dificuldade para respirar era imensa, mesmo com o
traje especial, mas ele conseguiu gritar, logo após virar novamente seu
caça:
- Agora!
Stephen virou e mergulhou para a direita como ordenado, e vindo de frente,
Ricardo atirou a queima-roupa no Me-262 do ala alemão. Conseguiu mal e mal
passar pela direita, no mesmo sentido de Stephen mas em uma curva muito mais
aberta, enquanto Whernstrong virava para o outro lado. Atingido pelos dois
canhões de 20 mm situados nas raízes das asas do D-115, o Me-262 do ala
explodiu em chamas.
Stephen gritava pelo rádio:
- Você é louco, Ricardo! Como inventou uma manobra dessas? Podia ter nos
matado!
- Meu amigo Tony Reynolds não reclamou quando fiz a mesma manobra para
salvá-lo ano passado, tenente!
- O Tony também nunca bateu bem da bola pelo que ouvi dizer, major! Ah, eles
de qualquer forma me atingiram, vejo óleo vazando, os controles estão muito
duros.
Ricardo olhou para trás, e constatou que o alemão fazia uma longa curva e
vinha atrás deles. O avião de Armstrong deixava uma fina trilha de fumaça
escura, o óleo do sistema hidráulico escapando. Não teve dúvidas:
- Temos um teto máximo de serviço mais alto que o Me-262, Stephen. Suba o
mais que puder e saia daqui.
- Mas major...
- Você está em um jato, tenente, e não conseguirá puxar muitos G´s com esse
problema hidráulico. Vá para casa!
Armstrong afinal cumpriu a ordem e subiu com as três turbinas no máximo,
rumando para a fronteira com a França. Ricardo olhou novamente para o alemão
que estava cada vez mais próximo. Pensou:
“- Agora somos só nós dois, Whernstrong!”.
Girou o caça para a esquerda, e depois começou a subir preparando-se para
mergulhar sobre o Me-262 inimigo. Mas se surpreendeu quando viu que o alemão
mergulhou, e depois começou a subir. Cruzaram-se no ar sem conseguir mirar
no respectivo adversário, e os papéis se inverteram. Ricardo fez uma ampla
curva por baixo, e Whernstrong por cima, na manobra conhecida como tesoura
rolante.
Cruzaram os caças mais duas vezes antes de ambos perderem velocidade.
Ricardo acionou as turbinas ao máximo e afastou-se, e com o canto dos olhos
percebeu que o alemão fazia o mesmo. Eram dois ases, um tentando suplantar o
outro.
O radar era de pouca valia naquele momento, e Ricardo pensou que devia
desligá-lo, não sem antes perceber que a estática havia aumentado muito.
Virou o caça para verificar, e viu que o alemão havia desistido de
prosseguir com a manobra anterior, passando a perseguir um grupo de três ou
quatro estranhas luzes distantes.
Aquele era o maior mistério do final da guerra. Desde meados de 1943 pelo
menos, tripulações de bombardeiros e caças aliados voando sobre a Alemanha
descreviam encontros com estranhas luzes que acompanhavam os aviões. Os
objetos estranhos se evadiam com impressionante facilidade das tentativas de
interceptá-los ou abatê-los realizadas pelos aliados, e muitos comandantes
diziam que deveriam ser uma nova arma alemã. Essa opinião tornou-se
dominante quando surgiram as primeiras informações sobre a bomba voadora
V-1, o míssil de longo alcance V-2, o Messerschmidt Me-163 impulsionado a
foguete e o Me-262.
Mas fora novamente o Esquadrão Ouro, em arriscadas missões de inteligência
sobre o território inimigo, que descobrira que também os alemães estavam
sendo perseguidos por aquelas coisas, e o mais incrível, as descreviam como
armas secretas dos aliados! Os primeiros relatórios foram recebidos com
incredulidade pelos comandantes aliados, mas quando as informações foram se
acumulando, dando conta do estado de confusão que os objetos, já apelidados
de foo-fighters pelos americanos, causavam aos alemães, os comandantes
afinal se convenceram.
