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Segunda, ESPAÇO LITERATURA
O DIA EM QUE O BRASIL PAROU
Episódio 1: O dono da Bahia e a nave espacial
Proximidades de Serra Negra. 6 de abril, 23:49 h.
Os últimos tempos haviam sido tão difíceis para Roberto, que ele não hesitou um instante em aceitar participar daquela vigília, no ponto habitual no alto da serra. Pegou a estrada assim que saiu do trabalho, e nem o trânsito maluco de sexta a noite o desanimou. Alberto e Arnaldo Malfatti eram gêmeos, e foram os organizadores. De Brasília havia vindo Reinaldo Beck, um dos mais conhecidos veteranos da Ufologia brasileira, e ainda estavam presentes Claudeir Bastos, Daniela Freitas, e mais alguns ufólogos. Roberto ainda tentou contato com os amigos de Campinas, mas Célia disse que estariam atarefados com coisas mais “normais” por todo o final de semana. Na verdade, eram raras as vezes em que de fato viam algo inexplicável. De qualquer forma, sempre havia a expectativa, ainda mais que o interior paulista sempre fora considerado uma região “quente” em avistamentos de ovnis. Passavam o tempo em animadas conversas, ouvindo os “causos” de Beck e de outros veteranos. Roberto se mantinha um tanto isolado, a uns cinco passos dos mais próximos da rodinha de conversa, quando Daniela veio sentar-se no chão a seu lado. Já haviam tido um relacionamento passageiro, e com Ligia sempre ocupada, Roberto andava um tanto carente. - E aí? Daniela era jovem e doce, e seus desenhos já haviam estampado várias edições da revista Ovni, para a qual todos colaboravam, incluindo capas. Roberto respondeu: - Noite bonita... Pena que os convidados de honra ainda não apareceram... - Com o Beck aqui, não sei, quem sabe acabe acontecendo algo. As histórias que ele conta, seus contatos em Goiás, o grupo do grande general Uchôa, foram tempos incríveis! - E em plena ditadura. Isso é o mais impressionante. Ficaram conversando ali um bom tempo, e o papo chegou a vida pessoal bem quando Daniela aproximou-se mais de Roberto. O inevitável aconteceu, e acabaram trocando longos beijos. A noite magnificamente estrelada no alto da serra era um componente de romantismo a mais. Os amigos os interromperam ruidosamente, e todos fizeram um lanche rápido. Um dos Malfatti chamou Daniela, e Roberto deitou-se de costas, admirando aquele céu forrado de estrelas. Pensou que nem era necessário que vissem algum ovni, só aquela vista já compensava o passeio e o frio. Adormeceu pouco depois.
- Roberto, acorda! Daniela o sacudia com força, e o jornalista finalmente acordou sobressaltado: - Que foi, o Beck jogou uma pedra numa sonda novamente? Aquela era uma anedota antiga, há vários anos sendo contada nas listas ufológicas na internet. Confundindo uma luz que vinha subindo um morro em Goiânia com a lanterna de um amigo, durante uma vigília, Beck atirou-lhe uma pedra, mas qual não foi a surpresa quando a “lanterna” saiu voando, fazendo piruetas impossíveis. Mas não era nada disso. Roberto ainda teve tempo de admirar o rastro de um grande meteoro, percorrendo os céus rumo norte-nordeste. O mais incrível é que, mesmo aparentando estar a elevadíssima altitude, deixava objetos menores pelo caminho, como se estivessem se desprendendo. - Nossa... A admiração era geral, e aquela exclamação escapou de muitas bocas em meio ao grupo. Fosse o que fosse, o objeto desapareceu no horizonte longínquo. Pelos celulares, vários deles ligaram para conhecidos, e Roberto resolveu arriscar, mesmo sendo ao que tudo indicava apenas um fenômeno astronômico. Ligou para os Faroleiros e descreveu aproximadamente o que viu, conferindo novamente o rumo do objeto com a bússola digital de seu relógio. Batista, que o havia atendido, respondeu que acionaria seus contatos. O comentário geral em meio ao grupo foi que seguramente aquela aparição estaria em todos os noticiários do dia seguinte. Os mais experientes diziam que sem dúvida era um meteoro de apreciáveis dimensões, e que era bem possível que algum pedaço remanescente de sua entrada em nossa atmosfera fosse encontrado nos próximos dias. Ficaram ali até serem quase cinco da manhã, mas nada mais de extraordinário foi visto.