E ali havia uma prova disso, e Ricardo tratou de acionar as duas câmeras na
parte inferior do nariz do D-115 logo abaixo do radar, a fim de registrar o
que estava presenciando. Whernstrong perseguia os objetos e atirava neles
enquanto tentava alcançá-los, mas as luzes simplesmente brincavam com ele.
Ricardo, no encontro anterior com aquelas coisas, tentou o mesmo sem
sucesso, e agora apenas acompanhava os esforços do inimigo.
Alguém estava monitorando a guerra, disso o brasileiro já tinha certeza. Mas
quem seria esse alguém ele não conseguia nem imaginar. O fato que
presenciava pela segunda vez lhe dizia que aqueles foo-fighters superavam em
muito qualquer coisa que tanto os aliados quanto os nazistas tivessem.
As luzes, depois de muito brincar com o alemão, finalmente acabaram se
afastando e desaparecendo com uma rapidez espantosa. Whernstrong pareceu de
repente lembrar-se que estava em um dogfight, e manobrou seu caça procurando
Ricardo.
Os dois ases voltaram a realizar um grande círculo deitado no céu, fechando
a curva cada vez mais e tentando um ficar na posição seis horas do outro.
Ricardo era muito auxiliado pelos equipamentos de que dispunha, mas o alemão
sem dúvida era um excepcional piloto. A tensão foi subindo enquanto os jatos
ficavam cada vez mais próximos, quando Ricardo ouviu um chamado pelo rádio,
agora sem estática:
- Atenção todos os pilotos! Atenção todos os pilotos! Não disparem! Cessar
fogo! A guerra acabou! Repetindo, cessar fogo, a guerra acabou!
Aquilo era inacreditável. Ricardo simplesmente não sabia o que sentir. Um
misto de ódio, alegria e alívio se apossou dele, e por instantes esteve
quase ausente do que ocorria a seu redor.
Mas depressa se recompôs, pois ainda estava em perigo. Lembrou-se muito bem
de ler o arquivo de Whernstrong, e sabia que ele falava inglês. Sintonizou
as frequências que os nazistas usavam, e igualmente ouviu uma voz falar em
alemão e em tom muito urgente.
Mas o adversário não saía de sua perseguição. Continuava desenhando o
círculo junto com Ricardo, em voltas cada vez mais fechadas. O brasileiro
não teve dúvidas. Na frequência em que sabia que o adversário estaria
ouvindo, disse:
- Você não ouviu? A guerra acabou! Cessar fogo!
Nenhuma resposta. Ricardo repetiu o chamado, e finalmente ouviu, em inglês:
- Não acabou para mim!
Whernstrong havia tomado sua decisão. A guerra duraria mais alguns minutos
para eles.
Ricardo, fechando a curva ao máximo, finalmente conseguiu enquadrar o
Schwalbe, apelido do Me-262, e disparou. O alemão realizou uma curva a
esquerda, e começou a subir. Almeida percebeu que ele dava início a uma nova
tesoura rolante, e não teve alternativa a não ser mergulhar e entrar no
jogo.
Os dois caças se cruzaram durante a manobra por quatro vezes, sem que
qualquer dos pilotos conseguisse enquadrar o inimigo. Enquanto isso, Ricardo
ainda conseguiu enviar uma rápida mensagem e dar sua posição. Soube então
que um grupo do Esquadrão Ouro fora enviado e deveria chegar em poucos
minutos.
Os aviões finalmente perderam velocidade, e Whernstrong afastou-se. Ricardo
seguiu na direção oposta, mas olhando por cima do ombro viu que o inimigo
fazia a volta para a direita. O brasileiro fez o mesmo em direção oposta, e
finalmente eles tornaram a se cruzar nos céus, sem conseguirem disparar.
Iniciava-se uma nova tesoura.
Ricardo subiu com seu D-115, inverteu e mergulhou, e lá estava o Me-262
subindo. Os caças tornaram a se cruzar muito próximos, e o brasileiro se
lembrou de seu primeiro encontro com o jato alemão. Mesmo especialmente
equipado, os P-51 Mustang do Esquadrão Ouro não conseguiam alcançar os
Schwalbe, mas os alemães na ocasião cometeram o erro de entrar em dogfights,
onde o Mustang era o mais temível adversário. De um grupo de oito, três
Me-262 caíram, contra apenas um dos doze Mustang do Esquadrão Ouro. De volta
para a base, por dias a fio não se falou em outra coisa, todos temendo que o
jato alemão pudesse virar a maré da guerra, o que felizmente não aconteceu.
Whernstrong, forçando ao máximo, conseguiu completar sua curva superior em
menos tempo, e por instantes o D-115 de Ricardo ficou sob sua mira. Disparos
de 30 mm  passam rente ao jato brasileiro, e Ricardo acelera, chegando ao
limite do equipamento. Chegou a sentir a vista escurecer por causa da
pressão, mas conseguiu sair da mira do alemão, e tornou a mergulhar, subindo
em seguida. Mas se surpreendeu ao ver que Whernstrong passou a subir
vertiginosamente, com longas chamas saindo pelos escapamentos das duas
turbinas.
Era um chamado final. O alemão estava confiante que, graças a seus
pós-combustores, conseguiria se manter subindo por mais tempo que Ricardo. O
brasileiro seguiu o Me-262 apontando seu avião para cima, e os dois aviões
subiam e potência máxima.
Normalmente, as turbinas Jumo 004 não permitiam que os Me-262 subissem a
mais de 12.000 m. Disso muito se aproveitaram os pilotos do Esquadrão Ouro,
que com seus aviões especialmente equipados com as confiáveis turbinas J-3
para impulsão de emergência, conseguiam atingir altitudes maiores. Agora
Ricardo pilotava o D-115, e em testes já havia conseguido atingir os 14.000
m.
O brasileiro torcia desesperadamente que o modelo experimental de que seu
inimigo dispunha não lhe desse vantagem.
Os jatos foram subindo, e Ricardo chegou a ter Whernstrong na mira por um
instante, disparando brevemente seus canhões de 20 mm, mais como desafio do
que para atingi-lo. Os dois aviões agora subiam quase emparelhados, e os
pilotos se olhavam fixamente através das capotas.
Já haviam passado dos dez mil metros. Depois onze mil. Doze mil e subindo...
Ricardo olhou por um instante para o altímetro, e viu os treze mil metros
chegando e passando. Os quatorze mil metros se aproximavam, e uma luz
começou a piscar no mostrador de rotações da turbina número 3. O motor
começava a falhar.
Mas o brasileiro manteve a pressão. A guerra já havia acabado, mas
Whernstrong nem pensava em abandonar a batalha. Ricardo sabia que o alemão
iria matá-lo com muito prazer, e talvez até pensasse em depois se entregar
aos pilotos do Esquadrão Ouro que chegavam. Já deveria saber que os aliados
andavam atrás da tecnologia alemã, e quem sabe pensasse em trocar seus
serviços por sua liberdade no pós-guerra.
O brasileiro estava decidido a não permitir que isso ocorresse.

Continua abaixo...

Escrito por Escritor às 16h58
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Céu de Guerra: O Último Dia

Continuação...

A luz do motor número 1 começou a piscar, o altímetro marcava 14.200 m, mas
algo aconteceu com Whernstrong.
Ricardo conseguiu ouvir, vindo do Me-262, um barulho como um estrondo
abafado, e subitamente suas duas turbinas apagaram.
Whernstrong ainda se manteve no ar por uma fração de segundo, e por fim seu
caça virou e caiu.
Ricardo ainda subiu por alguns segundos, e por um instante contemplou o
negrume do céu, algumas estrelas até se tornando visíveis, e ao longe, a
curvatura do planeta. Finalmente, manobrou o D-115, e partiu no encalço de
Whernstrong.
O alemão girava descontroladamente, e chamas saíam de maneira alternada
pelos motores. Ele tentava ligá-los, mas as turbinas não respondiam.
Mas Whernstrong ainda era perigoso, e disparava sempre que via o borrão,
representando o D-115 de Ricardo, adiante de si.
Ricardo procurou mirar com todo o cuidado, ao mesmo tempo esquivando-se dos
disparos dos mortíferos 4 canhões do Me-262, quando subitamente sentiu algo
batendo em seu caça. Um instante depois, uma dor lancinante atravessou seu
ombro.