Brooklin, São Paulo. 7 de abril, 12:54 h.
Roberto acordou com o telefone tocando insistentemente. Havia desistido de passar a noite na casa dos amigos em Serra Negra, e fizera a viagem de volta de madrugada. Bocejando, atendeu o telefone. Mal havia dito “alô”, e foi interrompido por Franco: - Roberto, que raio de jornalista você é!? Ligue a tv agora! Roberto saiu andando, tonto de sono, e perguntou: - Que canal? O amigo suspirou fortemente do outro lado da linha, e disse por fim: - Qualquer um... Estranhando, o jornalista ligou a tv, sintonizando na maior rede do Brasil. A primeira coisa que ouviu foi: - Aqui na fazenda do senador Bernardo Dante Negroponte o clima é muito tenso. Tiros já foram ouvidos entre a multidão de curiosos que se concentra a frente da entrada principal. O repórter falava de um helicóptero, onde se encontrava também a câmera que exibia as imagens. O aparelho sobrevoava uma grande plantação, e agora a imagem mostrava um grande rastro nos pontos onde a mesma estava destruída.
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Escrito por Escritor às 09h25
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- Estão atirando para o alto, em nossa direção! Nosso piloto tenta se esquivar, esperamos que as imagens estejam chegando... É uma visão impressionante, estão conseguindo ver? O repórter narrava quase gritando, quando finalmente a imagem foi centralizada, embora um tanto tremida, sobre um grupo de pessoas que se concentrava em torno de um objeto circular. O narrador voltou a falar: - Funcionários da fazenda, ou mesmo jagunços contratados, estão gritando lá debaixo conosco, e atirando próximo a nosso helicóptero. Parece que têm a intenção de impedir que gravemos as imagens. Mas vejam, aquele é o objeto que, aparentemente, produziu o rastro luminoso que cruzou boa parte do território brasileiro nessa madrugada. Houve uma pausa quando os tiros voltaram a ficar muito próximos, e o repórter gritou: - Agora estão mesmo atirando em nós, meu Deus! Mas continuamos mostrando, nesta cobertura, o que parece ser uma nave de algum tipo, ou até mesmo um disco voador, que caiu na propriedade do senador Bernardo Negroponte, aqui no estado da Bahia... O jornalista gritou mais algumas frases desconexas, quando outros dois helicópteros, ostentando o emblema da Polícia Federal, surgiram. Os tiros eram os únicos sons que se ouviam, quando os dois aparelhos pousaram, e agentes com roupas pretas de assalto e fortemente armados passaram a enfrentar os jagunços. - Franco, disse Roberto, estão gravando isso? O mais velho dos Faroleiros respondeu: - Claro que sim, faz quase uma hora que estão nisso. Acho melhor vir para cá... Roberto? Roberto!? O jornalista já havia desligado.
BLF Informática, centro de São Paulo. 7 de abril, 13:28 h.