Whernstrong, mesmo caindo, conseguira acertar alguns disparos, e estilhaços
entraram na cabine. Um deles penetrou no ombro de Ricardo, que gritou de
dor. Mas procurou ignorá-la, e concentrando-se ao máximo, finalmente
enquadrou o Me-262 em sua mira.
Pensou em dar ao alemão uma única chance, mas decidiu que ele não merecia
isso. Apertou o gatilho, e disparos de 20 mm atingiram em cheio o jato
alemão, que passou a soltar fumaça.
Mas Ricardo não parava de atirar, mergulhando atrás do alemão a mais de
1.000 km/h. Atirava e atirava, arrancando grandes pedaços do inimigo, e
finalmente o caça perdeu uma das asas. No instante seguinte foi coberto
pelas chamas, no exato momento em que acabava a munição de Ricardo.
Continuando a ignorar a terrível dor, ele reduziu a potência e curvou
suavemente a esquerda, a tempo de ver o Me-262 explodir em chamas.
Ricardo deu uma longa volta e finalmente viu o que restava do jato alemão
cair ao solo e produzir uma grande bola de fogo. Não havia pára-quedas
visível no ar.
O brasileiro sentiu a vista escurecer novamente, mas em um último esforço
controlou-se, apontando finalmente seu jato avariado rumo a França. Ao
longe, divisou quatro pontos escuros, que logo se revelaram como dois XP-80
americanos, escoltando dois D-84, o bimotor multifuncional que fora o maior
sucesso da Aeronáutica Dumont na guerra.
Ainda naquela noite, e depois de uma visita a enfermaria da base, Ricardo
foi enviado para a Base Ouro, nas proximidades de Oxford, na Inglaterra.
O dia 8 de maio de 1945 amanheceu radiante e ensolarado, e todos os soldados
e oficiais do Esquadrão Ouro estavam perfilados diante do hangar principal
da base. Um palanque fora rapidamente montado, e nele estava boa parte do
Alto Comando britânico.
Winston Churchill fez questão de estar presente, e em seu discurso relembrou
os momentos desesperados mas gloriosos na Batalha da Inglaterra, quando foi
concebido o Esquadrão Ouro como um grupo de pesquisa de elite, para anular a
vantagem tecnológica nazista.
- E, se hoje celebramos o fim da guerra e a vitória da civilização sobre a
barbárie, boa parte do mérito cabe a vocês. Por isso, muito obrigado, e
parabéns! Essa vitória é de todos nós!
Ricardo, com o braço enfaixado mas usando a farda social como todos os
outros, se une as palmas arrebatadoras e ao clima de celebração. Nunca ele
havia visto tantos dos companheiros caírem no choro, e sentiu as lágrimas
encherem seus olhos ao lembrar dos amigos que não estavam ali para celebrar
o final da guerra, mas também de alegria pelo fim daquele drama de tantos
anos.
Kirk aproximou-se dele, também com os olhos vermelhos, e os dois amigos
finalmente se abraçaram, ficando assim por longos minutos. Nenhuma palavra
era necessária. Os sentimentos eram quase dolorosamente óbvios.
O próprio Churchill veio ter com eles. Seus companheiros ao redor tentaram
avisá-los, mas o Comandante pediu que os deixassem. Finalmente, Kirk e
Almeida se largaram, ficaram em posição de sentido e bateram continência.
- Tenho uma última coisa para você, meu caro Ricardo...
Churchill estendeu-lhe uma pequena caixa, que Ricardo apanhou agradecendo.
Dentro, um conjunto de insígnias, que o próprio Churchill apanhou e colocou
em sua farda, dizendo:
- Parabéns, coronel Almeida. Você mereceu. Uma homenagem sem dúvida pequena,
diante de nossa eterna gratidão.
Quem estava ao redor bateu palmas, e o primeiro-ministro tomou a iniciativa
de abraçar o oficial. Ficaram assim alguns instantes, e Churchill murmurou
“obrigado”, visivelmente emocionado, ao menos três vezes.
Ricardo e Kirk acompanharam o primeiro-ministro e seu staff. Churchill
precisava encontrar-se com o Alto Comando Aliado. Muitas decisões precisavam
ainda ser tomadas, como organizar o pós-guerra na Alemanha, sem esquecer que
a guerra no Pacífico contra o Japão ainda continuava.
- Rapazes, vocês merecem um descanso, disse o primeiro-ministro a Kirk e
Almeida. Tirem uns dias de folga.
Ricardo parecia distante, e Churchill, antes de entrar no carro, perguntou:
- Ricardo, meu bom jovem, o que foi?
O brasileiro tinha uma expressão cansada, e finalmente respondeu:
- Desculpe, Comandante. Estes últimos dias foram extenuantes. E ontem,
realmente...
- Sei, meu amigo. Mas o perigo nazista passou, todos esperamos! Considere-se
em férias, mas gostaria que se mantivesse nas proximidades. Nunca se sabe,
podemos precisar de suas habilidades novamente.
- É mesmo, Ricardo, disse Kirk.
- Ninguém é insubstituível, meus caros, respondeu Almeida subitamente.
Todos ficaram surpresos, e o brasileiro completou:
- Primeiro-ministro, estou muito cansado. Parece que todo o peso do mundo
caiu sobre mim, após ouvir a notícia do final da guerra. Comandante, se não
se importa, gostaria muito de voltar para casa, ver minha família...
Churchill a princípio exibiu uma expressão carregada. Mas em seguida,
surpreendendo a todos, voltou a trocar um longo abraço com o amigo
brasileiro, e em seguida, completou:
- Espero que nos vejamos novamente, e em breve, meu jovem!
Ricardo agradeceu aquela legendária figura, e respondeu:
- É uma promessa, Comandante!
Churchill entrou finalmente no carro, e logo sua comitiva se afastava. De
todas as partes chegavam notícias sobre as comemorações com o final da
guerra. O pessoal do Esquadrão Ouro, encerrada a celebração, foi tratar de
suas responsabilidades, enquanto Kirk e Ricardo andavam um tanto sem rumo
pelo pátio da base.
- E então, Ricardo? Ou devo dizer Coronel Almeida? O que vai ser a seguir?
Que tal irmos visitar o Professor no Brasil?
Ricardo lançou um olhar ao redor, que se demorou mais em algum ponto
indefinível no horizonte, e finalmente respondeu:
- Agora, que a guerra acabou, temos um mundo novo e bem diferente diante de
nós. Apenas isso é desafio suficiente.
Os dois amigos concordaram, enquanto acima deles um grupo de aviões de todos
os tipos, que participaram da revoada da vitória sobre Oxford, passaram em
rasante brilhando ao Sol. A vitória contra a tirania finalmente havia
chegado.

Notas:

A ficção de história alternativa se baseia na premissa “o que aconteceria
se...”. Imaginar, por exemplo, como seria se outro houvesse chegado ao
Brasil, e não Cabral. E se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra? Ou
se John Kennedy não fosse assassinado? E se a República não houvesse sido
proclamada no Brasil? Ou se a emenda das Diretas Já fosse aprovada em 1984?
É disso que se trata esse tipo de ficção especulativa, investigar uma linha
histórica diferente, não necessariamente melhor ou pior, do que a nossa.
Este conto foi inspirado em meu livro Céu de Guerra, devidamente registrado
na Fundação Biblioteca Nacional, onde estão narrados os fatos dessa linha
histórica, e porque a mesma é diferente da nossa. Contatos pelo email
escritorcomr@uol.com.br .
O D-115 foi obviamente inspirado em famoso caça da Ficção Científica, com
alguns detalhes do XP-55 Ascender, projeto norte-americano que não entrou em
serviço, e do magnífico F-104 Starfighter.
Os primeiros testes com pós-combustão ocorreram na Inglaterra, ao final da
guerra, utilizando o Gloster Meteor.
Os chamados foo-fighters se constituem em um dos maiores mistérios da
Segunda Guerra Mundial. Estranhos objetos luminosos que seguiam as formações
aliadas que seguiam para bombardear o coração da Alemanha nazista, foram
inicialmente considerados armas secretas do inimigo. Porém, após a guerra,
ao consultar os arquivos alemães descobriram que estes encontraram as mesmas
coisas nos céus, atribuindo-as a armas secretas dos aliados.

Escrito por Escritor às 16h57
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