As informações chegavam, em todos os canais da imprensa, e também congestionavam a internet. Funcionários da fazenda de Negroponte que haviam saído naquela manhã já haviam concedido entrevistas, afirmando que foram acordados de madrugada por um grande estrondo. Roberto já havia trocado vários telefonemas com os colegas do portal na internet onde trabalhava. Todos tentavam localizar suas fontes, mas com quase nenhum resultado. Para Brasília era impossível conseguir uma ligação. A informação das operadoras de telefonia era que as linhas encontravam-se congestionadas. Autoridades civis e militares, as que repórteres por todo o país conseguiam encontrar ao menos, recusavam-se a emitir declarações. - Quando isso começou, disse Leandro, ainda conseguimos contato com uma fonte nossa do Cindacta. Mas a pessoa subitamente disse que tinha que ir, e desligou. A imprensa internacional já dava destaque ao caso, mas compreensivelmente, a comunidade científica não havia dado maiores declarações até aquele momento.
Casa Branca, Washington. 7 de abril, 13:10 h.
- Senhor presidente, os satélites já conseguiram imagens da área. Temos a localização precisa, tudo o que o senhor tem a fazer é dar a ordem. O presidente examinou cada uma das imagens, exibindo uma meticulosidade que pousos julgariam possível em sua pessoa. - Você tem sido um ótimo secretário de defesa, e é um bom amigo. Mas claro que sabe que o Brasil é um país amigo, uma nação democrática. Não posso dar tal ordem assim, sem mais nem menos! - Senhor presidente, as consequências de tal evento, se for mesmo verdade... - Se for mesmo verdade, não há nada que possamos fazer. - Mas, senhor... - Já disse minha opinião! Vamos aguardar os acontecimentos! O secretário de defesa murmurou um “sim, senhor”, apanhou a pasta contendo as fotos, e conformado, pediu licença e retirou-se.
Esplanada dos Ministérios, Brasília. 8 de abril, 9:56 h.
O pânico parecia estampado no rosto de todos os funcionários daquela repartição. Os funcionários, civis e militares, corriam de um lado a outro. Os telefones tocavam insistentemente. Não apenas ali, mas em toda Brasília, parecia que o mundo estava acabando. O homem engravatado, ostentando uma velha cicatriz no queixo, era um dos únicos que não aparentavam qualquer preocupação. Com uma pasta de papel opaco segura numa das mãos, caminhava tranquilamente pelos corredores, várias vezes sendo obrigado a desviar de algum funcionário que passava apressado. Finalmente chegou a porta que procurava, bateu com os nós dos dedos duas vezes, segurou a maçaneta e entrou. Fechou a porta atrás de si, e ficou em pé aguardando. Seu chefe estava em seu lugar habitual, atrás da mesa que ocupava havia anos. Estava recostado na cadeira, com os pés cruzados sobre a mesa, confortavelmente assistindo a algum noticiário. O homem de cicatriz pigarreou, dizendo: - Senhor...? O chefe apanhou um cigarro pela metade que pendia de um cinzeiro, soltou algumas baforadas e voltou o cigarro a seu lugar, dizendo: - O que foi? A voz rouca daquele homem, ao contrário do que fazia com muitos subordinados, não parecia incomodar o homem da cicatriz. Quando começou, sim, mas agora seu tom desagradável não mais o atingia. Ele aproximou-se da mesa, estendendo a pasta a seu chefe:
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Escrito por Escritor às 09h24
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- Os mais recentes relatórios de nossos homens, senhor. Tem certeza que não devemos ir ao local da queda? O homem de voz rouca olhou para seu subordinado como um pai olhando para o filho travesso que nada sabe da vida. Olhou a pasta, e comentou: - É, parece mesmo que não é nada produzido aqui. Bem, tudo indica que nossos temores mais secretos se confirmaram! Seu auxiliar, pela primeira vez, exibiu expressão de perplexidade. O homem de voz rouca sorriu mais e disse: - Meu caro amigo, até o mais “mané” dos congressistas do chamado baixo clero deseja saber o que está acontecendo. Alguns até já incumbiram os respectivos assessores para comprar-lhes passagens para a Bahia. A fazenda de Negroponte, que já virou um pandemônio, breve será promovida a atração turística! Mais alguns momentos se passaram, e ele acrescentou: - E nosso “magnânimo” presidente, como alguns chamam “o novo pai dos pobres” , fez o favor de nos incluir em seu pacote de cortes! Tudo para acomodar seus “companheiros” no aparato estatal! Ele voltou a tragar o cigarro, extinguiu-o no cinzeiro, soltou mais baforadas e recostou-se mais na cadeira, dizendo: - Aquele imbecil da Casa Civil veio me pressionar assim que essa confusão surgiu na imprensa! Não basta querer controlar a opinião pública e os jornalistas com seus projetos inspirados pelo modelo cubano que lhe é tão caro, agora pretende mandar em nós! Disse a ele que se cortar mais nossa já minguada verba, ou fizer qualquer tentativa de controlar este grupo, eu mesmo, pessoalmente, vou jogar para a imprensa nossos documentos mais confidenciais! Ainda lembrei-lhe por quantos presidentes já passei. Foi embora ao mesmo tempo que chegou o presidente da Câmara dos Deputados. Esse eu nem recebi, da porta mesmo disse que poderia resolver tudo, se tivéssemos um aumento da verba igual ao que ele pretende aprovar para os colegas! O homem da cicatriz parecia não entender nada. Permaneceu parado como uma estátua. Finalmente, seu chefe, depois de percorrer vários canais, parou em um deles, acompanhando uma matéria sobre a saída de pessoas da nave. Afinal desligou a tv, voltou-se para ele e disse, novamente sorrindo: - Bem, de qualquer jeito, me mantenha informado. Agora que descobriram os tripulantes, talvez tenhamos que intervir.
Aeroporto de Brasília. 8 de abril, 11:04 h.
Roberto, Franco e Batista desembarcaram do avião, e logo apanharam as bagagens. Franco ficaria no aeroporto, a espera do jatinho do velho conhecido que continuava a dever favores a Leandro. Iria nas próximas horas para Salvador, e se tudo desse certo, estaria nas proximidades da fazenda de Negroponte no máximo ao final da tarde. O jornalista, após discutir o caso com sua editora no portal, acabou concordando em viajar para a Capital Federal. Por cima, um telefonema de um certo contato o havia recomendado a mesma coisa. Mal colocaram o pé para fora do aeroporto, e viram o que pareciam dois grupos antagônicos em passeatas rivais. Um grupo, vestindo roupas semelhantes as dos hippies, gritava slogans para acolhermos os “irmãos do espaço”, ostentando faixas para que libertassem os extraterrestres, recomendando ainda que imediatas conversações para o ingresso da Terra na Fraternidade Universal Intergalática fossem iniciadas. Um outro grupo, atrás da barreira policial que os separava a muito custo, era formado por homens e mulheres de roupas bem tradicionais e recatadas, mais alguns padres e freiras. Gritavam contra “os demônios que representavam a tentação”, tentando berrar mais alto que o outro grupo. Roberto e Batista, depois de se despedirem de Franco, ignoraram as manifestações e entraram no primeiro táxi que encontraram. Batista já falava ao celular quando entrou no táxi, e quando desligou dirigiu-se ao amigo: - Angelina também está aqui em Brasília. Combinei um encontro para o final da tarde. - Só não fique dando bandeira, como você costuma fazer... Roberto riu. A atração do mais jovem dos Faroleiros pela moça que hora os ajudava, hora os atrapalhava, era bem conhecida entre eles. Chegaram a casa que os Faroleiros mantinham em Brasília. Periodicamente, um deles ia a cidade para manutenção dos equipamentos, e manter os contatos no meio estatal em dia. Após arrumarem tudo Roberto saiu a pé, para uma praça ali perto. A distância, viu o homem que deveria encontrar. Cobria o cabelo encaracolado com um boné, e os óculos escuros disfarçavam um pouco mais a semelhança com o finado ídolo Renato Russo. - Vamos falar depressa, disse ele. Roberto riu, e respondeu: - Por quê? Pensei que todos os arapongas da ABIN tivesse ido para a Bahia! O homem caminhava devagar com as mãos nos bolsos, e disse: - Caro Roberto, as coisas nunca são como parecem... - Afinal, o que temos aqui? O jornalista começou a ficar impaciente, e foi direto ao assunto. O homem sorriu, e respondeu: - Uma legítima nave extraterrestre caiu na fazenda de um dos mais influentes congressistas da República, e a imprensa está fazendo aquela que já é considerada a maior cobertura da História. Coisas inacreditáveis haviam acontecido nas últimas horas. No Irã, um aiatolá chamado Habbib havia divulgado uma fatwa, um decreto religioso, convocando os fiéis para uma guerra santa contra o Brasil por dar “guarida aos demônios que traziam o Mal”, em suas palavras. Alguns atos de violência já haviam ocorrido contra embaixadas brasileiras em Teerã, Damasco e Beirute. O governo iraniano apressou-se em divulgar uma nota, afirmando que tinha o Brasil e o povo brasileiro na mais alta conta, e que o aiatolá estava completamente desautorizado em suas ações, “que contradizem as ótimas relações de amizade entre o povo brasileiro e o iraniano”, de acordo com a nota oficial.
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Escrito por Escritor às 09h21
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Atos similares ocorreram diante do consulado brasileiro em Nova York.. Dessa vez protagonizados por fanáticos cristãos, cujos motivos eram essencialmente os mesmos dos fundamentalistas muçulmanos. Alguns chegaram a lançar pedras contra a representação, para em seguida serem dispersados pela polícia. Evidentemente, o conhecido “guru” e velho rival dos ufólogos sérios do Brasil, Umberto Francisco Ourives, já havia aparecido na tv. O alegado possuidor de habilidades paranormais, e que utilizava até mesmo as iniciais de seu nome, que formavam a sigla U.F.O., para dizer-se eleito pelos alienígenas e aumentar a penetração de sua seita, afirmava a todos os programas sensacionalistas e de “jornalismo verdade” da tv que aquela era a longamente aguardada chegada dos “irmãos do espaço”, que ele havia, claro, profetizado há muitos anos. O instável presidente argentino havia dito que era tudo encenação do governo brasileiro, para encobrir as reivindicações de seu país no tocante ao Mercosul. O surpreendente silêncio dos homens da ciência, entretanto, era o que mais chamava a atenção de todos. Ninguém havia conseguido ainda qualquer declaração de qualquer astrônomo ou outro especialista na área. Entre os ufólogos, os comentários eram na maioria cautelosos, apesar de alguns falarem abertamente de que aquele era, sem dúvida, o contato final, a tão aguardada prova definitiva da existência de vida e inteligência estraterrestre! - E agora? A pergunta de Roberto seguiu-se um silêncio ensurdecedor. O jornalista já havia estado naquela mesma praça algumas vezes, e em nenhuma delas a mesma apresentava-se deserta como agora. A maioria da população mantinha-se aferrada a seus televisores, sem lembrar sequer das novelas preferidas! Aliás, capítulos de várias delas, devido a cobertura dos eventos, haviam deixado de ser exibidos desde que tudo começara. - Agora... É engraçado! Em meu trabalho, quase nunca discutíamos o que aconteceria se algo como o que agora, finalmente, estamos vivendo, se apresentasse diante de nós. Você não faz idéia, Roberto, da confusão entre a comunidade dos segredos e da inteligência! Mostrou a mais recente edição do principal jornal de Brasília, com uma foto de página inteira do momento em que os visitantes foram retirados da nave. Eram, por tudo que fora visto, humanos, tão humanos quanto qualquer terráqueo. Mas só o fato de aparecerem com aquela nave, era prova mais que suficiente de sua procedência extraterrestre. O que, sem dúvida, complicava as coisas... - Espere, Roberto, para ouvir os primeiros pronunciamentos dos bispos da CNBB. Pode apostar, seria muito mais fácil se os visitantes fossem diferentes. Você viu, são iguais a nós, fato que, tenho certeza que sabe, até porque li seus artigos na revista Ovni, traz profundas consequências. As informações eram de que os visitantes estavam sendo mantidos em cárcere privado em um celeiro na fazenda de Negroponte, e boatos diziam que chegaram até a ser espancados. Eram dois homens, um deles negro, e uma mulher, loira e muito bonita. Roberto havia tido contatos com colegas próximos dos acontecimentos, e a informação que corria era que os funcionários do senador estavam se aproveitando da situação. - E se forem realmente a ponta de lança de um contato aberto, perguntou Roberto, os primeiros emissários? Parece que os animais de Negroponte estão até abusando da moça! - Muito adequado para um primeiro contato oficial com uma civilização mais evoluída, não? - Parece que você não se importa! O homem sorriu, e disse: - Roberto, você não faz idéia das coisas que já foram feitas a muitos e muitos visitantes, que tiveram o grande azar de caírem sobre este atrasado planeta! Acredite, esses alienígenas que caíram na Bahia terão melhor sorte, apenas porque a imprensa dessa vez, pela primeira vez, conseguiu chegar a tempo. O celular do homem tocou, ele atendeu e ouviu um pouco. Desligou sem dizer uma palavra, e apanhou a bolsa que trazia a tiracolo. Da mesma tirou uma pequena tv a pilha, e sintonizou no principal canal do país. A apresentadora dizia: - Cresce a polêmica entre as autoridades, sobre o destino a ser dado aos tripulantes da nave. Uma força tarefa da Polícia Federal que iria fazer a apreensão dos mesmos foi impedida por uma liminar concedida a pedido dos advogados do senador Negroponte. Os mesmos afirmam que, por serem alienígenas, os dois homens e a mulher retirados da nave não têm a proteção da lei brasileira. A repórter ainda acrescentou que havia uma grande confusão jurídica, pois forças do exército haviam tentado entrar na propriedade, mas desistiram quando foram ameaçados por jagunços e funcionários da fazenda fortemente armados. Algumas pessoas foram ouvidas, alguns concordando com a tese de que os extraterrestres não tinham direitos humanos, outros discordando. - Viu? Está começando. Roberto colocou as mãos na cabeça. Não entendia como aquilo estava acontecendo. Fã de ficção científica antes de ser ufólogo, havia lido e assistido a várias encenações de como seria o primeiro contato. Sentia vergonha de que o mesmo afinal estava sendo uma demonstração tão sórdida de primitivismo. - E se a nave mãe deles está aguardando? Se eles estiverem em algum ponto distante do Sistema Solar? E se estiverem interceptando nossas transmissões? O homem sorriu após guardar a pequena tv, dizendo: - Acredite, falei com inúmeras autoridades militares nas últimas horas, e a maioria manifestou as mesmas preocupações. Claro, além de colocarmos os visitantes em custódia de forma civilizada, a maioria dos homens com quem falei concorda que não há nada a fazer. Ele saiu andando, dizendo que manteria contato. Ainda se virou e disse: - De qualquer forma, é lógico que eles sabem que uma visita a Terra, um planeta tão atrasado e até mesmo bárbaro, é sempre arriscada. O homem desapareceu na esquina, e Roberto decidiu voltar para a casa dos Faroleiros.
Continua na próxima segunda, no Espaço Literatura Os personagens, conceitos e situações do conto apresentado baseiam-se em obras de autoria de Renato A. Azevedo, registradas na Fundação Biblioteca Nacional. É vedada a cópia ou reprodução por qualquer meio sem a prévia autorização do autor. Esta é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência. Contato pelo email escritorcomr@uol.com.br . Até mais!
Escrito por Escritor às 09h19
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